Líbano: pessoas continuam sendo mortas pelas forças israelenses

Apesar de um cessar-fogo entre Israel e o Líbano, ataques continuam atingindo o sul do país.

Edifícios residenciais destruídos no bairro densamente povoado de Dahye, no sul de Beirute, em 14 de março de 2026

As forças israelenses realizam ataques aéreos diários, que já mataram e feriram centenas de pessoas. Nas últimas semanas, ordens de evacuação continuaram sendo emitidas, levando ao deslocamento forçado de milhares de pessoas, enquanto a destruição total de casas e vilarejos não parou.

No sul do Líbano, hospitais onde equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) colaboram com o Ministério da Saúde para tratar pacientes, continuam recebendo feridos.

“Temos visto uma série de ferimentos graves desde o início do suposto cessar-fogo”, afirma Thienminh Dinh, médica de emergência de MSF, que divide seus dias entre o hospital de Qana e o hospital Jabal Amel, ambos no distrito de Sour/Tiro. “Em uma família, havia um bebê com lacerações no rosto, e sua irmã de quatro anos tinha fraturas cranianas expostas, fraturas nos membros e contusões nos pulmões. O pai apresentava vários ferimentos, e a mãe ainda estava presa sob os escombros de sua casa.”

“As equipes médicas em ambos os hospitais trabalham sem parar para tratar esses pacientes, cujos ferimentos variam de leves a extremamente graves, exigindo cirurgias avançadas”, acrescenta Dinh.

Entre 18 de abril e 3 de maio, 173 pacientes feridos foram internados no hospital Jabal Amel, e 145 pessoas não sobreviveram aos ferimentos.

A poucos quilômetros dali, as equipes de MSF testemunham uma situação semelhante nos dois hospitais apoiados no distrito de Nabatiyeh. Entre 26 de abril e 3 de maio, esses hospitais receberam 65 pacientes feridos, incluindo dois que morreram posteriormente em decorrência das lesões, além de 26 pessoas que já chegaram sem vida.

Apesar do apoio contínuo — incluindo maior capacidade de atendimento de emergência e encaminhamentos por ambulâncias — os pacientes ainda chegam tarde demais ou em estado crítico devido à insegurança e às longas distâncias para alcançar os locais de atendimento. Em alguns casos, as transferências entre hospitais são desafiadoras por falta de segurança nas estradas. Entretanto, as equipes médicas não têm alternativa a não ser encaminhar pacientes para outros locais devido à escassez de insumos médicos essenciais, como bolsas de sangue, em suas unidades médicas. Por exemplo, no hospital Najdeh AlShaabiyeh, na semana passada, dois pacientes gravemente feridos deveriam ter sido transferidos para outro hospital devido à falta de sangue, mas morreram durante o deslocamento.

Diante das grandes necessidades, as equipes médicas no sul do Líbano são obrigadas a trabalhar até 36 horas consecutivas, em ritmo acelerado, e, às vezes, precisam coordenar vários procedimentos cirúrgicos no mesmo paciente ao mesmo tempo, devido às enormes necessidades ou à gravidade dos ferimentos.

MSF está adaptando sua forma de atuação para continuar oferecendo apoio às equipes hospitalares, que estão exaustas após mais de dois meses de bombardeios contínuos e um cessar‑fogo que não trouxe alívio. As equipes de MSF estão assumindo turnos noturnos no hospital de Qana, em Sour/Tiro, e no hospital Najdeh Al‑Shaabiyeh, em Nabatiyeh, para garantir atendimento contínuo e aliviar a pressão sobre os médicos residentes.

A saúde mental das pessoas está piorando 

“Não confiamos nesse cessar‑fogo; ele tirou toda a nossa esperança”
Samia*, deslocada do sul do Líbano que agora vive em Barja, uma cidade no distrito de Chouf.

Ela tinha voltado para casa assim que o cessar‑fogo foi anunciado, apenas para descobrir que ela estava gravemente danificada. “Se eu já não estava bem antes do cessar‑fogo, agora estou cem vezes pior.”

Para atender às necessidades de saúde mental da população, as equipes de MSF em Nabatiyeh e no sul do país estão aumentando o número e a frequência de clínicas móveis, chegando a comunidades mais remotas e a famílias que decidiram retornar após o anúncio do cessar-fogo, mas cuja saúde mental está se deteriorando.

“Uma refugiada síria, que sofreu amputação dupla após um ataque aéreo há algumas semanas, acordou com a notícia de que seu filho de oito anos tinha sido morto em um ataque, enquanto sua filha sofreu perfurações intestinais causadas por estilhaços”, relata Dinh. “Como podemos esperar que uma mãe lide com essa nova realidade?”

Muitos acreditavam que esse cessar‑fogo, anunciado há três semanas, traria algum alívio para eles e suas famílias. A realidade é diferente.

“Após dois meses de escalada, a situação está se tornando mais complexa, com padrões de violência e danos se agravando ao longo do tempo”, afirma coordenador-geral do projeto de MSF no Líbano. “Sem proteção efetiva e acesso irrestrito à saúde, o deslocamento não trouxe segurança nem protegeu os civis.”

*Nome alterado para proteger a identidade.

 

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