No posto de saúde de Tawila Unda, equipes de MSF fazem a triagem dos pacientes, limpam feridas e prestam atendimento básico, encaminhando os casos mais graves para o Hospital de Tawila, no Sudão. ©Natalia Romero Peñuela/MSF

Ao longo de 2025, Médicos Sem Fronteiras (MSF) atuou em diferentes regiões do Sudão devastadas pela guerra, prestando assistência capaz de salvar vidas a pessoas expostas a atrocidades e à escassez extrema de água, alimentos e cuidados de saúde. 

Apesar dos ataques contra nossas instalações e das restrições de acesso, continuamos oferecendo uma ampla gama de serviços médicos às comunidades afetadas pelo conflito em curso entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF).

A situação humanitária no Sudão permanece catastrófica. Embora as partes em conflito sejam as principais responsáveis por essa realidade, a insuficiência da resposta humanitária e o fracasso da comunidade internacional em priorizar a proteção da população civil e o acesso humanitário agravaram ainda mais o sofrimento da população. Houve alguns avanços ao longo do ano na superação de entraves burocráticos — como a abertura do acesso transfronteiriço a Darfur a partir do Chade —, mas frequentemente era impossível obter vistos e autorizações de viagem para o leste do país ou conseguir, em tempo hábil, acesso para atravessar as linhas de frente. Em alguns casos, fomos deliberadamente impedidos de atender pessoas em situação crítica. Foi o que ocorreu em Darfur do Norte, onde o cerco imposto pelas RSF nos obrigou a interromper as atividades no campo de Zamzam, justamente quando seus habitantes já enfrentavam condições de fome.

 

Cólera e outros surtos de doenças

Em 2025, MSF seguiu respondendo ao mais grave surto de cólera registrado no Sudão nos últimos anos. No primeiro semestre, o número de casos diminuiu em alguns estados, como Norte e Kassala. No estado do Nilo Branco, porém, houve um aumento expressivo após ataques a uma usina de energia, em fevereiro, que interromperam o funcionamento das estações de bombeamento de água e obrigaram a população a recorrer a fontes contaminadas.

Em maio, os casos de cólera aumentaram drasticamente em Cartum e, em agosto, o surto se tornou incontrolável em Darfur. Em resposta, muitas vezes em parceria com outras organizações humanitárias, nossas equipes instalaram ou ampliaram centros de tratamento e pontos de reidratação oral, distribuíram água potável, doaram suprimentos médicos e logísticos e reforçaram as medidas de saneamento e controle de infecções nas áreas afetadas. 

Também registramos um aumento acentuado dos casos de sarampo em toda a região de Darfur, consequência da interrupção das campanhas de vacinação de rotina e das ações de resposta aos surtos. Reforçamos nossa capacidade de isolar e tratar pacientes com sarampo e promovemos diversas campanhas de vacinação, ao mesmo tempo em que cobramos das autoridades e dos parceiros da área da saúde medidas urgentes para conter a disseminação da doença. Muitas das crianças atendidas apresentavam simultaneamente sarampo e desnutrição aguda, combinação que elevava significativamente o risco de complicações potencialmente fatais. 

Para fortalecer a imunização infantil, nossas equipes coordenaram o fornecimento de vacinas e aprimoraram os sistemas logísticos de cadeia de frio. Em diferentes regiões do país, também tratamos pacientes com malária, dengue, difteria e coqueluche. 

 

Ataques generalizados contra civis e serviços de saúde 

Ninguém esteve a salvo dos combates. As duas partes em conflito bombardearam repetidamente áreas residenciais, mercados, comboios humanitários e hospitais. 

Nossas equipes atenderam sucessivos afluxos de vítimas nos serviços de emergência de Cartum, NyalaTawila e outras localidades. Ao longo do ano, nossos veículos e os locais onde atuamos também foram alvo de ataques. Em 10 de janeiro, uma de nossas ambulâncias foi atingida por disparos em Darfur do Norte enquanto transportava uma mulher em trabalho de parto. Um acompanhante morreu no ataque. Em agosto, durante uma incursão armada no Hospital de Zalingei, onde nossas equipes prestavam assistência, um funcionário do Ministério da Saúde foi ferido. Em novembro, outro profissional do ministério foi morto por disparos na mesma unidade de saúde. 

Em 2025, Darfur do Norte e os estados de Kordofan concentraram os episódios mais extremos de violência e assassinatos em massa, à medida que as SAF e as RSF disputavam o controle desses territórios. 

Em Darfur do Norte, fomos obrigados a interromper todas as atividades no campo de Zamzam em fevereiro, diante da intensificação dos ataques e do cerco que impedia a entrada de profissionais e suprimentos. Após a ofensiva de grande escala lançada pelas RSF contra o campo, em abril, passamos a oferecer atendimento de emergência e assistência cirúrgica na cidade vizinha de Tawila. 

Com a chegada contínua de pessoas que fugiam da violência em El-Fasher e arredores para os campos superlotados de Tawila, ampliamos significativamente nossa resposta. Distribuímos alimentos e água, expandimos os serviços de saúde e instalamos um hospital com capacidade para 250 leitos. 

Segundo as Nações Unidas, ao menos 6.000 pessoas foram mortas em apenas três dias durante a tomada de El-Fasher pelas RSF. Nas semanas seguintes, avaliamos a situação dos deslocados em diferentes pontos de Darfur e trabalhamos para localizar e prestar assistência aos sobreviventes. Também oferecemos atendimento integral a centenas de vítimas e sobreviventes de violência sexual. No fim do ano, o agravamento dos riscos à segurança nos obrigou a encerrar nossas atividades em Kornoi, Um Baru e Tina, onde mantínhamos serviços médicos e assistência humanitária. 

Em Kordofan do Sul, prestamos atendimento médico de emergência e distribuímos itens de ajuda humanitária — principalmente galões para armazenamento de água e kits de higiene — a pessoas deslocadas em cinco campos localizados nas montanhas Nuba. Entretanto, atrasos burocráticos e restrições de acesso frequentemente impediram nossas equipes de chegar a comunidades em situação extrema de vulnerabilidade, tanto em Kordofan do Norte quanto em Kordofan do Sul.

No estado de Cartum, retomamos, em maio, nossas atividades nos hospitais Bashair e Turkish, que haviam permanecido suspensas por vários meses devido aos repetidos incidentes de segurança. Durante o segundo semestre, centenas de milhares de pessoas começaram a retornar à capital, muitas delas encontrando suas casas destruídas e os serviços básicos em completo colapso.

 

Cuidados de saúde para mães e crianças

No Sudão, mulheres grávidas enfrentam enormes dificuldades para acessar o atendimento materno em tempo hábil, devido ao conflito, à escassez de unidades de saúde em funcionamento e aos custos inacessíveis de transporte. Quando finalmente conseguem chegar a um serviço de saúde, muitas já apresentam complicações que aumentam o risco de morte para elas e seus bebês.

Diante desse cenário, MSF concentrou esforços no fortalecimento da assistência pré-natal e hospitalar, dos sistemas de encaminhamento e do suporte nutricional em Nyala, Tawila e Zalingei. Também tratamos crianças com desnutrição nos hospitais e centros de saúde que apoiamos em diferentes regiões do país, incluindo a enfermaria especializada que administramos em Damazin, no estado do Nilo Azul.

Projetada originalmente para 36 leitos, essa unidade chega a operar com até 170 leitos durante o período de maior incidência de desnutrição. Mesmo fora desses períodos, porém, raramente volta a operar com sua capacidade original, devido à demanda permanentemente elevada por internações.

Dados referentes a 2024

1.439.320

Consultas ambulatoriais

40.800

Pessoas com cólera tratadas

406.87M

Litros de água clorada distribuídos

155.300

Pacientes internados

35.100

crianças admitidas em programas ambulatoriais de alimentação terapêutica

34.400

Partos assistidos

9.520

Pessoas com sarampo tratadas

4.310

Pessoas atendidas em decorrência de violência sexual

134,6 milhões de euros

Despesas

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