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O trabalho atendendo pacientes e os aprendizados na Ucrânia

“Uma das professoras que encontrei disse algo que me fez refletir: é difícil se dar conta do horror da guerra sem nunca ter passado por uma”
06/04/2015

Numa das minhas primeiras visitas a um hospital ao sul de Donetsk, na cidade de Starobesheve, encontro com a psiquiatra local – que, como todos os outros profissionais contratados pelo governo, esta há alguns meses sem receber seu salário, mas, mesmo assim segue trabalhando – e ela me conta que tampouco tem medicação psiquiátrica para oferecer a seus pacientes. A situação é preocupante. Como em várias outras estruturas de saúde, MSF está tentando colaborar para que as equipes possam ao menos receber medicações básicas para seguirem atendendo pacientes, mas também enfrentamos vários desafios para fazer com que os remédios cheguem desse lado da frente de batalha. A médica sugere que eu visite uma escola nos arredores pois esse local foi um dos atingidos por bombardeios no mês de dezembro e novamente no início de fevereiro.

Alguns dias depois, consigo organizar minha primeira atividade de atenção direta à população, justamente na escola sugerida pela médica psiquiatra. De fato, em dezembro, durante as aulas, o bombardeio que afetou essa cidadezinha – Komsomolsk – foi tão intenso que atingiu o jardim da escola: todos – alunos, professores e funcionários – correram para se refugiar no abrigo que, até hoje, existe no prédio da escola. Aprendo que muitos edifícios públicos daqui tem essa “estrutura”, resquício do período em que a Ucrânia era parte da União Soviética. Converso com os alunos mais velhos, fazemos uma atividade em grupo e combino de voltar na semana seguinte para ter mais uma conversa com os professores.

Minhas atividades, aos poucos, vão se desenvolvendo. Trabalho junto com uma medica alemã, uma médica ucraniana, um logístico francês, dois motoristas e três tradutoras – uma para cada um de nós, estrangeiros. É muito ruim não falar a língua da população, mas tenho que confessar que o russo me parece realmente difícil. Um dos meus trabalhos é também recrutar uma psicóloga local, tarefa que só vou conseguir assumir quando acabar meu tempo em Donetsk. Enquanto ela não chega, eu mesma realizo as atividades de saúde mental, com a ajuda da minha tradutora, Anastasia.

Nosso objetivo é eleger locais onde podemos oferecer atendimento médico e de saúde mental para a população de modo a, ao mesmo tempo, acessar as pessoas mais afetadas pelo conflito e com mais dificuldades nesse momento mas sem nos sobrepormos às atividades do sistema de saúde local. Assim, elegemos dois critérios principais para nossa atuação no sul de Donetsk: vamos trabalhar nos centros de saúde das cidades e vilarejos menores, onde a população está mais isolada e com mais dificuldade de chegar aos hospitais das cidades grandes, e vamos tentar o mais possível trabalhar nas cidades mais perto da linha de batalha, supondo que ali a população está sofrendo mais. A questão é que nem sempre é possível acessar essas cidades, justamente porque é arriscado: temos que pesar os riscos e os benefícios de tentarmos uma visita a esses locais a cada dia, e o fazemos por meio de nossos profissionais locais, dos contatos que a equipe já tinha estabelecido com os médicos, enfermeiros, prefeitos e outras autoridades de cada uma dessas cidadezinhas e, se avaliamos que é possível ir, vamos – mas a cada parada em um “check point”, os pontos de controle, que são muitos, perguntamos novamente se é possível seguir em frente.

Com essa estratégia, em alguns dias definimos o cronograma de nossas atividades semanais para o mês de fevereiro e o início de março: vamos visitar a cada dia uma das cidades/vilrejos ao sul de Donetsk e conduzir o que chamamos de “clínica móvel”, ou seja, atendimentos médicos e de saúde mental nos postos de saúde existentes que, no momento, estão sem médicos e sem medicamentos. Assim, definimos as cidades que iremos tentar cobrir: Novj Svyet, Styla, Rolsdoyna, Petryvskaya, Novozariwska, Komsomolsk, Rosy Luxembourg – além da língua russa ser muito difícil, aqui ainda temos a complicação de que a grafia das palavras em letras latinas pode ser diferente! E, ainda por cima, há os nomes das cidades em russo, e os nomes em ucraniano, que contém algumas diferenças. Temos que atentar para não nos confundirmos!

Um dia de clínica móvel nunca é igual ao outro. As cidadezinhas, de forma geral, são até semelhantes: essa é uma região muito industrial e sempre é possível ver as chaminés das fábricas no horizonte. As casas das pessoas são térreas (algumas com porões), as ruas não são tão bem conservadas e ainda há muitas lojas e mercados fechados no interior. Também é possível ver os estragos causados pelos bombardeios: telhados destruídos, buracos nas paredes e no chão das casas e ruazinhas, vidros e janelas quebrados – alguns já “reparados” com plástico, outros, que ainda não quebraram, cobertos com fita colante de modo a tentar que, caso haja um novo bombardeio, o volume de estilhaços seja menor. Aprendo com a população que, quando há um bombardeio, o risco não é apenas o de ser alvo direto das bombas, mas também de sofrer com os estilhaços – na prática, ouvimos muitos relatos de pessoas seriamente feridas por conta disso.

Em Rolsdoyna, por exemplo, o centro de saúde foi afetado por bombardeios e o sistema de calefação não funciona! Mas mesmo assim os pacientes vêm: a maioria são idosos, portadores de doenças crônicas, que precisam de medicação para seguirem seu tratamento regular. No meu caso, atendo algumas crianças e adultos, desde pessoas afetadas diretamente pelo conflito e que vêm em busca de algum espaço para “desabafar”, chorar até, e outras que procuraram atendimento por outros motivos, não necessariamente relacionados ao conflito, como problemas familiares, por exemplo.

Em Rosy Luxembourg, por outro lado, o centro de saúde funciona quase que normalmente, e é lindo! Fica numa área rural, em frente a um lago, no meio do que, no verão, são campos de cultivo de girassol. Os pacientes, por outro lado, sofrem com problemas semelhantes: doenças crônicas, medo, problemas para dormir, problemas familiares. Nosso trabalho é grande e cansativo. Esse é um centro de saúde que fica distante de Donetsk, então, toda vez que vamos lá, temos que dormir em outra cidadezinha próxima – Siedova, no litoral, à beira do mar de Azov, quase na fronteira com a Rússia. Quando chegamos lá no primeiro dia… surpresa! O mar estava congelado! Sério mesmo. Não achei que isso pudesse acontecer, mas acontece! Por cerca de 500 metros, nos disseram os pescadores, a água estava totalmente congelada! Eles tinham que quebrar o gelo para que pudessem sair para o trabalho todas as manhãs. Incrível mesmo. Esse lugar é um destino turístico no verão e é por isso que passamos a noite por lá – há alguns hotéis e também alguns dormitórios de grandes empresas metalúrgicas da região que são usados para as férias dos funcionários: nós ficamos em um desses, bem grande, e lá estão também cerca de 30 pessoas que estão fugindo da cidade de Sherokyne, nesse momento ainda sofrendo muito com os bombardeios intensos. Em breve, elas se tornarão nossos pacientes também.

Bom, mas há também outras coisas inusitadas, além do mar congelado e desses hotéis no meio das fábricas: a ópera! A ópera de Donetsk, assim como em Luhansk, pelo que me contam, não parou de funcionar durante todo o período de duração do conflito até agora. Mesmo sem salários, sem condições e tendo que, por vezes, interromper os ensaios para passar algum tempo no abrigo do teatro, o grupo de músicos, atores, produtores, sopranos e tenores continua trabalhando. E nesse sábado toda nossa equipe foi assisti-los! O espetáculo era “Carmen”, a famosa ópera de Bizet. Foi lindo e muito, muito emocionante: a plateia estava lotada e todos aplaudiam demais. O teatro está funcionando apenas durante o dia, aos sábados e domingos, e com ingressos bem em conta, de modo a permitir que a maioria das pessoas possa assistir ao menos uma vez. Foi realmente incrível, uma bela ação de saúde mental.

Meu tempo em Donetsk está terminando. Foi curto, porém muito intenso. Uma das professoras que encontrei disse algo que me fez refletir: é difícil se dar conta do horror da guerra sem nunca ter passado por uma. Ela dizia que antes de sentir os bombardeios na pele, não conseguia imaginar como deve ser a vida em outros contextos, mesmo em outros tempos históricos, nos quais a guerra dura e durou por longo tempo. Não sei se concordo com essa professora, não sei se quem nunca passou por uma guerra não consegue imaginar o quão horrível ela é. Mas talvez passar por uma – assim como passar por outras situações trágicas na vida, grandes ou pequenas – provavelmente deixa algum tipo de marca; marca, não necessariamente trauma. Desde já, percebo em mim essas marcas, apesar do curto tempo e de não ter, felizmente, estado em nenhuma situação de risco considerável. Mas ouvi barulho das bombas, vi as janelas tremendo, as casas destruídas, a quantidade de armas e os relatos das pessoas.

Ir embora é sempre difícil, ao mesmo tempo em que um alívio: dá uma certa sensação de estar abandonando o barco. Espero sinceramente que a situação melhore, porque o sofrimento da população é muito grande. Vamos ver. Agora é arrumar as malas e refazer o longo caminho até Kiev, e então, quem sabe, poder dormir uma noite inteira sem acordar com barulhos estranhos.