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Leste de Burkina Faso: população sofre com aumento sem precedentes da violência

05/06/2020
Por Abdallah Hussein, chefe de missão de MSF em Burkina Faso
Leste de Burkina Faso: população sofre com aumento sem precedentes da violência

Foto: MSF

Aviso importante: o conteúdo e as opiniões expressas nestes artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente o posicionamento oficial de Médicos Sem Fronteiras.

Embora a COVID-19 seja manchete no mundo todo, as crises humanitárias menos visíveis estão se agravando. Agora, assassinatos, sequestros e saques são comuns nos vilarejos do leste de Burkina Faso, uma das regiões mais afetadas pelo conflito armado entre as forças de segurança nacional e vários grupos armados, que provoca deslocamentos em massa da população civil.

Remotas, as comunidades vulneráveis enfrentam enormes desafios que recebem pouca atenção. Em meio a conflitos, pobreza e epidemias recorrentes, dezenas de milhares de pessoas têm acesso limitado a serviços sociais básicos, incluindo assistência médica, e vivem com medo de ataques violentos, doenças endêmicas e falta de comida e água. Os próximos meses serão ainda mais difíceis: a estação chuvosa e o período de transição, que começam em junho, geralmente causam um pico de desnutrição grave e malária, uma das principais causas de morte no país. Ainda não foram confirmados casos do novo coronavírus na região, mas a ameaça adiciona outra camada de complexidade ao já enorme desafio de levar ajuda a um ambiente tão precário.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) oferece assistência médica, abastecimento de água e resposta a necessidades básicas na região desde maio de 2019. Mas ainda há muito a ser feito. A ajuda humanitária deve ser intensificada com urgência para evitar mais mortes e mais sofrimento.

Necessidades humanitárias e consequências psicológicas

Nos últimos dois meses, uma nova onda de ataques a vilarejos remotos no leste de Burkina Faso fez com que milhares de famílias fugissem para as cidades de Gayeri e Fada. Nossa equipe ouviu depoimentos de sobreviventes que sofreram ou testemunharam violência extrema, tiveram que andar por dias para chegar a um porto seguro e deixaram para trás tudo o que tinham. Muitos perderam entes queridos. Para alguns, as consequências psicológicas são profundas. De janeiro a maio, nossas equipes trataram mais de 5.300 pacientes com problemas de saúde mental.

A falta de abrigo adequado é preocupante, pois as famílias deslocadas às vezes moram em tendas feitas de palha ou plástico. O que é ainda pior : muitas pessoas, incluindo as comunidades anfitriãs, não têm acesso suficiente a água. Outra preocupação é a escassez de alimentos.

Um sistema de saúde prejudicado por conflitos e escassez

Após quatro anos de violência que exacerbaram deficiências crônicas, o sistema de saúde no leste de Burkina Faso é muito frágil. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 30 estruturas médicas na região estão fechadas ou não funcionam adequadamente. Não há escassez apenas de medicamentos e equipamentos, porque foram saqueados ou a insegurança dificultou o abastecimento, mas também de pessoal médico.

A violência extrema forçou muitos médicos e enfermeiros a se deslocarem para áreas urbanas mais seguras. Diante dessa instabilidade, as transferências de emergência das comunidades rurais para instituições especializadas podem ser muito difíceis. Embora o direito internacional humanitário o proíba, ambulâncias foram atacadas na região. O medo é onipresente. Algumas pessoas relutam em procurar tratamento por medo de serem associadas a uma das partes do conflito e se tornarem alvo.

Violência dificulta oferta de ajuda humanitária

A insegurança continua dificultando a oferta de ajuda humanitária e limita muito nossa chegada a determinadas comunidades, sobretudo às que vivem em aldeias remotas. No dia 16 de abril, por exemplo, tivemos que cancelar uma avaliação de necessidades na aldeia de Tawalbougou, que havia recebido milhares de famílias deslocadas, porque homens começaram a atirar contra uma de nossas equipes de saúde. Mais tarde, conseguimos retomar nossas atividades na região e pudemos ajudar as comunidades afetadas, mas esse nem sempre é o caso.

É difícil reunir informações sobre a extensão do deslocamento ou ter um panorama completo da mortalidade e da situação de saúde em certas áreas. Nosso acesso a populações vulneráveis geralmente é limitado pela instabilidade e pela multidão de atores armados. Como resultado, milhares de pessoas permanecem isoladas e privadas de serviços básicos, incluindo cuidados de saúde.

O impacto colateral da COVID-19

Burkina Faso registrou mais de 800 casos de COVID-19 desde que a epidemia foi confirmada pela primeira vez no país, em março. Embora a região oriental tenha sido poupada até o momento, o risco permanece e, infelizmente, a pandemia tem um impacto colateral negativo no nosso trabalho.

Interrompemos serviços médicos não-essenciais nas unidades de saúde e adaptamos outras atividades. O apoio psicológico, por exemplo, agora é fornecido remotamente: por telefone, através de programas de rádio e folhetos de conscientização.

A COVID-19, associada à violência, também complica a realização das campanhas de vacinação. Por exemplo, após uma recente epidemia de sarampo, concordamos em vacinar crianças com menos de 15 anos no distrito de Pama. O primeiro desafio foi a segurança das nossas equipes, porque ali tem um histórico de incidentes contra profissionais de saúde e ambulâncias. O segundo desafio dizia respeito à própria estratégia: os grandes encontros não eram mais possíveis por causa da COVID-19, portanto, tivemos que reorganizar nossa atividade habitual. Em vez de trabalhar em locais fixos, como centros de saúde, tivemos que ir de porta em porta para vacinar as crianças. Além disso, precisávamos garantir que todas as equipes de vacinação tivessem o equipamento de proteção individual necessário para minimizar o risco de infecção. Essa abordagem exigia muito tempo e organização. Aconteceu também de algumas famílias começarem a se opor à vacinação contra o sarampo por causa de boatos e por medo de que tivesse ligação com a COVID-19; nossos mobilizadores comunitários tiveram que fazer esforços enormes para esclarecer a questão. Apesar desses obstáculos, conseguimos alcançar nossa meta e vacinamos mais de 40 mil crianças e examinamos mais de 15 mil crianças com menos de 5 anos em busca de casos de desnutrição e tratamos as pessoas que precisavam de cuidados.

Também enfrentamos problemas para adquirir equipamentos de proteção individual para nossa equipe, o que reduziu nossa capacidade de prestar assistência. De fato, levamos mais de dois meses para receber uma remessa internacional de avental, proteção facial e equipamento similar. Restrições a viagens internacionais também nos impedem de levar profissionais mais experientes (de médicos especialistas a parteiras e logísticos) ao país.

O mais preocupante é que muitas comunidades deslocadas e também as anfitriãs vivem em condições precárias, os serviços médicos estão se tornando cada vez mais frágeis e os serviços de terapia intensiva e ressuscitação para pacientes em estado grave são extremamente limitados. É por isso que é essencial continuar fortalecendo as medidas preventivas junto às comunidade, mesmo que não seja simples: como implementar o "distanciamento social" em uma barraca superlotada? Como lavar as mãos quando você nem tem água suficiente para beber?

A pandemia não deve ofuscar outras necessidades urgentes.

A COVID-19 é uma emergência dentro de outra emergência. É só uma entre as muitas prioridades em Burkina Faso e não deve retirar os recursos de outros serviços médicos vitais.

O controle da pandemia é essencial, mas isso não deve ocorrer às custas de outras iniciativas humanitárias essenciais. No leste de Burkina Faso, a COVID-19 não é necessariamente a principal preocupação da população: para milhares de pessoas deslocadas e comunidades locais, a sobrevivência já é difícil. Essas pessoas temem a fome e a sede, em vez de um vírus que ainda não atingiu a região. E elas temem que a estação chuvosa destrua seus abrigos improvisados. A luta contra a pandemia deve ser uma prioridade, mas não deve ofuscar outras necessidades urgentes nem desviar fundos, profissionais e ajuda destinados a melhorar as condições de vida dos mais vulneráveis.

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