A promotora de saúde de MSF, Zainab Khalifa, conduz uma sessão de conscientização sobre desnutrição, explicando como identificar seus sinais, lidar com a situação e garantir o acompanhamento adequado das crianças e mães. ©Nour Alsaqqa/MSF

Em 2025, apesar do bloqueio imposto por Israel e da obstrução deliberada ao acesso humanitário, Médicos Sem Fronteiras (MSF) ampliou suas atividades na Palestina para atender pessoas que necessitavam de cuidados médicos, incluindo feridos e deslocados pelo genocídio em Gaza.

 

Gaza

Em 2025, Israel deu continuidade à sua campanha devastadora em Gaza, marcada por violência brutal e incessante e por meses de bloqueio. Essas ações privaram a população de itens essenciais à sobrevivência, como alimentos e água, e levaram algumas áreas a condições de fome a partir de agosto. Até 31 de dezembro, 71.266 pessoas haviam sido mortas pelas forças israelenses desde o início da guerra. Nesse mesmo período, a infraestrutura civil e o sistema de saúde da Faixa de Gaza foram sistematicamente destruídos.

Ao longo de todo o ano, palestinos foram sucessivamente deslocados à força e confinados a uma área geográfica cada vez menor. As equipes de MSF que atuaram em serviços de emergência responderam a diversos incidentes com grande número de vítimas, recebendo centenas de pessoas mortas ou feridas em ataques israelenses no sul de Gaza. 

Também testemunhamos o progressivo desmantelamento do espaço humanitário pelas autoridades israelenses, incluindo a substituição da resposta coordenada pelas Nações Unidas por um sistema militarizado de distribuição de alimentos administrado pela Gaza Humanitarian Foundation (GHF). Esse modelo resultou em episódios de violência e mortes nos pontos de distribuição de alimentos. Nossas clínicas passaram a receber um número crescente de pacientes — muitos deles crianças — com ferimentos por arma de fogo, lacerações e lesões por esmagamento, atingidos por disparos ou feridos em meio ao caos enquanto tentavam conseguir comida. Em toda a Faixa de Gaza, as equipes de MSF trataram um número cada vez maior de crianças com desnutrição moderada e grave até a entrada em vigor do cessar-fogo, em 10 de outubro.

MSF exigiu que as autoridades israelenses encerrassem a violência, permitissem a entrada de ajuda humanitária em escala suficiente e desmantelassem os centros administrados pela GHF — que deixaram de funcionar após o cessar-fogo de outubro. Paralelamente, Israel instituiu um novo sistema de registro para organizações não governamentais internacionais, baseado em regras restritivas e politizadas, colocando em risco a continuidade da ação humanitária na Palestina.

No fim de agosto, as forças israelenses lançaram uma ofensiva de grande escala contra a Cidade de Gaza, destruindo bairros inteiros e obrigando milhares de pessoas a se deslocarem para a região central da Faixa. Diante desse cenário, MSF não teve outra alternativa senão retirar suas equipes e suspender todas as atividades médicas na cidade, ao final do mês de setembro.

Após a entrada em vigor de um segundo cessar-fogo, em outubro, a população palestina começou a retornar ao norte de Gaza, e nossas equipes retomaram suas atividades. Voltamos a atuar em hospitais públicos, restabelecendo os serviços de pediatria, tratamento de queimaduras e fisioterapia, além de colaborar na recuperação de unidades de saúde tomadas pelos escombros. Também abrimos diversos pontos de atendimento para oferecer cuidados básicos de saúde em áreas nas quais todas as estruturas médicas haviam sido destruídas pelas forças israelenses.

Apesar do cessar-fogo, a entrada de ajuda humanitária em Gaza permaneceu criticamente insuficiente, e Israel continuou impedindo a entrada de itens essenciais, como materiais para abrigos e produtos classificados como de duplo uso*, agravando ainda mais as já severas condições de vida durante o inverno.

Em resposta às enormes necessidades da população, ampliamos, ao longo do ano, nossas atividades médicas e as ações de água, saneamento e higiene. MSF permaneceu entre os principais provedores de serviço de saúde, oferecendo atendimento especializado e integral pacientes com queimaduras e traumatismos – incluindo fisioterapia, curativos e cirurgias –, além de assistência materna e neonatal. 

Ao final de 2025, nossas equipes apoiavam seis hospitais e sete centros de saúde. Também administrávamos dois hospitais de campanha, duas clínicas e um centro hospitalar de alimentação terapêutica, além de fornecer água potável a centenas de milhares de palestinos em Gaza.

Em 2025, mais seis colaboradores de MSF morreram em ataques aéreos ou ataques direcionados realizados por Israel, elevando para 15 o número total de integrantes da organização mortos em Gaza desde o início da guerra. Até a publicação deste relatório, nosso pedido oficial por uma investigação independente sobre essas mortes seguia sem resposta das autoridades israelenses. Reiteramos, ao longo de todo o ano, nosso apelo por um cessar-fogo imediato e duradouro, por acesso humanitário urgente e sem restrições, por evacuações médicas e pelo fim do genocídio.

 

Cisjordânia

Na Cisjordânia, as equipes de MSF continuaram testemunhando as consequências das políticas e práticas de limpeza étnica voltadas à expulsão da população palestina de suas terras e à eliminação de qualquer possibilidade de retorno. Essas políticas se traduziram em um aumento extremo da violência praticada pelas forças armadas israelenses e por colonos, responsáveis pela morte e pelo ferimento de inúmeros palestinos. Embora esse processo não seja recente, observamos em 2025 uma expansão evidente tanto dos assentamentos israelenses quanto das políticas destinadas ao deslocamento forçado da população palestina.

Segundo a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), a operação militar israelense Muralha de Ferro, iniciada em janeiro de 2025, provocou o deslocamento forçado de cerca de 40 mil pessoas do norte da Cisjordânia em apenas um mês. Três campos de refugiados foram invadidos e esvaziados à força. Casas e infraestrutura civil — incluindo escolas e centros de saúde — foram demolidas, aumentando o risco de que esse deslocamento se torne permanente.

MSF manteve clínicas móveis para oferecer atendimento básico de saúde a milhares de pessoas deslocadas pelas operações militares no norte da Cisjordânia, especialmente em Jenin e Tulkarem, além de distribuir kits de higiene, cestas de alimentos e água potável.

Em Hebron, Nablus, Qalqilya e Tubas, nossas atividades se concentraram na oferta de assistência médica e de apoio em saúde mental às pessoas afetadas por ataques de colonos, por demolições e deslocamentos, por meio de clínicas móveis e unidades fixas.

O medo constante diante de incursões militares cada vez mais frequentes e imprevisíveis e de ataques perpetrados tanto pelas forças israelenses quanto por colonos tem impactado profundamente a saúde mental da população, intensificando sentimentos de desesperança e ansiedade — realidade observada diariamente por nossas equipes de saúde mental. MSF também capacitou voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino e apoiou unidades de saúde por meio de treinamentos e da doação de suprimentos, incluindo água e combustível.

 

O registro de MSF após 2025 

Ao longo de todo o ano, MSF enfrentou grande incerteza operacional em razão das tentativas de Israel de controlar e restringir a atuação das organizações humanitáriasPara que pudessem continuar trabalhando no país, essas organizações foram submetidas a um novo processo de registro, que incluía a exigência de informações pessoais sobre funcionários palestinos.  

MSF manifestou sérias e legítimas preocupações quanto ao compartilhamento desses dados. Em agosto, fornecemos todas as informações solicitadas, com exceção dos dados pessoais de nossos colaboradores palestinos, que decidimos não entregar sem garantias adequadas de proteção.  

Com o registro expirado em 31 de dezembro, MSF ficou impossibilitada de enviar suprimentos e profissionais internacionais para a Palestina. Ainda assim, nossas equipes palestinas permanecem comprometidas em continuar prestando assistência humanitária pelo maior tempo possível. 

 

*Um item de uso duplo é um produto, material ou tecnologia destinado a fins civis e/ou médicos legítimos, mas que tem sua entrada na Faixa de Gaza bloqueada ou restringida pelas autoridades israelenses pela possibilidade de ser adaptado para uso militar.

Dados referentes a 2024

372.09M

Litros de água clorada distribuídos

43.600

Pessoas tratadas em decorrência de violência física intencional

48.900

Pacientes internados

919.200

Consultas ambulatoriais

61.400

Consultas individuais de saúde mental

13.800

Partos assistidos

427.600

Admissões em serviços de emergência

27.400

Intervenções cirúrgicas

1.436

Profissionais em tempo integral

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