Um carro de MSF descarrega equipe e suprimentos em Mayen Abun, no condado de Twic, no Sudão do Sul. ©Maurizio Debanne/MSF

O Sudão do Sul concentrou uma das maiores operações de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em 2025. Nossas equipes responderam a necessidades de saúde imensas, impulsionadas por surtos de doenças, conflitos e deslocamentos em massa. 

 

A situação, que já era extremamente grave, foi exacerbada pela redução significativa do financiamento internacional destinado a iniciativas humanitárias e de desenvolvimento e pela fragilidade do sistema nacional de saúde. O aumento das tensões políticas e da violência restringiu ainda mais o acesso da população aos cuidados médicos e a outros serviços essenciais ao longo do ano.

 

Ataques aos serviços de saúde

Em 2025, o conflito armado se intensificou consideravelmente, acompanhado por um aumento dos ataques contra unidades de saúde, profissionais e pacientes. Ao longo do ano, registramos nove ataques contra nossas equipes e instalações em localidades como Ulang, Old Fangak, Morobo, Yei River e Lankien. Esses episódios tornaram ainda mais difícil para a população o acesso aos cuidados de saúde. Depois que nosso hospital em Ulang foi saqueado e destruído, fomos obrigados a encerrar as atividades na instituição e a retirar nosso apoio a 13 unidades de atenção primária à saúde no condado. Após o bombardeio do hospital de Old Fangak, também encerramos as atividades na unidade e as transferimos para Toch.

No estado da Equatória Central, suspendemos nossas atividades nos condados de Yei River e Morobo após o sequestro de um integrante da equipe. Em Lankien, bombardeios nas proximidades do hospital de MSF nos obrigaram a retirar parte dos profissionais, mantendo apenas uma equipe reduzida para dar continuidade ao atendimento.

 

Enfrentando o surto de cólera 

O surto de cólera, iniciado em outubro de 2024 e considerado o maior da história do país, continuou a se espalhar pelo Sudão do Sul ao longo de 2025, atingindo diversos estados e impondo uma pressão ainda maior sobre um sistema de saúde já sobrecarregado. A rápida disseminação da doença foi impulsionada pelos deslocamentos em massa provocados pelos conflitos, pela limitada capacidade de resposta a emergências e pela crônica insuficiência dos serviços de abastecimento de água, saneamento e higiene. Nenhum projeto de MSF no país ficou imune aos impactos da cólera. 

Em janeiro, os casos aumentaram rapidamente no estado de Unity, especialmente em Bentiu e em áreas vizinhas. Em seguida, entre fevereiro e março, um novo foco surgiu em Akobo, um condado remoto localizado na fronteira no estado de Jonglei e com infraestrutura de saúde extremamente limitada. Mais de mil casos foram registrados no local em apenas um mês. 

Em resposta, instalamos centros de tratamento de cólera (CTCs), fornecemos insumos médicos, treinamento e apoio assistencial aos hospitais de Akobo e Bentiu e à cidade de Rubkona. Também apoiamos uma campanha de vacinação oral contra a cólera no campo de deslocados de Bentiu. 

Além disso, mantivemos CTCs em Malakal e Ulang, no estado do Alto Nilo, e apoiamos o Ministério da Saúde na capital, Juba, com a implantação de uma unidade de tratamento de cólera, o fortalecimento da vigilância epidemiológica, campanhas de vacinação e melhorias nos sistemas de abastecimento de água e saneamento. 

 

Resposta à malária e às enchentes 

A malária continua sendo a principal causa de adoecimento e morte no Sudão do Sul, com surtos estreitamente relacionados ao período das chuvas e às condições ambientais. A elevada carga da doença reflete deficiências mais amplas do sistema de saúde, como a escassez de medicamentos antimaláricos e a implementação irregular de medidas preventivas, entre elas a quimioprevenção sazonal e a distribuição de mosquiteiros impregnados com inseticida. Antes do período de maior transmissão, realizamos quimioprevenção para proteger crianças menores de cinco anos nos condados mais afetados, como Twic e Aweil. Em outubro, durante o pico da temporada de malária, doamos medicamentos essenciais e outros insumos ao setor pediátrico do Hospital Estadual de Yambio e capacitamos os profissionais em prevenção e controle de infecções e gestão de resíduos. 

Ao longo do ano, também tratamos pacientes com malária em Bentiu, Leer e Old Fangak após enchentes severas, que provocaram destruição em larga escala e aumentaram o risco de doenças transmitidas pela água, como cólera e febre tifoide. No início de agosto, identificamos ainda um aumento expressivo de casos suspeitos de hepatite E em Aweil, associado às precárias condições de abastecimento de água, saneamento e higiene. A doença afetava de forma especialmente grave gestantes pessoas imunossuprimidas. Muitas chegavam tardiamente ao hospital, e algumas morreram. Nossa resposta incluiu o tratamento dos pacientes, a distribuição de pastilhas de cloro para purificação da água e a recuperação de poços e bombas manuais. 

 

Apoio às pessoas deslocadas pela guerra no Sudão 

Desde o início da guerra no Sudão, em abril de 2023, mais de um milhão de refugiados e pessoas que retornavam ao país cruzaram a fronteira do Sudão para o Sudão do Sul, impondo enorme pressão sobre os serviços locais de saúde, especialmente no estado do Alto Nilo e na Área Administrativa de Abyei. Muitas dessas pessoas chegaram sem qualquer recurso após semanas de uma viagem perigosa, durante a qual enfrentaram violência, incluindo agressões sexuais e de gênero, além de extorsão. 

À medida que a crise se agravava, ampliamos significativamente nossa resposta médica e humanitária em Renk. Nossas equipes mantiveram clínicas móveis nos assentamentos informais de Atam, Gosfami e Girbanat para atender ao grande fluxo de pessoas que fugiam da violência. Também apoiamos o tratamento e fornecimento de água potável, reduzindo o risco de doenças de transmissão hídrica nessas áreas. 

Prestamos atendimento a pessoas com uma ampla variedade de problemas de saúde, incluindo doenças agudas e crônicas, complicações obstétricas, ferimentos relacionados à violência e transtornos de saúde mental. No Hospital Civil de Renk, atuamos nas enfermarias de pediatria, maternidade e cirurgia, além do banco de sangue. Também contribuímos para o funcionamento da unidade fornecendo água, eletricidade e alimentação aos pacientes. 

 

Transferência das atividades médicas para fortalecer os serviços de saúde 

Em 2025, concentramos esforços em garantir um acesso mais sustentável aos cuidados de saúde por meio da integração gradual de serviços essenciais às unidades do Ministério da Saúde. Essa mudança estratégica buscou fortalecer o sistema público de saúde e preservar a capacidade das autoridades de responder de forma eficaz às emergências. 

Em junho, após mais de uma década administrando um hospital no campo de deslocados de Bentiu, concluímos a transferência de todos os nossos principais serviços médicos para o Hospital Estadual de Bentiu, unidade pública administrada em parceria com o Ministério da Saúde. 

Em julho, também transferimos nossas atividades de longa duração no Campo de Proteção de Civis de Malakal para o Hospital Universitário de Malakal, contribuindo para a construção de um sistema de saúde mais eficiente e acessível para a população da cidade e de todo o estado do Alto Nilo. Além disso, reforçamos a oferta de cirurgias que salvam vidas no hospital por meio da reforma do centro cirúrgico e de uma enfermaria pós-operatória com 30 leitos. Também disponibilizamos profissionais especializados para auxiliar na realização de cesarianas de emergência e no atendimento a vítimas de trauma. 

No fim de 2025, MSF iniciou um novo projeto no estado do Alto Nilo. Com uma abordagem flexível para apoiar diferentes unidades de saúde ao longo do rio Sobat, passamos a oferecer atendimento médico urgente às populações afetadas pelo deslocamento e pelo conflito. 

Dados referentes a 2024

663.900

Consultas ambulatoriais

236.400

Casos de malária tratados

2.660

Pessoas atendidas em decorrência de violência sexual

27.600

Pessoas com cólera tratadas

11.200

Intervenções cirúrgicas

162.900

Vcinações de rotina

91.400

Pacientes internados

4.920

Pessoas tratadas em decorrência de violência física intencional

3.418

Profissionais em tempo integral

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