A guerra no Sudão: “A escolha é nossa”

Em Histórias de MSF, Jean-Nicolas Armstrong-Dangelser, que trabalhou como coordenador de emergência no país, reflete sobre como a inação aprofunda o sofrimento do povo sudanês

Uma mãe com suas filhas em uma unidade de saúde apoiada por MSF em Tawila, Sudão. Após mais de dois anos de dificuldades e deslocamentos sucessivos, ela relata alívio por finalmente ter acesso a cuidados médicos para si e sua família. Sudão. 2024. ©Mohammed Jamal Jibreel

Escrevi o poema abaixo na cidade de Porto Sudão, em junho de 2023, quando me inspirei na beleza avassaladora do Sudão, pelo qual me apaixonei há anos. Fiquei profundamente comovido com a violência que se espalha pelo país desde 15 de abril daquele mesmo ano.

Desde então, quantas outras atrocidades as pessoas tiveram de suportar em tantas partes do Sudão, como Cartum, Jazirah, Sennar, nos Kordofans, nos Darfurs.

Deserto imponente, rios imponentes,

O fluxo da vida no calor das paixões

É difícil alcançar as profundezas da mensagem

Parado em meio à ação

As areias e as águas falam a mesma língua

Estamos na encruzilhada do espaço e do tempo

O mais difícil é encarar o que é

As lágrimas são tanto de alegria quanto de tristeza

Ambas devem desaparecer ao vento

Podemos escolher ser um grão de areia em Merowe

Ou uma gota d’água no Nilo

Isso não mudará o que é

Continuaremos sendo observadores

Da vida desdobrando seus padrões

A violência e o amor são excesso de energia

A escolha é nossa

O que mais me impressionou durante todo o tempo e trabalho que dediquei à crise sudanesa foi a magnitude do desastre em curso. 

Não encontrei um único sudanês, dentro ou fora do país, que tenha sido poupado das consequências do conflito, direta ou indiretamente.”

Lembro-me de pessoas de Cartum em um dormitório estudantil superlotado em Porto Sudão, em maio de 2023. O local não estava preparado para abrigar dezenas de famílias, e elas nos contavam que não tinham nada além das roupas que vestiam, pois tiveram que deixar a capital de repente, quando os combates começaram.

Lembro-me dos refugiados que fugiram dos massacres de junho e novembro de 2023 em El Geneina, que conheci em maio de 2024, quando as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) iniciaram o cerco a El Fasher.

Eles relataram histórias terríveis que haviam presenciado no ano anterior, quando milhares de pessoas da comunidade em que viviam foram massacradas. E já temiam que o cerco a El Fasher resultasse em violências semelhantes.

Assista: 

Uma crise crescente e enormes necessidades humanitárias

Lembro-me dos moradores que nos contaram sobre a violência que enfrentaram em todo o estado de Jazirah. No final de outubro de 2024, a comunidade deles foi brutalmente atacada pelas RSF, forçando todos a fugir.

Na ocasião, respondemos pela segunda vez em poucos meses a uma onda de cólera, consequência dos acampamentos superlotados, sem água potável e sem saneamento adequado.

Lembro-me do pronto-socorro do hospital Al Nao, em Omdurman, em 1º de fevereiro de 2025, quando as RSF bombardearam um mercado em horário de pico, a poucos quilômetros da unidade de saúde.

O pronto-socorro estava lotado de pacientes, feridos e mortos. A equipe do Ministério da Saúde fazia tudo o que podia para salvar vidas e limpar o sangue espalhado pelo chão.”

Lembro-me do choque e da tristeza nos rostos das pessoas que voltavam para Cartum após o Ramadã. Elas retornavam para bairros inteiros completamente destruídos, após meses de intensos confrontos de rua e campanhas de bombardeios indiscriminados com artilharia pesada e ataques aéreos.

A desolação era uma indicação clara do objetivo das facções armadas de destruir o inimigo e manter o poder sobre a população, sem qualquer consideração pela preservação da vida e da dignidade humanas.

AJUDE MSF A CONTINUAR AGINDO EM EMERGÊNCIAS COMO ESTA. DOE! 

Lembro-me das mães na ala de neonatologia do Hospital Universitário de El Geneina, contando quantos recém-nascidos haviam morrido somente na semana anterior por causa das imensas lacunas na prestação de serviços de saúde em Darfur Ocidental.

 

A magnitude da devastação no Sudão é de partir o coração.

Solidariedade do povo sudanês

Todo o tecido social está sendo despedaçado, e as pessoas são forçadas a tomar partido pela força das circunstâncias.

A complexidade dessa dinâmica é grande demais para ser explicada em poucas frases, mas o ponto mais importante a ser compreendido é quão profunda é a ferida do povo sudanês e como ela continua a se aprofundar a um ritmo alarmante, acompanhando o ritmo das notícias horríveis que chegam diariamente.

Centro de Trânsito de Renk, onde refugiados e repatriados que fugiram do Sudão se refugiam da guerra. Abril de 2026, Sudão do Sul. © Giulia Gustavsen Angelini/MSF

As forças em jogo emergem de divisões étnicas que as partes beligerantes estão explorando em benefício próprio, assim como as potências coloniais fizeram antes delas.

As causas dessas fraturas sociais estão profundamente enraizadas no passado, e as repercussões dos eventos atuais serão sentidas por gerações no futuro.

Eu não qualificaria o que estamos testemunhando no Sudão como desumano, pois este é o primeiro passo de um processo de “outrificação” que está na raiz da situação atual. Trata-se, antes, do lado mais sombrio da humanidade, exposto por meio das ações perpetradas contra a população civil no Sudão nos últimos meses.

Infelizmente, isso nos lembra com muita clareza o genocídio do início dos anos 2000. A violência desencadeada durante aquele período envolveu exatamente os mesmos atores em ação hoje, embora muitas relações e alianças tenham mudado nesse intervalo.

Por muito tempo — e ainda até o momento em que este texto é escrito —, os atores armados no Sudão estão negando a humanidade de comunidades inteiras em seus documentos oficiais e discursos, a fim de justificar o extermínio físico e cultural de um povo.

No entanto, a violência e a escuridão não são os únicos fatores que ecoam do passado na situação atual.

A generosidade, a coragem e a ousadia do povo sudanês também estão dando continuidade a antigas tradições de solidariedade de diversas formas.”

As cozinhas comunitárias alimentaram milhões de pessoas por meses, senão anos, e continuam a fazê-lo.

As redes de médicos e as salas de emergência tratam centenas de milhares de pacientes e salvaram inúmeras vidas.

E esses são apenas alguns exemplos do ecossistema de ajuda mútua que existe no Sudão.

Eles não estão apenas realizando um trabalho incrível, mas também constituem a maior parte da ajuda que o povo sudanês está recebendo, especialmente em áreas que estão fora do alcance de organizações internacionais e instituições estatais há meses.

Gostaria de prestar uma homenagem especial a todos os nossos colegas sudaneses, os quais admiro pelo compromisso, amor e determinação. São eles que incansavelmente continuam a defender o que há de mais brilhante na humanidade, apesar do medo, do desespero e da devastação nos momentos mais sombrios.

Sinto-me orgulhoso e honrado por trabalhar ao lado deles.

 

Não agir é uma decisão 

A ajuda mútua floresceu a partir da tradição e da convicção, mas também por necessidade.

À medida que o conflito se arrasta, as necessidades seguem crescendo em cada vez mais regiões do país; as armas continuam a chegar de potências estrangeiras, apesar de um embargo constantemente violado — que deveria ter sido ampliado de Darfur para abranger todo o país —; e o financiamento internacional diminui de forma constante.

Os mecanismos internacionais, como o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), as organizações internacionais e as potências estrangeiras profundamente envolvidas, direta e indiretamente, também falharam com o povo sudanês. Apesar da resolução 2736 do CSNU exigir que as RSF pusessem fim ao cerco em El Fasher, nenhuma ação concreta ou significativa foi tomada.

Khadija (nome alterado para proteção) é uma jovem deslocada pela guerra que buscou refúgio em El Geneina, no Sudão. Mesmo que a guerra termine, ela afirma que não pode voltar para a casa onde vivia, que foi vendida sem a autorização de sua família por uma das partes envolvidas no conflito. ©Moises Saman

Na era da “pós-verdade” em que vivemos, cada beligerante alega ser o defensor do povo e do direito internacional humanitário, enquanto os tomadores de decisão afirmam não ter influência para mudar o curso das ações.

Declarações vazias são gestos sem sentido. O povo sudanês ainda não viu uma verdadeira vontade política para concretizar mudanças em suas vidas. 

Apesar dos repetidos alertas da história, de especialistas, de profissionais de projetos e dos próprios sudaneses, as pessoas com poder de agir por meio dos sistemas internacionais existentes não conseguiram impedir a perda de centenas de milhares de vidas.

Esta guerra não é esquecida inadvertidamente, mas sim conscientemente ignorada. O que acontece agora era previsível, mas não inevitável.

A escolha é nossa.

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