RD Congo: enquanto surto de Ebola avança, outras crises não podem ser negligenciadas

Sarampo e cólera se espalham no leste do país, já afetado por anos de conflitos armados

Emmanuel Kabwenge, enfermeiro de MSF, visita pacientes com cólera em uma ala de quarentena no centro hospitalar de Buhimba, em Goma. ©Ley Uwera /MSF
Compartilhar

Após mais de três meses da declaração oficial do surto da doença do Ebola na República Democrática do Congo (RDC), a necessidade de manter a assistência e o financiamento para outras crises de saúde no leste do país permanece.  

Doenças como cólera, sarampo, malária e a violência ligada ao conflito armado, entre outras questões críticas, continuam a ameaçar a vida de milhares de pessoas. 

  • Ajude-nos a agir nesta e em outras emergências! DOE AGORA 

Desde o início do surto de Ebola, em maio, a atenção da mídia e os recursos têm se concentrado amplamente na resposta a essa emergência. A mobilização é fundamental para conter a epidemia, mas não precisa se estender às outras necessidades que persistem nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul. 

 

Na República Democrática do Congo, uma crise se sobrepõe a outra  

Este surto está ocorrendo em um contexto já marcado por múltiplas crises humanitárias e de saúde.  

Repetidos confrontos forçam o deslocamento da população, interrompem campanhas de vacinação e limitam o acesso a serviços essenciais, como água e saúde.  

A essa situação já frágil soma-se o medo agora associado à doença do Ebola. De modo geral, o temor desestimula alguns pacientes a procurarem unidades de saúde nas províncias já afetadas pelo surto.  

Como resultado, pacientes atrasam a ida aos hospitais e podem até chegar a óbito, inclusive por doenças comuns – que, em outras circunstâncias, seriam evitáveis.  

O surto da doença do Ebola é uma emergência grave, mas não é a única.”

– Joshua Eckley, coordenador de projeto de MSF em Kivu do Sul

“Todos os dias, recebemos pacientes que sofrem de diversas doenças, pessoas feridas em ataques e sobreviventes de violência sexual. Para essas comunidades, todas essas emergências coexistem e precisam de uma resposta simultânea.”  

“É essencial preservar a continuidade do atendimento e o acesso à atenção primária de saúde para tratar todas as outras condições”, explica Joshua Eckley, coordenador de projeto de MSF em Kivu do Sul. 

 

Sarampo e cólera se espalham no leste da RD Congo 

Enquanto o surto de Ebola recebe relativa atenção, outros surtos estão se espalhando no leste da RDC. 

De acordo com dados oficiais, mais de 108 mil casos suspeitos de sarampo, com 1.394 mortes, foram registrados em todo o país, de janeiro a 19 de julho de 2026. Quase metade desses casos — mais de 50.827 — está concentrada em Kivu do Norte e Kivu do Sul.  

Ao mesmo tempo, o país já registrou mais de 35 mil casos suspeitos de cólera e 1.051 mortes. Desses casos notificados, 14.819 estão concentrados nessas duas províncias. 

Médicos Sem Fronteiras (MSF) se mobilizou na luta contra o sarampo nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul.  

Nossas equipes realizaram seis intervenções em resposta a surtos da doença, sendo que as mais recentes ainda estão em andamento, ocorrendo em Shabunda, na província de Kivu do Sul, e em Walikale, na província de Kivu do Norte.  

Juntas, essas ações já permitiram tratar mais de 12.050 pacientes e vacinar mais de 283.150 crianças. 

Ao mesmo tempo, as equipes estão enfrentando um ressurgimento preocupante do cólera. Em Bukavu e Shabunda, em Kivu do Sul, MSF continua a atender pacientes após um aumento repentino nos casos registrados no ano passado na província.  

Em Goma, as equipes também foram mobilizadas para combater um surto da doença, entre maio e o início de agosto de 2026. No total, mais de 2.410 pessoas com cólera já foram tratadas em unidades de saúde apoiadas por MSF. 

Para as famílias que atendemos, não há hierarquia entre as crises.”

– Yvan Mbangi, coordenador médico adjunto de MSF em Goma

“Seja uma criança que morre de sarampo ou de malária, seja uma pessoa que sucumbe ao cólera ou à doença do Ebola, toda vida importa”, continua Yvan Mbangi, coordenador médico adjunto de MSF em Goma. 

Além de nossa resposta à doença do Ebola e aos surtos de sarampo e cólera, MSF continua a prestar assistência médica essencial em Masisi, Mweso, Walikale, Bambo, Kibirizi, Kirotshe, Goma e Rutshuru, no Kivu do Norte, e em Minova, Bunyakiri e Uvira, no Kivu do Sul.  

No entanto, dada a magnitude das necessidades, essa mobilização continua insuficiente.  

Essas crises exigem um compromisso muito maior por parte das autoridades de saúde e dos atores humanitários para garantir o acesso aos cuidados de saúde para as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade no país. 

 

Não deixem outras crises em segundo plano 

Enquanto as necessidades humanitárias seguem aumentando, os recursos disponíveis estão diminuindo. Kivu do Norte, em particular, pode ser excluído do próximo ciclo trienal de financiamento do Fundo Global dedicado ao combate à malária. 

No entanto, a malária continua sendo a principal causa de morbidade na RDC, inclusive em Kivu do Norte.  

O deslocamento da população causado pelos conflitos obriga muitas famílias a buscarem refúgio em zonas de mata ou áreas isoladas, onde a exposição aos mosquitos é maior e o acesso aos serviços de saúde é particularmente limitado. 

“Corremos o risco de ver uma redução nos recursos dedicados à doença que, no entanto, mata o maior número de pessoas nesta região. Seria um paradoxo trágico: mobilizar recursos consideráveis contra um surto específico, ao mesmo tempo em que se enfraquece a resposta a uma doença que continua causando um número muito maior de mortes todos os dias”, alerta Mbangi. 

Agentes de saúde comunitária contribuem para reforçar as medidas de prevenção do cólera no centro de saúde de Ibanda, em Kivu do Sul. ©Ley Uwera /MSF

Anos de conflito, deslocamentos massivos da população e insegurança crônica, bem como a drástica redução no financiamento da ajuda humanitária, enfraqueceram significativamente o sistema de saúde nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul.  

Muitas unidades de saúde e hospitais estão operando com capacidade reduzida devido à falta de profissionais, medicamentos e equipamentos, enquanto outros tiveram que suspender suas atividades por causa da violência.  

Em várias regiões, centenas de milhares de pessoas continuam sem acesso regular aos serviços de saúde. 

“Enquanto as necessidades médico-humanitárias continuam crescentes no leste da RDC, apelamos às autoridades, aos doadores e a todos os atores humanitários para que mantenham e reforcem seus investimentos em todas as respostas às numerosas e diversas necessidades da população. É vital que todas as emergências sejam atendidas simultaneamente”, conclui Joshua Eckley, coordenador de projetos de MSF em Kivu do Sul. 

Relacionados

Como ajudar