Israel está asfixiando Gaza e destruindo os meios de sobrevivência dos palestinos

Há três anos, população vive encurralada no território; ataques continuam, apesar do suposto cessar-fogo

Imagem das imediações do hospital Jabal Amel, gravemente danificado após um ataque israelense em 1º de junho de 2026. ©Kristen Poels/MSF
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Israel está progressivamente asfixiando Gaza e dando continuidade ao seu genocídio: o espaço em que as pessoas podem viver está desaparecendo, enquanto as condições necessárias para sua sobrevivência estão sendo sistematicamente destruídas por meio da violência contínua, do bloqueio deliberado de suprimentos essenciais e da destruição dos serviços de saúde e de infraestruturas vitais. 

No último ano, o confinamento físico da população de Gaza tornou-se cada vez mais definitivo com o estabelecimento da chamada Linha Amarela por Israel. Originalmente apresentada como uma posição temporária da primeira fase de uma retirada militar e como parte fundamental da manutenção do dito cessar-fogo, ela agora é reforçada por posições militares, barreiras de terra e demolições contínuas. Além disso, vem avançando para o oeste, comprimindo a população em uma área cada vez menor. Atualmente, as forças israelenses ocupam aproximadamente 65% de Gaza, utilizando a linha para estabelecer uma fronteira clara em torno desse território. 

 

Uma fronteira móvel está dividindo a Faixa Gaza  

À medida que a Linha Amarela avança, a ameaça às pessoas que vivem nas proximidades torna-se cada vez mais imediata, agravada pela incerteza de se aproximar de uma linha que não é demarcada de forma clara ou consistente. As pessoas correm o risco de serem alvejadas pelas forças israelenses ao se aproximarem dela, e as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) continuam tratando pacientes feridos por disparos ocorridos nessas áreas. A expansão da linha também está prejudicando a entrega de assistência essencial: o transporte de água realizado por MSF teve de ser interrompido quando ocorreram tiros perto de comunidades que vivem próximas à Linha Amarela. 

A Linha Amarela se tornou um mecanismo de cerco e limpeza étnica.”

– Amande Bazerolle, coordenadora de resposta a emergências de MSF em Gaza

“A Linha Amarela não pode ser tratada simplesmente como uma linha em um mapa”, afirma Amande Bazerolle, coordenadora de resposta a emergências de MSF em Gaza, Palestina. “Ela isola comunidades da infraestrutura, dos serviços de saúde, da água e de outros recursos essenciais de que precisam para sobreviver.”

 

A violência indiscriminada continua  

Equipe de Médicos Sem Fronteiras durante a troca de curativos nos ferimentos de um paciente. Gaza. Junho de 2026. ©Nour Alsaqqa/MSF

A violência tampouco se limita às áreas próximas à Linha Amarela. Apenas em junho e julho, apesar do suposto cessar-fogo, as equipes de MSF atenderam mais de 1.200* casos de traumas causados pela violência em Gaza, abarcando ferimentos por explosões, queimaduras, tiros e agressões físicas. Ao longo dos últimos três anos, as equipes da organização trataram mais de 200 mil casos de trauma*, incluindo lesões causadas por violência física intencional, enquanto a ofensiva militar israelense matou mais de 74 mil pessoas, entre elas mais de 20 mil crianças.

 

População sobrevive sem acesso seguro e suficiente à água potável 

À medida em que Israel confina os palestinos em áreas cada vez mais limitadas, famílias estão sendo empurradas para condições de vida insuportáveis em meio à superlotação, sem acesso suficiente a água potável, saneamento, abrigo ou assistência médica. Essas condições estão contribuindo para a disseminação de doenças. Somente neste ano, as equipes de MSF já trataram mais de 11 mil casos de doenças de pele, como sarna, e registraram mais de 1.500 casos de catapora em junho e julho. Em agosto, a organização distribuiu 2,1 milhões de litros de água potável por dia, mas a dimensão das necessidades continua muito além do que é possível atender sob as atuais restrições. 

“A maioria das pessoas dispõe de menos de seis litros de água por dia para uso doméstico e tem acesso limitado a itens básicos de higiene, como sabão e detergente”, afirma Murad Asaliyya, coordenador de atividades médicas de MSF em Gaza. “Estamos tratando gastroenterite, infecções respiratórias agudas, muitas doenças de pele, hepatite, infecções bacterianas da pele, sarna e infestação por piolhos. Ao mesmo tempo, enfrentamos uma grave escassez de suprimentos médicos. Até mesmo o creme necessário para tratar a sarna foi restringido pelas autoridades israelenses.” 

 

Restrições à entrada de suprimentos médicos interrompem tratamentos essenciais 

Nos últimos três anos, o acesso à assistência médica tem se deteriorado drasticamente. Os hospitais enfrentam escassez crescente de suprimentos básicos, enquanto pacientes deixam de ter acesso a medicamentos e tratamentos essenciais. As restrições a insumos indispensáveis, como óleo para motores e peças de reposição, também estão comprometendo a infraestrutura necessária para manter hospitais, ambulâncias e sistemas de abastecimento de água em funcionamento, com geradores já apresentando falhas e operações de transporte de água sendo reduzidas. 

A destruição do sistema de saúde de Gaza, os danos a mais de 80% de todas as estruturas do território, além dos impactos físicos e psicológicos permanentes causados pela violência repetida e pelo deslocamento forçado, terão consequências muito além do presente e impedirão qualquer recuperação significativa por muitos anos. 

 

Cisjordânia, na Palestina, também é alvo das operações militares de Israel 

A crise também não se limita a Gaza. Desde 2023, ataques violentos de colonos, operações militares e incursões em residências, acampamentos de pessoas deslocadas e terras agrícolas, a expansão de assentamentos ilegais, deslocamentos forçados, demolições de casas e restrições de circulação intensificaram-se rapidamente na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, especialmente neste ano. Pacientes atendidos nas clínicas de MSF relatam às equipes a demolição de casas por forças israelenses, os ataques de colonos e o roubo de rebanhos. As políticas de violência, assédio e deslocamento forçado que afetam os palestinos ultrapassam Gaza, provocando uma fragmentação ainda maior do território palestino ocupado. 

Serão necessárias gerações para se recuperar dos danos causados ao longo dos últimos três anos e das décadas anteriores.”

– Amande Bazerolle, coordenadora de resposta a emergências de MSF em Gaza

“As consequências devastadoras do genocídio em curso promovido por Israel continuam sendo sentidas diariamente”, afirma Bazerolle. “Destruição, deslocamento e privação tornaram-se normalizados, práticas que Israel realiza com impunidade. Os governos precisam agir agora para garantir que Israel interrompa a destruição e as mortes, impeça a limpeza étnica e deixe de negar aos palestinos os meios necessários para sobreviver.” 

 

*Esse número refere-se a casos, e não a pacientes, incluindo consultas novas e de acompanhamento. 

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