“Você se sente minúsculo diante de uma cidade transformada em ruínas”

Natalia Tapiero, psicóloga de MSF, relata como as pessoas estão lidando com o impacto na saúde mental após o terremoto na Venezuela

Equipes de resgate procuram pessoas desaparecidas sob os escombros de um prédio em Caraballeda, La Guaira. Venezuela, 21 de julho de 2026. ©Belen Filgueira/MSF

A psicóloga Natalia Tapiero passou um mês prestando apoio de saúde mental com Médicos Sem Fronteiras (MSF) no necrotério de La Guaira, na Venezuela, para onde milhares de famílias se encaminharam em busca de entes queridos desaparecidos após os terremotos.  

Cheguei à Venezuela em um avião em que mais da metade dos passageiros eram profissionais internacionais e de ajuda humanitária: de equipes de resgate e bombeiros a psicólogos e enfermeiros.   

A chegada foi profundamente impactante. Uma coisa é ver as imagens na televisão ou nas redes sociais, e outra coisa bem diferente é vivenciar isso: você se sente minúsculo diante de uma cidade transformada em ruínas.  

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Durante minha primeira ronda pela região de La Guaira, fiquei comovida com o silêncio absoluto de centenas de pessoas sempre que um socorrista levantava o punho — um sinal universal para desligar os motores e ficar em silêncio, na esperança de ouvir qualquer sinal de vida sob os escombros. Essa mistura de esperança e desespero marcou meu início aqui.  

Durante essas rondas iniciais, identificamos que um local com imensas necessidades era o porto, que havia sido transformado em necrotério.   

Em La Guaira, os necrotérios desabaram, então o porto foi designado como local para receber os corpos dos que haviam morrido no desastre.   

É um lugar muito paradoxal: de um lado, o vasto mar azul encontrando-se com o céu; e, do outro, tendas abrigando as imagens mais dolorosas que se possa imaginar.  

Aqui, as famílias precisam passar por um processo de identificação por foto muito difícil.   

Elas veem muitas fotos de corpos em duas telas de TV (uma para homens e outra para mulheres) e em tablets (para crianças) para encontrar seus entes queridos. Elas são expostas a imagens de corpos feridos ou mutilados, ou simples fragmentos que muitas vezes só são reconhecidos por uma tatuagem, uma peça de roupa ou um par de chinelos.  

Tenho testemunhado continuamente o que nós, psicólogos, chamamos de dissociação funcional: pessoas que guardam sua dor em um canto para poderem lidar com os procedimentos práticos, adiando seu luto até encontrarem seus familiares.   

Há outras que chegam com uma devastação evidente, e há também aquelas que voltaram ao país exclusivamente para essa busca.   

Uma jovem, após identificar seus pais, me disse com profunda tristeza: “Vim por eles, mas depois disso, definitivamente não tenho mais motivos para voltar a este país.”  

  

Trabalho diário  

Família por família, oferecemos apoio antes, durante e após o processo de identificação.   

Fornecemos primeiros socorros psicológicos, orientações de autocuidado e psicoeducação para normalizar os sintomas.   

Ensinamos aos acompanhantes (parentes, vizinhos, amigos) como apoiar as reações emocionais, pois muitos não sabem o que fazer ou dizer quando a outra pessoa está sobrecarregada.   

Temos observado que o impacto emocional é grave: estresse agudo, pesadelos e flashbacks sensoriais tão vívidos que as pessoas sentem que a terra ainda está tremendo.  

Em nossas consultas, temos trabalhado o manejo do estresse com grupos de profissionais forenses, estudantes que tiveram que realizar seus estágios profissionais em meio a essa catástrofe e até mesmo com padres cuja saúde mental foi afetada.   

Nos últimos dias, conversei com três padres que estavam sobrecarregados. Eles próprios vivenciaram os terremotos dentro de sua igreja, rezando sob o mármore enquanto tudo desabava ao seu redor, e agora precisam celebrar missas fúnebres sem descanso. Todos aqui estão no limite.  

Há outros casos que me marcaram profundamente, principalmente por causa do pesado fardo de culpa que as pessoas carregam.   

Uma mãe me contou que encontrou sua filha, de apenas 1 ano de idade, após 15 dias de buscas. A expressão no rosto da criança mostrava que ela havia sofrido muito, e a mãe não conseguia se perdoar por isso.”  

Uma mulher também me contou que encontrou seu sobrinho, de 20 anos, a quem criou como um filho, com uma mutilação que era muito dolorosa de se ver.  

Em meio a esse horror, também fiquei surpresa com a solidariedade e a esperança.   

Apesar de terem perdido tudo, há pessoas que se preocupam até comigo. No necrotério, as mesmas famílias que estão distribuindo comida me dizem: “Doutora, coma alguma coisa, pegue isso”, compartilhando o pouco que têm.   

É um nível de resiliência que me faz admirá-las profundamente. Como uma mulher que cavou com as próprias mãos por 27 dias para retirar sua mãe de um prédio desabado, movida pela necessidade de proporcionar a ela um processo de luto digno.  

  

A continuidade do atendimento também é urgente  

Precisamos encontrar uma maneira de garantir a continuidade dos cuidados de saúde mental.   

Não apenas para aqueles que estão passando por esse trauma agudo neste momento, mas também para os que já tinham condições pré-existentes e viram seus tratamentos interrompidos.   

Em La Guaira, muitos psiquiatras e psicólogos morreram durante os terremotos, e aqueles que sobreviveram estão respondendo à emergência.   

Por isso, encontrei pacientes que, embora tenham seus medicamentos, não têm ninguém para acompanhá-los.  

A saúde mental não é um luxo, especialmente durante uma catástrofe: é uma necessidade básica.   

O apoio deve ser mantido para aliviar o sofrimento daqueles que perderam até mesmo a sensação de segurança em suas próprias casas.  

 

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