Sudão: necessidades aumentam, mas hospitais desaparecem

Em meio à maior crise humanitária do mundo, Estados Unidos e governos europeus reduzem o financiamento ao país

Equipes médicas fazem visitas aos pacientes no centro de nutrição terapêutica administrado por MSF no Hospital Universitário de Zalingei. ©Tadeu Andre/MSF
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Em todo o Sudão, a guerra continua intensificando a fome, as doenças e o deslocamento de pessoas, enquanto os cortes no financiamento humanitário por parte dos Estados Unidos e de governos europeus estão fechando hospitais e esvaziando as prateleiras de medicamentos dos que permanecem abertos. A distância entre a doença e o tratamento está aumentando. Médicos Sem Fronteiras (MSF) pode manter alguns serviços em funcionamento, mas não pode substituir todo um sistema de saúde. 

Sedra Adam Ali com sua bebê na UTI neonatal de Zalingei, em Darfur Central. A pequena nasceu prematuramente, por meio de uma cesariana de emergência. ©Tadeu Andre/MSF

QuandSedra viu sua filha recém-nascida pela primeira vez, seu próprio corpo estava em colapso. Sua pressão arterial aumentava. Sua visão estava turva, os ouvidos zumbiam e ela tremiaA única coisa em que conseguia pensar era:  

Será que ela vai crescer e viver, ou vai nos deixar? Chorei muito. Eu mesma não esperava sobreviver.”

Sedra Adam Ali, paciente de MSF no Sudão

 

Um médico a internou na enfermaria do Hospital Universitário de Zalingei, no estado de Darfur Central. Sua recém-nascida precisava de cuidados neonatais devido à desnutrição com complicações. Hoje, a bebê está ganhando peso, e Sedra, que também é assistente médica, acompanha de perto sua evolução.

Sedra conseguiu atendimento a tempo para ela e sua filha. Mas, para muitas pessoas em todo o Sudão, isso está longe de ser garantido. Guerra, deslocamentos, ataques a serviços de saúde, obstáculos à mobilidade e a destruição de estruturas médicas aumentam as necessidades de atendimento. E, embora os cortes de financiamento não tenham criado essas necessidades, eles têm enfrequecido os serviços destinados a preveni-las, detectá-las e tratá-las.

 

Cortes na ajuda humanitária ameaçam o acesso à saúde no Sudão

Em Hamidiya, em Darfur Central, Safa encontrou segurança depois de fugir de El-Fasher e, posteriormente, de Kabkabiya, no estado vizinho de Darfur do Norte. Seu pai morreu por causa da guerra e sua família se dispersou. Ela não sabe para onde todos foram. “A situação aqui é relativamente segura”, diz Safa. “Mas não há assistência médica nem trabalho.”

Safa Mansour foi forçada a fugir de El Fasher durante os combates na cidade, onde estudava enfermagem. ©Tadeu Andre/MSF

Antes do início do conflito, ela havia concluído dois dos quatro anos da formação em Enfermagem. Ainda espera terminar os estudos, mas, neste momento, ela e muitas outras pessoas concentram seus esforços em necessidades básicas, como comida. “O dia está quase acabando e eu não consegui uma única refeição”, afirma.

Uma organização internacional de ajuda humanitária deixou de apoiar o centro de saúde próximo de Safa. Chegar a outra unidade de saúde em funcionamento custa cerca de dois dólares em transporte. Um trabalhador braçal em Darfur ganha aproximadamente um dólar por dia, o que significa que a viagem custa o equivalente a dois dias de salário, obrigando os moradores a escolherem entre atendimento médico e alimentação. “Esse dinheiro poderia comprar comida”, diz ela.

Se não há comida, não há como ter saúde.

Safa Mohamed Mansour, estudante de Enfermagem, sobrevivente da guerra no Sudão

As vacinas que antes estavam disponíveis no centro de saúde deixaram de ser oferecidas, e os exames agora se restringem, em grande parte, à malária. Crianças adoecem por outras doenças, mas muitas famílias não têm condições financeiras para buscar tratamento. O resultado? “As crianças morrem”, diz Safa. 

 

Menos atendimento, mais necessidades 

No centro de saúde de HamidiyaJaffer, assistente médico, testemunhou o colapso dos serviços. Ele trabalhou lá por 15 anos. O local oferecia consultas médicas, atendimento materno-infantil e serviços de nutrição e saúde mental, além de ter uma farmácia com medicamentos para doenças crônicas. Após os cortes de financiamento, restaram apenas sete voluntários. “Agora que a organização humanitária foi embora, estamos em dificuldade”, afirma Jaffer 

Não há medicamentos.Costumávamos atender entre 150 e 200 pacientes por dia, agora atendemos de 30 a 40.”

Jaffer Sadiq Abaker Saleh, assistente médico no centro de saúde de Hamidiya

Jaffer Sadiq Abaker Saleh, assistente médico, fecha as portas de um centro de atenção primária à saúde que já não funciona plenamente devido aos cortes de financiamento. ©Tadeu Andre/MSF

Essa redução não significa que as pessoas ficaram mais saudáveis. Elas simplesmente deixaram de fazer a viagem até uma unidade de saúde, que já não há atendimento. As doenças continuam presentes, mas os serviços não. Os voluntários seguem retornando ao local, protegendo os equipamentos na esperança de que outra organização assuma as atividades.

A interrupção na unidade de saúde de Jaffer faz parte de algo muito mais amplo. Em maio, MSF apurou que mais de 45 centros de atenção primária à saúde haviam ficado sem apoio em Darfur Central.

Fechar um hospital não acaba com os pacientes.

Sebastián Traficante, coordenador de emergência de MSF na região de Darfur

“Isso apenas o encaminha para a próxima unidade de saúde, depois de uma viagem mais longa e mais cara, e muitas vezes em situação mais grave. O hospital que eles alcançam pode já estar lotado. MSF consegue reforçar alguns serviços, mas não conseguimos absorver tudo que foi fechado”, continua Sebastián.

No hospital de Kas, em Darfur do Sul, Rahma passou 18 dias ao lado de seu filho de 1 ano, que chegou em estado crítico, com meningite, malária e desnutrição aguda grave. Depois de mais de duas semanas de tratamento, a criança começou a se recuperar. “Viajamos por horas para chegar a este hospital”, diz Rahma. “O pequeno hospital perto do nosso vilarejo fechou as portas e agora não há nenhum lugar próximo para buscar atendimento”.

Mesmo quando se encontra um médico, não há medicamentos. Sem remédios, o que o médico pode fazer?

Rahma, mãe de um paciente de 1 ano de idade

“Quando uma criança chega ao hospital após horas na estrada, frequentemente estamos tratando várias emergências ao mesmo tempo”, afirma Saiful Islam, coordenador médico de MSF no Sudão. “Doenças graves exigem atendimento urgente, e a desnutrição severa deixa a criança com menos força para combater infecções e se recuperar. Uma unidade de saúde pode fechar a quilômetros de distância, e as consequências médicas acabam chegando às nossas enfermarias.”

 

Fome e falta de atendimento se aprofundam enquanto a ajuda diminui

Kas é apenas um hospital em um único estado. A Organização das Nações Unidas estima que 33,7 milhões de pessoas no Sudão precisarão de assistência humanitária em 2026. Em 11 de agosto, o plano de resposta de 2,87 bilhões de dólares estava financiado em apenas cerca de 41%. A Organização Mundial da Saúde afirma que 21 milhões de pessoas não têm acesso a serviços de saúde e que 37% das unidades de saúde não estão em funcionamento no Sudão.

A fome é outro desafio enfrentado pelas famílias. Quase 19,5 milhões de pessoas passaram por insegurança alimentar em nível crítico ou pior entre fevereiro e maio, segundo a Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar, que prevê que 825 mil crianças menores de 5 anos de idade sofrerão de desnutrição aguda grave neste ano no país.

O pequeno Mubashir é uma dessas crianças. Ele passou 16 dias no centro de nutrição terapêutica de MSF, no Hospital Universitário de Zalingei. “Deram leite e medicamentos para ele”, conta o pai, Mohammed Khamis. Quando Mubashir se recuperar, voltará para casa e encontrará novamente a escassez. Cada vez menos organizações distribuem comida, e o próprio Mohammed já apresenta sinais de desnutrição.

Não há comida para alimentar meus filhosEstamos ficando fracos.”

Mohammed Khamis, pai de Mubashir, paciente internado com desnutrição

 

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À medida que os serviços desaparecem, a pressão sobre os que permanecem aumenta. As internações nos hospitais apoiados por MSF em Zalingei e Rokero cresceram 22,5% entre janeiro e abril de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. Os cortes de financiamento, por si só, não explicam esse aumento. Os combates, o deslocamento, as doenças e a fome também contribuem. Mas cada clínica que fecha deixa cada vez mais pessoas mais pessoas com menos opções. 

Os efeitos da retração da resposta humanitária também são visíveis no leste do Sudão. O acampamento de refugiados de Tenedba abriga cerca de 18.400 residentes e, devido ao seu status de refugiados, eles não podem buscar atendimento fora do acampamento. Oito organizações deixaram de atuar no local, e as que permaneceram relatam dificuldades de financiamento, operando com horários reduzidos e menos serviços.  

 

Organizações não-governamentais têm suspendido operações no Sudão

Em junho, a organização humanitária Alight deixou o acampamento repentinamente, deixando os moradores sem atendimento para partos seguros, incluindo cesarianas de emergência. MSF agora administra os partos de emergência no acampamento e encaminham as mulheres que precisam de cirurgia para Al-Gedaref ou Hawata, a três ou quatro horas de distância.

Essas viagens longas ficarão ainda mais difíceis devido a outro desafio que se aproxima. “A estação das chuvas está chegando, e com ela a malária”, diz Jaffer. As chuvas tornam todas as distâncias mais difíceis de percorrer, pois as estradas se tornam complicadas ou impossíveis de usar. Encaminhamentos desaceleram, suprimentos ficam retidos e a malária, as doenças transmitidas pela água e a desnutrição sazonal aumentam todas ao mesmo tempo.

Mesmo que os serviços começassem a retornar hoje, eles não estariam plenamente operacionais de imediato. Uma transição responsável exige tempo, profissionais treinados, medicamentos, transporte e recursos contínuos para manter os cuidados funcionando. 

A guerra está intensificando as necessidades do Sudão, e os cortes de financiamento estão reduzindo a resposta.

Muhammad Ibrahim, coordenador-geral de MSF no Sudão

“O trabalho dMSF no Sudão não depende de financiamento governamental. Mas quando o financiamento desaparece de outros serviços de saúde, hospitais fecham, os pacientes têm menos lugares para procurar atendimento, e a pressão se desloca para as unidades que permanecem abertas, incluindo as nossas. É preciso proteger os serviços essenciais de saúde e fornecer financiamento sustentável e flexível às organizações que dependem desses recursos, reforça Muhammad Ibrahim. 

Sedra agora consegue imaginar sua filha crescendo, talvez para se tornar engenheira ou médica. “Ela ainda está aqui”, comemora ela. No Sudão, estar aqui significa estar viva. 

Esse futuro só existe porque uma enfermaria estava aberta, um médico estava lá dentro e o tratamento que as pessoas precisavam estava disponível. Em todo o Sudão, cada vez menos famílias podem contar com esses três elementos. A sobrevivência depende da próxima refeição, do próximo medicamento, do próximo encaminhamento seguro, da próxima clínica com as portas abertas.  

Os pacientes do Sudão ainda estão aqui. Os hospitais, os medicamentos e as organizações das quais eles dependem também precisam permanecer. 

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