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Iêmen

Equipe de cirurgia no hospital de emergência que MSF mantém no norte de Aden, no Iêmen. (Foto: Pascale Marty/MSF)
Iêmen
Paises em que MSF atua

Após quatro anos de guerra, o sistema de saúde iemenita está em ruínas. O conflito intensificou-se ao longo de 2018, com rápidas mudanças das frentes de batalha e ataques contra civis em todo o país.

Em 2018, Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalhou em 13 hospitais e centros de saúde e apoiou mais de 20 instalações de saúde em
12 províncias. No entanto, ataques repetidos às nossas equipes médicas e instalações durante o ano forçaram-nos a suspender as atividades em diversas áreas.

A insegurança e as restrições de acesso  também impediram que nós – e outras organizações – coletássemos dados confiáveis sobre as necessidades nutricionais e humanitárias em todo o país. Nossas equipes trataram a desnutrição de 5.700 crianças nas províncias de Hajjah, Saada, Amran, Ibb e Taiz, mas não viram sinais iminentes de fome – ao contrário do que a Organização das Nações Unidas e outros sugeriram.

O número de mortes relacionadas  com  a guerra e, portanto, com a escalada do conflito, também foi deturpado em 2018, quando o número oficial de mortes decorrentes da guerra permaneceu em 10 mil – inalterado desde  2016. Esse valor já foi contradito por uma
visão mais realista, ainda assim conservadora, estimada em 60 mil.¹ Mais de 119 mil pessoas com ferimentos relacionados com a guerra   e a violência foram atendidas em instalações de MSF e instalações apoiadas por MSF entre março de 2015 e dezembro de 2018.

Cuidados médicos e cirúrgicos na frente de batalha de Hodeidah
Em 13 de junho de 2018, uma ofensiva foi lançada pelas forças da coalizão liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, leal ao presidente Hadi, para tomar Hodeidah das tropas de Ansar Allah. Em resposta ao intenso combate ao longo dessa frente de batalha nos três meses seguintes, abrimos um hospital cirúrgico em Mocha em agosto e realizamos quase 1.300 cirurgias de grande porte até o fim do ano. Além    de pacientes feridos de guerra,  recebemos gestantes com complicações que necessitavam de cirurgia urgente. Os encaminhamentos são feitos para nosso centro de traumas em Aden, onde as equipes de MSF realizaram mais de 5.400 cirurgias, 90% delas relacionadas com a violência em 2018.

Após o fracasso nas negociações  de  paz, uma nova ofensiva em Hodeidah começou em meados de setembro. Confrontos diários bloquearam parcialmente a estrada principal de Hodeidah a Sanaa e levantaram temores de um cerco ao redor da cidade. Em setembro, começamos a prestar atendimento médico e cirúrgico de emergência no hospital Al Salakhana, no nordeste da cidade, após reabilitar o pronto-atendimento e os centros cirúrgicos. No início de novembro, enquanto os combates intensificavam-se ainda mais, Al Salakhana era um dos únicos três hospitais públicos ainda operando na área.

Ao mesmo tempo, iniciamos a reabilitação e o fornecimento de doações e apoio técnico a outros hospitais na província, em Al Udayn, Far Al Udayn e Ad Dahi, já que o conflito deslocou um grande número de pessoas e cortou seu acesso aos cuidados de saúde.

Em meados de dezembro, as partes em conflito concordaram com um cessar-fogo. O Acordo de Estocolmo  incluía a troca de prisioneiros, a criação de uma zona desmilitarizada ao redor de Hodeidah e a retirada das tropas de Ansar Allah. Também foi criado um comitê para discutir o futuro da cidade de Taiz, que, após quatro anos, ainda está dividida por frentes de batalha e é um exemplo cruel da necessidade urgente de mais ajuda médica.

Ataques a civis, profissionais médicos e instalações
De acordo com o grupo de monitoramento independente Yemen Data Project, 17.729 civis foram feridos ou mortos em ataques aéreos da coalizão militar entre 2015 e 2018, sendo Saada a província mais afetada em 2018: foi alvo de 1.306 ataques aéreos – 39% de todos os registrados e mais do que em qualquer outro ano desde 2015. Nossas equipes continuaram a trabalhar no hospital Haydan, em Saada, que foi totalmente reconstruído após ser destruído por um ataque aéreo da coalizão em 2015.

Em 11 de junho, um centro de tratamento de cólera de MSF foi bombardeado em Abs, na província de Hajja – menos de dois anos após o bombardeio do hospital de Abs –, que resultou em 19 mortes e 24 feridos. Essa foi a sexta vez que uma instalação de MSF foi atingida pelas partes em conflito desde 2015.

Além disso, fomos forçados a fechar nossos projetos na província de Ad Dhale depois que nosso alojamento de profissionais foi atacado com explosivos duas vezes em menos de uma semana em novembro. Nossas equipes trabalhavam em Ad Dhale desde 2012, apoiando as unidades de saúde nos distritos de Ad Dhale, Qataba, Al Azariq e Damt, para atender mais de 400 mil pacientes. No fim de dezembro, também encerramos nosso apoio ao hospital Razeh, na província de Saada, por sua proximidade com a frente de batalha e pelo alto risco para pacientes e profissionais.

As lacunas mais críticas no atendimento médico
O sistema de saúde iemenita está em ruínas em todo o país, porém mais evidentemente nas províncias do norte, onde os ataques aéreos da coalizão intensificaram-se no fim de 2017 e em 2018.

Muitos médicos foram embora, porque seus salários não eram pagos desde agosto de 2016 e poucos hospitais ainda funcionam. Os iemenitas lutam para ter acesso e pagar por produtos básicos, como combustível, alimentos e medicamentos, em razão de uma economia deteriorada. Além disso, o fechamento comercial do aeroporto de Sanaa impediu que as pessoas procurassem tratamento no exterior.

Em resposta à grande lacuna de serviços para mulheres e crianças, em particular, as equipes de MSF prestaram cuidados de saúde materna  e pediátrica nas províncias de Ad Dhale,  Amran, Hajjah, Ibb e Taiz em 2018.

Na costa oeste, um dos maiores problemas médicos em 2018 continuou sendo  a  falta de capacidade cirúrgica. No trecho de 450 quilômetros entre Hodeidah e Aden, de seis a oito horas de viagem, o hospital de MSF, em Mocha, é a única instalação com centro cirúrgico que serve à população local. Entre agosto e dezembro de 2018, nossas equipes em Mocha trataram mais de 150 pessoas feridas por minas terrestres, dispositivos explosivos improvisados e artefatos explosivos não detonados. Um terço delas eram crianças que brincavam  nos  campos.  Em  setembro, um relatório da Conflict Armament Research apontou a produção em larga escala de minas   e dispositivos explosivos improvisados  de Ansar Allah, bem como seu uso como minas antipessoais, anticarro e navais.

Surtos de doenças
Tratamos muito menos casos de cólera do que em 2017, mas, com condições para novas ondas da doença, a ameaça permaneceu. Abrimos um novo centro de tratamento de cólera para lidar com o aumento de casos confirmados e suspeitos em Ibb no fim de 2018.

Houve outro surto de difteria em 2018, com 570 pessoas tratadas por equipes  de  MSF em Abs, Ad Dhale, Ibb e Taiz. O sarampo também é uma preocupação, especialmente nas províncias de Saada, Hajjah e Amran. Em 2018, as equipes de MSF trataram 1.981 casos. A imunização continua sendo um enorme desafio: campanhas  de  vacinação em massa foram adiadas em várias ocasiões  e prejudicadas por restrições de acesso, especialmente em regiões remotas, e pela falta de autorização em algumas áreas.


¹ De acordo com o Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED)








 

Consultas ambulatoriais
Pacientes admitidos no hospital
Cirurgia de grande porte
535.600
63.100
24.600

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