Foto: Peter Casaer/MSF

Conflitos armados e guerras

Cerca de um quarto de nossos projetos são dedicados a fornecer assistência a pessoas que vivem em zonas de guerra e conflitos armados, como no Iêmen, Sudão do Sul, República Centro-Africana, Iraque, Nigéria e Síria, entre muitos outros.

 

Consequências da guerra

Apesar de existirem leis internacionais que deveriam proteger homens, mulheres e crianças durante conflitos armados, testemunhamos frequentemente o alto preço que essas pessoas pagam. Após mais de seis anos de guerra, o Iêmen ilustra a devastação causada por ataques indiscriminados ou direcionados que matam e ferem pessoas e destroem a infraestrutura civil.

– “As salas de emergência e as salas de cirurgia estavam lotadas de feridos. Eles receberam aproximadamente 70 pacientes em um dia. Tratamos pessoas com ferimentos de balas, estilhaços e minas terrestres. Foi um cenário extremamente chocante para se chegar”, Arunn Jegan, coordenador de projeto em Taiz, Iêmen, fevereiro de 2018.

Em casos extremos, as comunidades podem ser deliberadamente privadas de assistência ou coletivamente “punidas” se forem consideradas como vinculadas a um grupo “inimigo”.

Lesões de trauma aumentam durante o conflito armado, exigindo mais cirurgias e cuidados de emergência. Da mesma forma, as necessidades médicas regulares aumentam à medida que os serviços de saúde entram em colapso. Mulheres grávidas ou pessoas com doenças crônicas como diabetes ou HIV ficam particularmente vulneráveis. À medida que as commodities se tornam escassas, o preço dos alimentos básicos e itens de primeira necessidade disparam, enquanto o medo, a insegurança e a perda geram sofrimento psicológico.

Vemos regularmente um aumento nos casos de violência sexual durante o conflito. Às vezes, estes ataques são usados para subjugar uma comunidade. Por exemplo, um grupo de pelo menos 10 mulheres foi violentada sexualmente por uma gangue, em fevereiro de 2018, perto de Bossangoa, no oeste da República Centro-Africana. Com o conflito em curso na área, demorou um mês para obter cuidados médicos.
Em 2020, nossas equipes trataram 10.810 vítimas de violência sexual em seis províncias da República Democrática do Congo: Kasai-Central, Kivu do Norte, Ituri, Kivu do Sul, Maniema e Alto Katanga; 63% relataram ter sido violentadas por homens armados.

Em zonas de conflito, dependendo das prioridades, podemos montar salas de cirurgia, clínicas, programas de nutrição, controle de epidemias, atendimento médico para vítimas de violência sexual e maternidades, entre outros serviços.

Forçadas a fugir de casa

Os conflitos geralmente arrancam as pessoas de suas casas, deixando-as deslocadas em seu próprio país ou refugiadas em outro. Oferecemos atendimento médico para as pessoas deslocadas por conflitos, geralmente em acampamentos de refugiados e deslocados internos.

Viagens perigosas e as condições precárias do local de destino comprometem sua saúde e o seu bem-estar. As crianças deixam de ser vacinadas, as mulheres continuam a ter bebês e doenças sazonais como a malária surgem implacavelmente.

Epidemias

O conflito e o deslocamento podem ser catalisadores de epidemias e surtos de doenças. Viver em condições precárias e pouco higiênicas pode ser um terreno fértil para a cólera ou o sarampo. A insegurança e o colapso dos sistemas de saúde impediram que as pessoas recebessem cuidados de saúde preventivos, incluindo vacinas.

Na República Centro-Africana, por exemplo, a cobertura da imunização de rotina despencou depois que o país mergulhou em violência e instabilidade em 2013. A taxa de cobertura vacinal contra o sarampo caiu de 64% para 25%. Em resposta, em 2016, organizamos uma campanha de vacinação em massa com o Ministério da Saúde, imunizando 220 mil crianças menores de cinco anos.

Nós não tomamos partido

Em zonas de conflito, MSF não toma partido. Oferecemos atendimento médico baseado somente nas necessidades e trabalhamos para tentar alcançar as pessoas que mais precisam de ajuda. É fundamental para nós conversarmos com todas as partes em um conflito para obter acesso e prestar assistência às comunidades afetadas.

Uma das maneiras de manter nossa independência é garantir que todo o nosso financiamento para o trabalho em conflitos venha de pessoas físicas ou jurídicas. Globalmente, aceitamos poucos subsídios governamentais e nas zonas de conflito não usamos fundos de governos que tenham qualquer tipo de vínculo com o conflito.

Apesar de não apoiar nenhuma das partes beligerantes, nem sempre estamos presentes em todos os lados do conflito. Isto pode se dar devido ao acesso que não nos é concedido por uma ou mais partes, ou por insegurança, ou porque as principais necessidades da população já foram atendidas.

Na Síria, por exemplo, só podemos trabalhar em algumas áreas controladas por grupos armados de oposição. A violência e a insegurança, os ataques às instalações de saúde e aos profissionais de saúde e a ausência de autorização do governo para trabalhar na Síria têm sido alguns dos principais obstáculos para estender as atividades médicas diretas a todas as áreas.

 

A logomarca de MSF

Aprendemos que, em meio à realização de intervenções humanitárias essenciais que são visivelmente imparciais e neutras – e quando esses atributos são percebidos e entendidos completamente pelas comunidades locais –, a logomarca de MSF estampada em uma camiseta é, frequentemente, mais efetiva para a proteção de nossas equipes do que um colete à prova de bala. Isso é reflexo do trabalho de nossos coordenadores de projeto e de emergência que, quando em zonas de guerra, dedicam parte considerável de seu tempo às negociações com diferentes grupos armados.

Quando uma equipe de MSF é percebida por todos como neutra, imparcial e independente, e quando essas palavras são claramente entendidas e apreciadas porque se traduzem em ações concretas em campo, é quando estamos mais a salvo.