Emergência climática

Os impactos das mudanças climáticas na saúde já são um fardo para muitas pessoas no mundo, incluindo nossos pacientes.

Trabalhamos em alguns dos ambientes mais vulneráveis ao clima do mundo, respondendo a muitas das crises mais urgentes – conflitos, desastres naturais, surtos de doenças e deslocamento. São locais onde as pessoas já não têm acesso ou estão excluídas dos cuidados básicos de saúde. Essas pessoas também são as menos responsáveis pelas emissões que 

emergência climática agrava algumas crises humanitárias e suas consequências subsequentes para a saúde, que afetam ainda mais as pessoas nesses ambientes vulneráveis. 

Como uma organização médica, está além do nosso campo de especialização definir o que causa muitos dos eventos aos quais respondemos. E embora nossas equipes em alguns lugares tenham notado mudanças ao longo dos anos, as evidências científicas existentes apontam claramente que veremos temperaturas mais altas, o aumento do nível do mar e eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos. 

O que estamos testemunhando e fazendo? 

Muitas das consequências das mudanças climáticas – inundações, secas, tempestades severas – não são problemas novos. Mas a emergência climática está causando uma intensificação desses eventos, tanto em gravidade quanto em frequência. Já estávamos respondendo às consequências desses eventos climáticos extremos, mas prevemos que eles vão piorar nos próximos anos. 

Malária e dengue 

O aumento das chuvas parece estar aumentando o número de pessoas com doenças transmitidas por vetores (insetos), como malária e dengue. Na zona de saúde de Angumu, na República Democrática do Congo, a malária é a principal causa de morte entre crianças menores de cinco anos. Nos últimos anos, nossas equipes observaram o que parece ser uma tendência de fortes chuvas e trataram um grande número de pacientes com malária na área. Em 2018 e 2019 em Honduras, considerado um hotspot de mudanças climáticas, respondemos ao pior surto de dengue do país em 50 anos, após uma prolongada estação de chuvas. 

Desnutrição 

Acredita-se que a seca e as enchentes já tenham causado impacto na desnutrição em algumas das regiões em que atuamos. Em Niamey, Níger, onde as chuvas trouxeram inundações e destruíram plantações, nossas equipes observaram e responderam, nos últimos dois anos, ao aumento dos casos de desnutrição. Por outro lado, nas regiões desérticas do sul de Madagascar, três anos consecutivos de seca afetaram severamente as colheitas e o acesso aos alimentos, em um contexto marcado pela pandemia COVID-19, que levou a uma queda no emprego sazonal e outras fontes de renda. 

Violência e conflito 

Em todo o Sahel, na África Subsaariana, as mudanças climáticas contribuíram para um desequilíbrio de terras disponíveis para criadores de gado e fazendeiros. A competição por recursos e a incapacidade das autoridades de negociar o acesso à terra resultaram em conflito entre os dois grupos, aumentando a violência e a insegurança em toda a região, onde respondemos às consequências fornecendo atendimento médico. O conflito, por sua vez, muitas vezes faz com que as pessoas sejam deslocadas. 

Refugiados e pessoas em movimento 

A mudança climática está influenciando cada vez mais a mobilidade humana à medida que mais lugares se tornam inabitáveis. Atualmente, milhões de pessoas estão em movimento e as condições que criam esse deslocamento provavelmente serão agravadas pelas mudanças climáticas. Em 2020, nossas equipes prestaram atendimento médico às pessoas em Honduras, deslocadas pelos furacões 

Eta e Iota ─ que foram as piores tempestades que atingiram a América Central desde o furacão Mitch em 1998. 

O que estamos fazendo para mitigar nosso impacto? 

Reconhecemos que estamos bastante atrasados para o desafio de lidar com a emergência climática. Mas já demos, e estamos dando, vários passos. Dada a natureza intensiva de carbono em nosso trabalho de resposta a crises em todo o mundo, reduzir nossa pegada de carbono apresenta muitos desafios. Mesmo assim, reconhecemos nossa contribuição para a degradação ambiental causada pelo homem e nossa obrigação ética de “primeiro não causar danos” às pessoas e ao planeta. 

Reduzindo nossa pegada de carbono 

No final de 2020, os órgãos de MSF de mais alto escalão – incluindo o Conselho Internacional – assinaram o Pacto Ambiental. O pacto é um reconhecimento do impacto ambiental de nossos deveres humanitários – que ainda são essenciais para a realização de nosso trabalho – mas também é um compromisso de adaptar nossas atividades para reduzir significativamente nossa pegada de carbono. As medidas para conseguir isso estão incorporadas aos planos estratégicos ou de ação de todas as principais entidades de MSF de 2021 em diante, incluindo mecanismos de prestação de contas. 

Evitando e reduzindo o desperdício 

Estamos trabalhando para garantir uma cadeia de suprimentos eficiente e socialmente responsável, a fim de reduzir, reutilizar e reciclar materiais e equipamentos médicos. Um exemplo é Uganda, onde iniciamos um projeto para substituir os milhões de sacolas plásticas que usamos todos os anos para distribuir medicamentos por sacolas ecologicamente sustentáveis usando recursos locais feitos por comunidades locais. Também estamos reduzindo o desperdício médico em nossos hospitais e clínicas, incluindo a exploração de opções para deixar de usar produtos descartáveis quando apropriado. 

Energia solar 

Estamos desenvolvendo novas soluções de energia, como o uso de painéis solares para alimentar algumas de nossas atividades médicas, bem como abordagens inovadoras que correspondem aos ambientes em que atuamos. Por exemplo, no Paquistão, instalamos sistemas de painel solar nas instalações que apoiamos em Dera Murad Jamali, Chaman e Kuchlak, todas na província de Baluchistão do país. Apoiados por rede ou gerador de eletricidade, esses sistemas fornecem energia ininterrupta para iluminação, ar-condicionado, ventiladores, bombeamento e resfriamento de água. 

Reduzindo viagens aéreas 

Estamos reduzindo nossas viagens internacionais por via aérea, por exemplo, participando de reuniões ou workshops de forma virtual em vez da modalidade presencial. Também estamos adquirindo suprimentos médicos mais próximos dos locais onde trabalhamos. Essas mudanças também se aceleraram devido ao impacto da pandemia da COVID-19 sobre o transporte internacional e sobre as viagens de profissionais.