Israel usa privação de água como arma de guerra em Gaza, denuncia MSF

Com sistema hídrico destruído e bloqueio à entrada de suprimentos essenciais, população vive sem o mínimo para sobrevivência

Destruição em Gaza. Outubro de 2023. ©Mohammed Baba

As autoridades israelenses têm usado a falta de acesso à água como arma contra a população palestina, privando sistematicamente as pessoas em Gaza do abastecimento hídrico em uma campanha de punição coletiva, de acordo com um relatório divulgado por Médicos Sem Fronteiras (MSF).  

MSF insta as autoridades israelenses a restabelecerem imediatamente o abastecimento de água para a população de Gaza nos níveis necessários. Os aliados de Israel devem usar sua influência para pressionar Israel a parar de impedir o acesso humanitário, incluindo os suprimentos de infraestrutura hídrica. 

A negação deliberada de água aos palestinos é parte integrante do genocídio perpetrado por Israel.  

O relatório de MSF, “Água como arma: Israel usa destruição e privação hídrica e de saneamento em Gaza”, documenta como o uso repetido da água como arma pelas autoridades israelenses não é um ato isolado, mas parte de um padrão recorrente, sistemático e cumulativo.  

Isso ocorre paralelamente à morte direta de civis, à devastação de instalações de saúde e à destruição de casas, forçando deslocamentos populacionais em massa. Juntos, constituem uma imposição deliberada de condições destrutivas e desumanas aos palestinos em Gaza. 

Mulheres palestinas deslocadas lavam roupas e louças em baldes do lado de fora de suas tendas no bairro de Al-Shaboura, na cidade de Rafah, no sul de Gaza, em 27 de janeiro de 2024. ©MSF

“As autoridades israelenses sabem que sem água a vida acaba, mas, mesmo assim, destruíram deliberada e sistematicamente a infraestrutura hídrica em Gaza, ao mesmo tempo em que bloqueiam consistentemente a entrada de suprimentos relacionados ao [abastecimento de] água”, alerta Claire San Filippo, coordenadora de emergência de MSF. 

“Palestinos têm sido feridos e mortos simplesmente por tentarem ter acesso à água”, relata San Filippo. “Essa privação, combinada com condições de vida precárias, superlotação extrema e um sistema de saúde colapsado, cria o cenário perfeito para a propagação de doenças.” 

 

Infraestrutura destruída e violência durante distribuições de água  

Israel destruiu ou danificou quase 90% da infraestrutura de água e saneamento em Gaza, incluindo usinas de dessalinização, poços, tubulações e sistemas de esgoto*.  

Criança palestina coleta água na cidade de Beit Lahia, ao norte da Faixa de Gaza, na Palestina. Março de 2025. ©Nour Alsaqqa/MSF

Equipes de MSF documentaram forças israelenses atirando em caminhões-pipa evidentemente identificados e destruindo poços que eram a única fonte de água para dezenas de milhares de pessoas.  

Episódios violentos ocorreram com frequência durante a distribuição de água à população, ferindo palestinos e profissionais humanitários e danificando equipamentos. 

“Meu neto estava em Nuseirat, em julho [de 2025]. Ele foi buscar água potável”, diz Hanan, uma mulher palestina na Cidade de Gaza. “Ele estava na fila com outras crianças, e eles [as forças israelenses] o mataram. Ele tinha 10 anos… Buscar água não deveria ser perigoso.” 

 

Ordens de deslocamento dificultam fornecimento de água 

Com a escassez hídrica provocada pelas autoridades israelenses, simplesmente não é possível fornecer água suficiente à população.  

Depois das autoridades locais, MSF é a maior produtora e uma das principais distribuidoras de água potável em Gaza.  

No entanto, entre maio e novembro de 2025, uma em cada cinco de nossas distribuições de água terminou sem conseguir atender à demanda.  

Nossos caminhões não conseguiram transportar água suficiente para todas as pessoas que aguardavam na fila.  

As ordens de deslocamento das forças israelenses impediram o acesso de nossas equipes a áreas onde fornecíamos água a centenas de milhares de pessoas, levando à interrupção de serviços essenciais e à perda de infraestrutura vital. 

 

Bloqueio de Israel impede entrada de materiais essenciais 

As autoridades israelenses têm impedido a entrada de materiais essenciais para o abastecimento de água e saneamento em Gaza.  

Desde outubro de 2023, o fornecimento de eletricidade, combustível e suprimentos como geradores, suas peças de reposição e óleo de motor — essenciais para o funcionamento dos sistemas de tratamento e distribuição de água — foi suspenso ou severamente restringido.  

Precisamos de água. Isso não faz sentido. É como se estivéssemos pedindo ao mundo o essencial para viver.”

– Ali, palestino deslocado que vive em um acampamento em Deir Al-Balah

Um terço de nossos pedidos para levar suprimentos essenciais para o fornecimento de água e saneamento foi rejeitado ou não obteve respostas.  

Esses itens incluem unidades de dessalinização de água, bombas, cloro e outros produtos químicos para o tratamento hídrico, tanques de água, repelentes de insetos e latrinas.  

Muitos dos materiais aprovados pelas autoridades israelenses foram posteriormente barrados na fronteira. 

 

Sem água, riscos à saúde são profundos 

As consequências da privação de acesso à água são imensas para a saúde, a higiene e a dignidade das pessoas, particularmente para mulheres e pessoas com deficiência.    

O acesso à higiene básica, incluindo água potável, sabão, fraldas e produtos de higiene menstrual, tornou-se extremamente difícil.   

As pessoas são forçadas a cavar buracos na areia para servir de banheiros, que inundam e contaminam os arredores e as águas subterrâneas com matéria fecal.  

A falta de acesso à água e à higiene, juntamente às condições de vida precárias e indignas, como tendas superlotadas e abrigos improvisados, também leva ao aumento de doenças, incluindo infecções respiratórias, doenças dermatológicas e diarreicas.  

As doenças de pele representaram quase 18% das consultas de cuidados de saúde gerais de MSF em 2025. Entre maio e agosto de 2025, constatamos que quase 25% das pessoas haviam sofrido de doenças gastrointestinais no mês anterior. 

 

MSF é a maior produtora de água potável na Faixa de Gaza, depois das autoridades locais. Em março de 2026, graças a melhorias graduais, apesar das condições extremamente restritas, MSF produziu ou distribuiu mais de 5,3 milhões de litros de água por dia em Gaza, o equivalente às necessidades básicas de mais de 407 mil pessoas — um em cada cinco habitantes da Faixa de Gaza. Durante o mês de março, MSF distribuiu mais de 100 milhões de litros: isso equivale a 1.507 km de galões de 20 litros alinhados, o que seria uma distância pouco menor do que a de Belo Horizonte a Brasília, ou de Londres a Roma. 

 

*De acordo com as Nações Unidas, a União Europeia e o Banco Mundial. 

 

 

 

Compartilhar

Relacionados

Como ajudar