Líbano: o que restou após 46 dias de ataques contínuos

O cessar-fogo temporário não causou sensação de segurança na população, que teme retomada dos bombardeios

Destruição causada pelos bombardeios em massa durante os 46 dias de ataques incessantes de Israel ao Líbano. As habitações estavam localizadas próximas à orla Sour, no sul do país ©MSF

O trânsito avança lentamente enquanto famílias deslocadas retornam em direção ao sul do Líbano, cruzando a ponte de Qasmiyeh, que foi atingida pelas forças israelenses, com plantações de laranja e banana se estendendo no horizonte. Alguns seguem para a cidade costeira de Sour — também conhecida como Tiro —, Patrimônio Mundial da UNESCO, a qual continua abrigando pessoas que não a abandonaram mesmo após 46 dias de bombardeios israelenses.

A escala da destruição causada pelos ataques transformou a cidade e a vida de seus habitantes. Enquanto palmeiras margeiam a orla do Mediterrâneo, cheia de barcos de pesca, é possível ver edifícios de dez andares nas proximidades destruídos pela metade. Casas e ruas deram lugar a crateras de vários metros de profundidade, e carros permanecem abandonados, perfurados por estilhaços.

Durante a escalada do conflito, a maioria dos moradores foi deslocada à força, enquanto aqueles que permaneceram ficaram quase totalmente isolados, depois que ataques aéreos destruíram pontes essenciais que ligavam o sul ao resto do país. Trabalhadores humanitários se retiraram; profissionais de saúde enfrentaram ataques quase diários; e os bombardeios contínuos obrigaram as pessoas a permanecer dentro de casa.

Embora o cessar-fogo temporário de 10 dias tenha trazido uma sensação limitada de alívio, sua fragilidade — evidenciada pelo som de um drone israelense sobrevoando a área e pelos ecos de explosões perto da fronteira — não trouxe segurança. As pessoas questionam se os ataques vão recomeçar, se terão acesso a alimentos, combustível e medicamentos, e se conseguirão retornar novamente caso precisem sair.

 

Isolados, bombardeados e sem acesso à saúde

Ao longo dos 46 dias de bombardeios israelenses, as pessoas que permaneceram no sul não o fizeram porque era seguro, mas porque sair não era possível devido ao custo, à falta de abrigo, ao medo de perder suas casas e ao sentimento de indignidade associado ao deslocamento forçado. Na última escalada do conflito, muitos moradores de Sour e arredores já haviam sido deslocados de cidades próximas à fronteira sul devido a incursões israelenses em direção a suas casas, e não estavam dispostos — ou simplesmente não tinham condições — de passar por tudo isso novamente.

“Ficamos aqui e não saímos, graças a Deus”, disse Hamad Darweesh, secretário da comunidade palestina de Jal El Bahr, em Sour, para onde sua família foi deslocada em 1948 devido à Nakba. “Durante 46 dias, ficamos presos sem suprimentos básicos para sobreviver. Não tínhamos atendimento médico nem nada.”

Famílias enfrentam a incerteza sob bombardeios e novas ordens de evacuação no Líbano

Ataques a instalações de saúde e bombardeios contínuos das forças israelenses cortaram o acesso da população aos serviços médicos. Ataques israelenses ocorreram com e sem aviso prévio, a instalações de saúde, ambulâncias e perto delas. Enquanto a maioria dos atores internacionais deixou o sul devido à insegurança, unidades de saúde locais também tiveram de fechar por causa de ataques nas proximidades. As pessoas não conseguiam se deslocar livremente e evitavam aglomerações ou separavam membros da família para reduzir o risco de serem mortos por bombardeios.

“Alguns pacientes pararam de tomar seus medicamentos porque eles não estavam disponíveis”, afirma Aida Hassounch, médica generalista dMSF. “Eles também queriam priorizar comida e água. Ao mesmo tempo, eles não têm nenhuma sensação de segurança em relação aos próximos dias.”

 

Deslocados à força pela invasão terrestre das forças israelenses

A invasão terrestre das forças israelenses no sul do Líbano, incluindo a chamada “linha amarela” — uma zona proibida demarcada na parte do território libanês que as forças israelenses ocuparam —, impede o retorno das pessoas às suas casas em cerca de 55 vilarejos. A destruição e demolição de vilarejos e comunidades inteiras deixou milhares de pessoas deslocadas à força.

Destruição causada pelos bombardeios em massa durante os 46 dias de ataques incessantes de Israel ao Líbano. ©MSF

“Todos estão de coração partido e tristes com o estado de seu vilarejo, e nós também”, explica Salha Srour, paciente de MSF. Ela foi deslocada diversas vezes, sendo originalmente da cidade fronteiriça de Aita ash Shaab 

Ouvimos o som de explosões. Por que nossas vilas e casas estão sendo destruídas?”

– Salha Srour, paciente de MSF, atendida no Líbano.

“Por que existe uma linha amarela, vermelha e azul? Nós costumávamos nos alimentar do que crescia ao redor de nossas casas: alface, hortelã, salsa, tudo o que plantávamos perto de casa. Não é certo viver assim”, lamenta Salha.

Enquanto profissionais de saúde locais continuaram trabalhando durante toda a guerra, por meses sob enorme pressão, as equipes de MSF no sul do Líbano — incluindo Sour e Nabatyieh — estão oferecendo cuidados de saúde primários, apoio à saúde mental, saúde sexual e reprodutiva, além de encaminhamentos para atendimento secundário, e apoiando hospitais com cuidados de trauma e atendimento emergencial. MSF continua pedindo por uma ampliação urgente da ajuda humanitária e acesso irrestrito à assistência para as pessoas em necessidade em todo o país.

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