Gaza: isto não é um cessar-fogo

Nove meses após acordo de cessar-fogo, violência estrutural permanece e os palestinos continuam a enterrar seus mortos

Equipe de Médicos Sem Fronteiras durante a troca de curativos nos ferimentos de um paciente. Gaza. Junho de 2026. ©Nour Alsaqqa/MSF

Ozan Agbas, coordenador de emergências de Médicos Sem Fronteiras (MSF) para a Palestina.

 

“Nove meses depois do acordo de cessar-fogo, palestinos ainda retiram crianças dos escombros em Gaza. Famílias ainda enterram seus mortos. E o espaço no qual se espera que dois milhões de pessoas sobrevivam encolheu para menos de um terço do tamanho que tinha há três anos. Isso não é um cessar-fogo: a violência estrutural é a mesma, mas com outro nome.

É uma continuação do genocídio, calibrada para ser violenta o suficiente para manter o sofrimento dos palestinos todos os dias, mas silenciosa o suficiente para evitar provocar indignação internacional. É um cessar-fogo que continua matando, confinando e negando ajuda. Ele não desmantela os mecanismos de violência – ao contrário, normaliza o contínuo desprezo pelas vidas palestinas.

Em meio à incerteza e à violência contínua, nossos colegas palestinos continuam administrando hospitais de campanha, tratando pacientes feridos, oferecendo apoio de saúde mental, distribuindo água e oferecendo atendimento médico geral às pessoas em Gaza.

 

1. AS MORTES CONTINUAM

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, 1.185 palestinos foram mortos e 3.816 ficaram feridos desde o anúncio do chamado cessar-fogo, em 10 de outubro de 2025. Isso equivale, aproximadamente, a um palestino morto ou ferido a cada uma hora e vinte minutos — durante nove meses consecutivos. Até o dia 19 de junho, mais de 265 crianças haviam sido mortas, segundo o UNICEF. As forças israelenses continuam realizando ataques diários em toda, enquanto ampliam sua área de controle a cada dia.

Para os profissionais de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Gaza, a linha entre tratar pacientes e tornar-se um deles é assustadoramente tênue.

Em 16 de julho, um ataque israelense perto de uma clínica de MSF em Al-Mawasi deixou quatro pessoas feridas, que foram encaminhadas às nossas equipes. No

dia seguinte, dois prédios residenciais onde moravam nossos profissionais na Cidade de Gaza foram atingidos sem qualquer aviso prévio, prendendo famílias dentro dos apartamentos enquanto as explosões estilhaçavam as janelas. Em um dos prédios, escombros e corpos despencaram no apartamento de um profissional de MSF que ficava no andar inferior.

No mesmo dia, equipes de MSF em Deir al-Balah, na região central de Gaza, trataram 12 pessoas, sete delas crianças, que ficaram feridas depois que as forças israelenses atingiram um funeral em Al-Nuseirat. Ao todo, esse ataque matou oito pessoas e feriu 20. Entre os mortos, estava o filho de 21 anos de um profissional de MSF. Nosso colega recebeu a notícia enquanto trabalhava em outro pronto-socorro. 

Esses não foram incidentes isolados, mas um retrato de 48 horas em Gaza. 

Um cessar-fogo deveria significar que nossas salas de emergência não estariam mais cheias de pessoas feridas pela guerra. Quase dois anos depois de MSF estabelecer o hospital de campanha em Deir al-Balah e nove meses após o anúncio do cessar-fogo, nossas equipes continuam recebendo pacientes feridos pela guerra. 

 

2. O CONFINAMENTO SE TORNOU UMA ARMA

A linha amarela, negociada como parte do cessar-fogo sob o pretexto de garantir segurança, se tornou outro mecanismo de controle e violência das forças israelenses, dividindo a Faixa de Gaza e confinando os palestinos a uma área cada vez menor.

A linha amarela se move constantemente. Ela não é claramente demarcada nem fixa – desloca-se para o oeste sempre que as forças israelenses decidem que assim deve ser. Sem negociação, sem aviso e sem possibilidade de expansão.

Nesta semana, uma mãe contou às nossas equipes que seu filho de 14 anos, que tem síndrome de Down, foi atingido cinco vezes por atiradores israelenses perto da linha amarela enquanto brincava perto de casa. A linha amarela tornou-se uma fronteira móvel que confina as pessoas e as expõe à violência contínua — com impunidade.

Quando o chamado cessar-fogo foi anunciado, as forças israelenses controlavam aproximadamente metade de Gaza. Hoje, quase dois milhões de palestinos estão confinados a cerca de 30% do território.

Um cessar-fogo deveria garantir a suspensão das hostilidades, o silêncio das armas e a segurança das pessoas contra os ataques em toda a Faixa.

Usá-lo como uma arma de guerra e para reforçar o confinamento das pessoas a uma fração de Gaza não pode ser justificado.

Cerca de 90% da população foi deslocada à força, muitas pessoas várias vezes. A maioria vive em tendas superlotadas ou abrigos improvisados. A sarna, as infecções respiratórias, as mordidas de ratos e outras doenças são generalizadas.

Quando os ataques não são suficientes para expulsar as pessoas, a superlotação, as doenças e a privação se encarregam de fazer o restante: um método mais lento de tornar inabitável esse mesmo terço de Gaza para as pessoas presas dentro dele.

 

3. MORADIAS CONTINUAM SENDO DESTRUÍDAS

A destruição das casas das pessoas e a guerra psicológica provocada pela insegurança não foram interrompidas com o anúncio do cessar-fogo.

Ruas e prédios destruídos em Beit Lahia, no norte de Gaza. Fevereiro de 2025. ©Nour Alsaqqa/MSF

A leste da linha amarela controlada pelas forças israelenses, casas e bairros inteiros continuam sendo dizimados. A oeste dela, nas áreas cada vez menores onde os palestinos são confinados, ataques israelenses continuam atingindo tendas, abrigos e os poucos prédios que ainda permanecem de pé.

Quando o cessar-fogo foi assinado, cerca de 60% da população de Gaza já havia ficado sem moradia, aproximadamente 77% das unidades habitacionais estavam danificadas — a maioria completamente destruída — e cerca de 1,9 milhão de palestinos haviam sido deslocados à força, muitas vezes mais de uma vez.

Hoje, quase um milhão de habitantes de Gaza vivem em tendas ou abrigos improvisados, a maioria sem acesso seguro a água potável, eletricidade, assistência médica ou itens básicos. Ainda assim, as forças israelenses continuam destruindo o pouco que resta dos abrigos e emitindo as chamadas ordens de evacuação, obrigando as pessoas a fugir novamente.

Assim como todos os demais habitantes de Gaza, os profissionais de MSF frequentemente têm somente alguns instantes para partir quando recebem uma ordem de deslocamento das forças israelenses. Eles abandonam os poucos pertences que ainda lhes restam, sem lugar seguro para onde ir. Mesmo nas noites sem ordens de evacuação, a incerteza permanece. As famílias vão dormir

sem saber se acordarão diante de uma nova ordem de deslocamento ou de outro ataque.

As ordens repentinas e arbitrárias para que as pessoas deixem suas casas e abrigos continuam sendo usadas pelas forças israelenses como instrumento de guerra psicológica. O deslocamento repetido e a falta de segurança não são uma consequência da campanha militar, mas uma de suas características definidoras, garantindo que os habitantes de Gaza nunca se sintam seguros, independentemente de um cessar-fogo.

 

4. AJUDA HUMANITÁRIA USADA COMO MEIO DE OBTER VANTAGEM

A ajuda humanitária jamais deveria depender dos termos de um cessar-fogo. Como potência ocupante, o Estado de Israel tem, segundo o direito internacional, a obrigação de garantir que os palestinos em Gaza tenham acesso a ajuda humanitária, independentemente de negociações políticas, acordos militares ou da condução das hostilidades.

Palestinos no ponto de distribuição da chamada Fundação Humanitária de Gaza arriscam suas vidas para receber um pouco de comida. Entre 7 de junho e 24 de julho de 2025, MSF recebeu 1.380 feridos, incluindo 28 pessoas já mortas, provenientes dos locais da Fundação. © MSF

Em vez disso, a ajuda continua sendo utilizada de forma intencional e condicional, como instrumento de opressão. Os suprimentos continuam sendo atrasados por restrições que mudam constantemente nas fronteiras, e a ajuda é incorporada às negociações de cessar-fogo como se fosse uma concessão política.

As próprias fases da implementação do chamado cessar-fogo são usadas como um ciclo para transformar a ajuda humanitária em arma: tratando-a como instrumento de pressão, e não como uma obrigação legal. As experiências do ano passado com esquemas letais de distribuição de ajuda, como os pontos de distribuição da Fundação Humanitária de Gaza, apenas aumentam nossa preocupação com o que poderá acontecer caso esses planos sejam implementados.

A ajuda emergencial é retida ou atrasada sob o argumento de que a recuperação e a reconstrução virão em seguida. No entanto, nove meses depois do cessar-fogo, ainda não existe um plano significativo, e a ajuda emergencial continua sendo restringida pelas autoridades israelenses. Em vez de cumprir suas obrigações como potência ocupante, Israel cancelou o registro de organizações humanitárias internacionais, incluindo Médicos Sem Fronteiras, obrigando profissionais internacionais a deixar a Palestina e impedindo que carregamentos médicos cheguem a quem precisa. 

Em seu lugar, surgiram novas propostas para confinar os palestinos em acampamentos rigidamente controlados, onde o acesso a abrigo e ajuda dependeria de estar dentro de áreas militarizadas supervisionadas por forças aprovadas por Israel.

As necessidades emergenciais das pessoas permanecem sem resposta, e a própria possibilidade de recuperação se mantém refém dos mesmos cálculos políticos e militares que já estão restringindo a ajuda. Cada etapa é usada para justificar a retenção da outra, enquanto a sobrevivência dos palestinos está por um fio e eles não conseguem voltar para suas casas, reconstruir suas comunidades e se recuperar com dignidade.

 

5. AS FERIDAS PSICOLÓGICAS NÃO CESSARAM

O cessar-fogo não trouxe a segurança, a estabilidade ou a previsibilidade necessárias para que as pessoas se curem.

Em toda Gaza, as equipes de MSF continuam vendo níveis devastadores de luto, ansiedade, distúrbios do sono e sofrimento psicológico – tanto em adultos quanto em crianças. Em vez de diminuir, esses sintomas continuam se acumulando em meio aos ataques aéreos, aos deslocamentos e à deterioração das condições de vida. Alguns pacientes, incluindo mães, relatam às nossas equipes que estão tendo pensamentos suicidas.

Para os palestinos, um cessar-fogo significaria criar condições para que as pessoas pudessem viver o luto, começar a reconstruir suas vidas e se recuperar da violência que sofreram. Isso não aconteceu em Gaza.

A recuperação psicológica não pode acontecer enquanto as bombas continuam caindo e com o som constante dos drones sobrevoando as pessoas, interrompido apenas quando um ataque atinge o solo. As pessoas vivem com medo, sem saber se elas próprias, seus familiares ou seus vizinhos conseguirão sobreviver ao dia.

A proteção dos civis não começa quando um cessar-fogo é assinado. Os civis devem ser protegidos, e a ajuda deve ser facilitada também durante as hostilidades ativas.

Nove meses após o início desse chamado cessar-fogo, as feridas da guerra seguem abertas. E continuam sendo infligidas.

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