Ataques em Kiev, na Ucrânia, deixam mortos e feridos e interrompem serviços essenciais

“Vi o chão tremer e meu próprio sangue escorrendo”: civis vivem sob alerta constante e sofrem impactos cada vez mais severos na saúde física e mental

©Daniel Buuma
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Há mais de uma semana, as forças militares russas mantêm ataques intensos e ininterruptos contra Kiev, capital da Ucrânia, e áreas próximas. Sejam direcionados ou indiscriminados, muitos dos mísseis e drones atingiram prédios residenciais, unidades médicas e estoques de suprimentos farmacêuticos, alimentos e bens de consumo — em uma clara violação do direito internacional humanitário. 

Entre 27 de agosto e 3 de setembro, segundo os relatórios mais recentes das autoridades locais, pelo menos 51 pessoas morreram e quase 100 ficaram feridas na região de Kiev. 

Vi o chão tremer, vi meu próprio sangue escorrendo e comecei a me arrastar em direção a um abrigo.” 

Artem*, paciente de Médicos Sem Fronteiras (MSF) ferido durante um ataque ao vilarejo de Pohreby, na região de Kiev

Artem trabalhava em um estoque de alimentos atingido por um drone. “Eu estava indo para um abrigo e conversando ao telefone. Não consegui chegar lá: olhei para trás, vi algo voando em minha direção e caí. O torniquete foi aplicado a tempo, e fui levado ao hospital. Eu não estava preocupado comigo, mas com meus colegas que ainda estavam dentro do prédio.” 

Uma equipe de MSF está oferecendo reabilitação de fase aguda a Artem em um dos maiores hospitais de Kiev.  

Ele sofreu lesões em ambas as pernas: uma fratura na perna direita e o rompimento de um tendão na esquerda. Seu corpo inteiro apresenta ferimentos causados por estilhaços. 

“É muito importante iniciar a reabilitação o mais rápido possível e colocar o paciente em posição vertical”, explica Maksym Riabokon, supervisor de fisioterapia de MSF, “porque, se a pessoa permanece deitada, corre risco de atrofia muscular e pneumonia congestiva, além de ter o funcionamento do trato gastrointestinal prejudicado.”  

“Nossa principal tarefa é tornar o paciente autossuficiente e independente, oferecendo as ferramentas e o apoio necessários assim que ele estiver estabilizado e tiver passado pela cirurgia”, conlui Riabokon. Atualmente, Artem está aprendendo a caminhar com o auxílio de um andador, sendo também acompanhado por psicólogos da organização. 

 

O impacto na saúde mental 

Os constantes alertas de ataques aéreos e as explosões estão afetando a saúde mental dos pacientes.  

“É muito desgastante. As pessoas tentam continuar com suas atividades, mas essa sensação de exaustão é muito evidente, e elas estão ficando cada vez mais cansadas. Especialmente porque, no momento, é impossível circular normalmente por Kiev: pontes estão sendo fechadas e algumas estações de metrô estão fora de operação”, relata Lesia Martseniuk, supervisora de saúde mental de MSF.  

“Os pacientes nos relatam que suas famílias estão vivenciando níveis elevados de estresse. As atividades escolares e de creches são interrompidas durante os alertas, enquanto os pais se preocupam com seus filhos e com a segurança deles”, acrescenta Martseniuk. 

As noites sem dormir, marcadas pelo som de grandes explosões, e a ansiedade constante são sentidas profundamente pelas equipes de MSF e suas famílias em Kiev.  

Toda a sociedade de Kiev está sofrendo. MSF condena os ataques das forças armadas russas contra infraestruturas civis e áreas residenciais povoadas. 

 

*Nome do paciente foi alterado para preservar seu anonimato.

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