Uma enfermeira-farmacêutica preenche um formulário para registrar os medicamentos entregues aos pacientes na farmácia do centro de saúde de referência de Sake, que conta com o apoio de MSF como parte de sua resposta de emergência. ©Jospin Mwisha

À medida que a violência se intensificou no leste da República Democrática do Congo (RDC), em 2025, Médicos Sem Fronteiras (MSF) ampliou suas atividades para responder ao crescimento das necessidades médicas e humanitárias da população.

Nossas equipes expandiram rapidamente a assistência às pessoas afetadas pelos confrontos entre as forças governamentais, o grupo armado M23 e seus respectivos aliados nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul. Ao longo do ano, o M23 ampliou seu controle sobre extensas áreas dessas duas províncias, incluindo suas capitais, Goma e Bukavu.

Também lançamos respostas emergenciais na província de Ituri, que continua devastada pela violência entre comunidades, e em Maniema, onde outro conflito armado segue em curso. Paralelamente às ações de emergência, mantivemos nossos projetos regulares e apoiamos as autoridades de saúde congolesas no combate a diversas epidemias em todo o país.

 

Escalada do conflito no leste 

O conflito armado que assola o leste da RDC há mais de 30 anos se agravou em 2025, provocando novas ondas de deslocamento em massa e um aumento dramático das necessidades de alimentação, segurança, assistência à saúde e proteção, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis, como mulheres, crianças e pessoas idosas. Hospitais em Kivu do Norte, Kivu do Sul, Ituri e Maniema receberam um grande número de pessoas feridas. Os relatos dos pacientes revelavam níveis extremos de violência, incluindo massacres, sequestros e violência sexual. Em Kivu do Norte e Kivu do Sul, os sistemas de saúde praticamente entraram em colapso, após a destruição de unidades de saúde e a interrupção do fornecimento de medicamentos e outros insumos médicos durante os combates.

Nas poucas unidades que permaneceram em funcionamento, os pacientes chegavam em estado crítico, após dias de caminhada em busca de atendimento. Em alguns casos, civis foram deliberadamente atacados, como ocorreu em Binza, em Kivu do Norte, durante o verão. Em outros, acabaram atingidos pelo fogo cruzado ou por balas perdidas. Os profissionais de saúde trabalharam em condições extremamente difíceis, expostos a ataques e sobrecarregados pela escassez de pessoal. Três colegas de MSF perderam a vida ao longo do ano, enquanto unidades de saúde apoiadas por MSF em Masisi, Walikale, Goma, Rutshuru e Uvira foram atingidas por disparos e invadidas por homens armados.

Em meio a esse cenário extremamente instável, MSF permaneceu entre as poucas organizações que continuaram prestando atendimento direto às populações afetadas pelo conflito. Nas unidades de saúde apoiadas por nossas equipes em Mweso, Masisi, Walikale, Goma, Rutshuru, Minova, Uvira, Fizi e Bunyakiri, tratamos pacientes com ferimentos causados por armas de fogo e estilhaços, além de outros traumas relacionados à violência. Também oferecemos cirurgias de emergência e apoio psicológico essencial. Ao longo de 2025, prestamos ainda atendimento médico e psicológico a milhares de sobreviventes de violência sexual, que permaneceu amplamente disseminada no país.

 

Ituri e Maniema 

Em Ituri, a crise humanitária permanece amplamente negligenciada pelas autoridades nacionais e pela mídia internacional, apesar da enorme dimensão das necessidades da população. Há décadas, a província é marcada por conflitos envolvendo grupos armados locais, milícias e movimentos rebeldes, alimentados por rivalidades entre comunidades e por dinâmicas regionais mais amplas.

Em 2025, a situação voltou a piorar, com uma série de ataques contra civis, comunidades deslocadas e até mesmo locais considerados refúgios seguros, como campos de deslocados internos e unidades de saúde.

Como o número de pacientes com ferimentos graves relacionados à violência praticamente dobrou em poucos meses, ampliamos nosso apoio à Clínica Salama, em Bunia, instalando leitos adicionais. Muitos dos pacientes atendidos apresentavam fraturas expostas, ferimentos por arma de fogo ou lesões causadas por estilhaços.

MSF manteve suas atividades nos hospitais gerais de Angumu e Drodro, bem como em diversos centros de saúde e postos comunitários, oferecendo assistência básica e serviços especializados, como o tratamento da malária e de infecções respiratórias, além de cuidados materno-infantis. Também prestamos atendimento básico de saúde e apoiamos a resposta a surtos de doenças em Adii e Zapay, diante da chegada de um grande número de refugiados provenientes do Sudão do Sul e da República Centro-Africana.

Na província de Maniema, ampliamos nossa resposta para atender às necessidades urgentes de saúde das populações afetadas pelo conflito. Ao mesmo tempo, concluímos a transferência do projeto de Salamabila para as autoridades locais de saúde, após sete anos de atuação, durante os quais alcançamos os objetivos estabelecidos, entre eles a redução da mortalidade materna. O projeto oferecia atendimento a pessoas com ferimentos relacionados à violência, tratamento da malária e da desnutrição aguda, assistência materna e cuidados integrais para vítimas e sobreviventes de violência sexual, reunindo tratamento médico, apoio psicológico e assistência socioeconômica.

 

Resposta a epidemias 

Em 2025, MSF lançou diversas respostas emergenciais para enfrentar epidemias em diferentes regiões da RDC, em um contexto marcado pelo agravamento da insegurança, pelo limitado comprometimento das autoridades e pela retirada de várias organizações humanitárias em consequência dos cortes no financiamento internacional.

Nossas equipes trataram pacientes e realizaram campanhas de vacinação para conter surtos de sarampo nas províncias de Alto Catanga, Alto Lomami, Tanganica, Ubangi do Norte, Ubangi do Sul, Baixo Uele, Kivu do Norte, Kivu do Sul e Maniema.

A RDC também enfrentou uma grave epidemia de cólera, uma das mais severas da última década. Diante da rápida disseminação da doença, MSF enviou equipes de emergência para Mai-Ndombe, Kinshasa, Alto Catanga, Equador, Tshopo, Maniema, Kivu do Norte e Kivu do Sul, apoiando as autoridades de saúde com atendimento médico e campanhas de vacinação.

Outras respostas a surtos em 2025 incluíram o tratamento de pacientes com mpox em Kivu do Sul, Kinshasa e Ubangi do Sul; o combate ao recrudescimento da malária em Fizi; e o apoio às autoridades sanitárias no controle de surtos de ebola em Kasaï e de febre tifoide em Sankuru.

 

Projetos regulares 

Além das ações de emergência, MSF mantém projetos permanentes em diversas regiões da República Democrática do Congo. Capacitamos redes de agentes comunitários de saúde e apoiamos unidades de saúde em diferentes áreas, incluindo atenção básica e especializada, tratamento da desnutrição, cirurgia, saúde sexual e reprodutiva, controle da malária e apoio em saúde mental. 

Em Kinshasa, MSF oferece atendimento a pessoas vivendo com HIV no Hospital Kabinda e em cinco centros de saúde. Nossas equipes também fortalecem a adesão ao tratamento por meio de grupos de jovens organizados em quatro zonas de saúde da capital. 

Dados referentes a 2024

2.281.100

Consultas ambulatoriais

20.200

Crianças admitidas em programas hospitalares de alimentação terapêutica

2.884

Profissionais em tempo integral

183.100

Admissões em serviços de emergência

54.600

Pessoas atendidas por violência sexual

141,1 milhões de euros

Despesas

25.200

Pessoas com cólera tratadas

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