Uma criança com um giz de cera pode curar uma comunidade?

Em Histórias de MSF, Glykeria Koukouliata, coordenadora de atividades de saúde mental, explica como desenhos ajudam crianças a manifestar sentimentos e trauma

Desenho feito por Haidar, de 15 anos de idade, paciente de MSF no Líbano. A imagem retrata o menino brincando ao lado de fora de sua casa na Síria, seu país de origem. ©MSF

A ideia de usar desenhos em atividades de saúde mental surgiu inesperadamente, enquanto as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) conversavam com famílias libanesas e refugiadas da Síria sobre suas necessidades de saúde, em Baalbek-Hermel, no Líbano. Naquele momento, uma criança se aproximou timidamente e perguntou: “Podemos desenhar? Só queremos desenhar.”

No nordeste do Líbano, crianças  tanto das comunidades de refugiados sírios, quanto das comunidades locais*  estão crescendo sob imensa pressão.  

Anos de conflito na Síria, o colapso econômico do Líbano, as contínuas operações militares e ataques aéreos israelenses, além da sensação de incerteza prolongada, causaram um forte impacto psicológico nas pessoas, especialmente nas crianças, incluindo: 

  • Distúrbios do sono;  
  • Ansiedade;  
  • Isolamento social;  
  • Mudanças comportamentais negativas; 
  • Dificuldade de concentração. 

 

Muitas têm dificuldade em expressar medo, tristeza saudade, especialmente em ambientes de acolhimentoonde os próprios adultos estão sobrecarregados e focados na sobrevivência na superação do dia a dia.

Para as crianças, sentimentos e experiências que elas não compreendem totalmente muitas vezes vêm à tona indiretamente na maneira como brincam, se comportam ou nas imagens que desenham, em vez de por meio da fala. O apoio psicossocial baseado na arte permite que elas expressem o que ainda não conseguem nomear.

Equipes de MSF organizam atividades de desenho e artes, bem como outras sessões de apoio psicossocial, em nossas clínicas móveis e instalações médicas em Hermel e Arsal, no Líbano. ©MSF

Nossas equipes de saúde mental começaram a organizar sessões regulares de desenho e atividades artísticas em nossas clínicas móveis e instalações fixas nos distritos de Hermel e Arsal, ambas no nordeste do Líbano.

A resposta foi imediata: todas as semanas, as crianças chegavam cedo e ansiosas, algumas trazendo giz de cera de encontros anteriores e outras pedindo papel extra para levar para casa.

O que começou como uma atividade simples rapidamente se tornou um momento em que elas se sentiam vistas, seguras e livres para imaginar.

A atividade, criada inicialmente como forma de apoiar a comunidade, rapidamente se transformou em uma janela poderosa para as lutas não verbalizadas.

A percepção foi impressionante. Como psicóloga, olhei além dos desenhos em si, observando elementos recorrentes, ausentes ou em mudança ao longo do tempo.

Essas observações foram consideradas juntamente com outras informações para orientar nosso apoio psicossocial e, com o tempo, os desenhos começaram a contar uma história.

 

O que os desenhos revelam sobre o psicológico das crianças?

Muitas crianças desenharam casas nas quais não moram mais. Esses lares são frequentemente retratados como maiores, mais claros e mais detalhados do que o ambiente atual.

Outras desenharam árvores, jardins, animais e céus abertos. Em conjunto com as palavras das crianças, suas narrativas e o contexto mais amplos de suas experiências, essas imagens refletem nostalgia, mas não apenas por um lugar. Elas transmitem um anseio por segurança, previsibilidade e pertencimento — sentimentos que a guerra e o deslocamento extinguem abruptamente.

A nostalgia, nesse contexto, não se refere simplesmente ao passado. Para as crianças, ela desempenha um papel estabilizador, ajudando-as a preservar um senso de identidade em meio à perturbação.

Desenhar cenas familiares permite que elas se reconectem com memórias de carinho, família e estabilidade, todos elementos essenciais para a regulação emocional e a resiliência.”

Ao mesmo tempo, outros desenhos incluíam imagens frequentemente associadas ao medo e à hipervigilância: drones no céu, homens portando armas, nuvens escuras ou espaços segregados.

Essas imagens muitas vezes apareciam ao lado de cenas pacíficasmostrando como o trauma e a esperança coexistem no mundo interno de uma criança 

Essa dualidade é comum em crianças afetadas por conflitos armados e guerras — elas não são apenas “vítimas” do medo, mas também estão ativamente tentando dar sentido a experiências avassaladoras, buscando integrá-las.

Um desenho que ficou na minha memória foi feito por Hamida, uma menina síria de 13 anos de idade. Ela desenhou uma grande amoreira e nos contou que seu pai sacudia os galhos enquanto ela e seus irmãos colhiam os frutos debaixo da árvore.

Ilustração feita por Hamida, de 13 anos de idade, da Síria, durante uma atividade de saúde mental realizada por Médicos Sem Fronteiras no Líbano. ©MSF

Ela escreveu: 

“A árvore que deixamos para trás. 

Esta é a nossa grande e linda árvore na comunidade que deixamos para trás quando viemos para cá. Eu a adorava porque tinha amoras muito saborosas. O meu pai sacudia a árvore, e os meus irmãos e eu corríamos para apanhá-las do chão. Havia flores e uma horta de cebolas próximas da árvore. Tenho certeza de que a árvore já deve estar seca agora.” 

– Hamida, adolescente síria atendida por MSF no Líbano. 

 

Do ponto de vista da saúde mental, o desenho de Hamida, a história e o contexto que o acompanham contêm múltiplas camadas de significado: conexão com um cuidador, memória sensorial, brincadeira e perda — tudo contido em uma única imagem.

Para Hamida, compartilhar essa memória em voz alta não foi apenas contar uma história; mas um processo emocional. O desenho permitiu que ela externalizasse o luto de uma forma que a fez sentir-se acolhida e apoiada.

 

O impacto das sessões de desenho na saúde mental

Temos visto o impacto positivo dessas sessões de desenho. Os pais nos dizem que seus filhos dormem melhor, falam mais abertamente ou apresentam menos explosões comportamentais.

Os cuidadores começam a entender que o “mau comportamento” de uma criança pode estar ligado ao sofrimento, e não à desobediência. Dessa forma, as crianças, muitas vezes, se tornam agentes silenciosos de mudançaremodelando a maneira como as famílias pensam sobre emoções e saúde mental. 

Alaa desenhou um drone lançando “corações de amor” em vez de bombas sobre a flor. Na imagem, também está a casa dela na Síria e a de seus vizinhos. ©MSF

Baalbek-Hermel é uma região de beleza e resiliência impressionantes, mas também um lugar que absorveu anos de dificuldades.

As pessoas aqui são generosas e acolhedoras, no entanto a dor costuma ser mantida em segredo.

As dificuldades de saúde mental ainda são cercadas de estigma, e muitas pessoas procuram ajuda apenas quando o sofrimento se torna insuportável.

 

Leia mais: sete pontos sobre a necessidade de cuidados de saúde mental em todo o mundo 

 

Por meio de iniciativas simples e criativas de apoio psicossocial, como o desenho, nossas equipes criam “pontos de entrada” — maneiras simplificadas de falar sobre saúde mental que são acessíveis e humanas.

Esses espaços permitem que tanto crianças quanto adultos compreendam que o sofrimento não é um fracasso pessoal, mas uma resposta normal a circunstâncias anormais.

Em Baalbek-Hermel, esses desenhos são mais do que imagens no papel. São a prova de que, mesmo após a perda, as crianças continuam a imaginar, lembrar e ter esperança. E, às vezes, dar um lápis de cor a uma criança não é um gesto insignificante: é o primeiro passo para ser ouvida e para derrubar a parede de estigma construída.

 

Glykeria Koukouliata é psicóloga e iniciou sua carreira com MSF em 2023. Ela já trabalhou no Sudão, na Armênia, na Etiópia e, mais recentemente, no Líbano. O relato foi publicado originalmente em dezembro de 2025.

*O Líbano abriga uma das maiores populações de refugiados do mundo, em relação ao tamanho do país. Aproximadamente uma em cada cinco pessoas no Líbano é refugiada, incluindo mais de 1 milhão de refugiados sírios, segundo o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

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