Violência e restrições de circulação aumentam necessidades médicas em Hebron, na Cisjordânia

Apesar das limitações impostas, MSF conseguiu ampliar atividades, incluindo apoio de saúde mental

Profissional de MSF analisa uma ecografia durante atividades em uma clínica móvel em Khallet Al-Mai, Hebron, na Cisjordânia. Palestina, julho de 2026. ©Oday Alshobaki/MSF
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À medida que colonos israelenses e as forças armadas do país intensificam ataques em toda a Cisjordânia sem interrupção, os palestinos enfrentam dificuldades para acessar cuidados básicos de saúde devido a restrições de circulação, insegurança e violência sistemática.  

Apesar de as autoridades israelenses limitarem nossa capacidade de responder a importantes necessidades de saúde, Médicos Sem Fronteiras (MSF) conseguiu ampliar as atividades de clínicas móveis em Hebron, incluindo apoio a pessoas com necessidades de saúde mental provocadas pela violência deliberada. 

 

Violência impulsiona necessidades de saúde física e mental 

Ataques repetidos, deslocamentos, restrições de circulação e a deterioração das condições de vida estão afetando a saúde física e mental da população de Hebron. 

Ismail Ibrahim, paciente de uma área próxima a Yatta, cidade da província de Hebron, afirma ter sido atacado três vezes nos últimos meses. 

Colonos borrifaram spray de pimenta no meu rosto enquanto eu trabalhava em uma plantação de oliveiras que minha família cultivava há anos. 

– Ismail Ibrahim, paciente de MSF 

“Eles soltaram animais entre as oliveiras, danificando a terra, destruindo e quebrando as árvores. Quando a polícia chegou, nos disseram que não tínhamos permissão para falar com os colonos.” 

“Todos os dias a situação piora”, afirma Ibrahim. “Muitas pessoas da nossa comunidade foram atacadas. Uma vez eles vieram durante a noite e roubaram 200 ovelhas. Cortaram o portão da cerca. Só conseguimos recuperar algumas.” 

Pelo menos 77 palestinos foram mortos neste ano por forças israelenses e colonos na Cisjordânia, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Esse número já é superior ao registrado em todo o ano de 2025.  

Desde março, entre 17% e 38% das consultas psicológicas realizadas por MSF foram motivadas por episódios de violência intencional, em comparação com índices de 13% ou menos no início do ano. 

Entre janeiro e julho, equipes de MSF realizaram mais de 1.930 consultas individuais de saúde mental e conduziram 436 sessões de terapia em grupo por meio de atividades móveis e de uma sala fixa de atendimento.  

No mesmo período, as equipes em Hebron receberam quase 170 alertas de incidentes como demolições de residências, ferimentos ou ataques a sistemas de água e saneamento. Foram conduzidas 27 respostas rápidas, que podem incluir apoio em saúde mental ou a distribuição de itens essenciais, como colchões e lonas. 

 

Barreiras crescentes a cuidados médicos 

Além da escalada da violência, as restrições de circulação e o colapso do sistema de saúde também estão criando obstáculos ao acesso aos cuidados médicos. 

“Observamos uma demanda crescente por nossos serviços médicos porque as pessoas enfrentam condições econômicas difíceis e não conseguem pagar pela assistência privada”, diz Mohammad Haroub, coordenador médico adjunto de MSF em Hebron. 

A escassez de profissionais de saúde agrava ainda mais o problema. Após sua ofensiva em Gaza, Israel reteve bilhões de dólares em receitas tributárias destinadas à Autoridade Palestina.  

Isso afetou severamente o pagamento dos profissionais da saúde, resultando na redução das jornadas de trabalho das equipes médicas e, em alguns casos, no fechamento completo de clínicas. 

“A disponibilidade limitada de serviços de saúde, bem como a falta de profissionais e medicamentos no sistema do Ministério da Saúde, criou uma carga adicional”, afirma Haroub. “Alguns pacientes nos dizem que estão sem medicamentos há vários dias.” 

Além disso, chegar aos serviços de saúde tornou-se cada vez mais difícil para muitos palestinos devido à insegurança, aos postos de controle e aos bloqueios de estradas. 

“A vida se tornou um grande fardo por causa dos ataques dos colonos”, diz Aisha*, moradora de um vilarejo próximo a Yatta que conseguiu chegar a uma clínica de MSF em Khallet Al Mai.  

“Tenho medo o tempo todo. Meus parentes quase não dormem. Eles têm medo de que os colonos apareçam.”  

Embora a clínica esteja a apenas alguns quilômetros de distância, a viagem de Aisha foi prolongada pela insegurança e pelos desvios necessários. 

Sua sogra sofre de diabetes e hipertensão, mas, segundo ela, “nem todos os medicamentos estão disponíveis” no local onde a família vive. 

  

Restrições operacionais em meio à incerteza 

Apesar das limitações, entre janeiro e julho MSF realizou 7.595 consultas ambulatoriais em Hebron, incluindo 1.910 relacionadas à saúde sexual e reprodutiva.  

Em junho e julho, após expandir suas operações de cinco para oito clínicas móveis, as equipes de MSF realizaram respectivamente 1.450 e 1.397 consultas ambulatoriais. Esses foram os maiores números mensais de 2026, representando um aumento de 26% em comparação com os dois meses anteriores.  

Os problemas de saúde mais comuns atendidos foram condições ginecológicas, doenças não transmissíveis, infecções das vias respiratórias superiores e conjuntivite. 

Isso ocorreu após MSF ter sido forçada a reduzir mais da metade de suas atividades móveis no primeiro trimestre do ano devido ao cancelamento de registros por parte das autoridades israelenses.  

Essa medida limitou o acesso a áreas como o bairro militarizado H2, na cidade de Hebron, e aos vilarejos das colinas de Masafer Yatta, frequentemente sujeitas à violência e a ataques.  

Para alcançar pacientes de comunidades que já não podiam mais ser visitadas por MSF, foram abertas novas clínicas próximas aos limites da Área C, uma região sob controle exclusivo das forças israelenses, garantindo que a população continuasse tendo acesso aos serviços da organização. 

Apesar da adaptação das atividades, as equipes de MSF continuam enfrentando grandes restrições operacionais. 

“Todos os dias não sabemos sequer se conseguiremos chegar à clínica. O contexto muda constantemente”, afirma Elisa Tamimi, especialista em assuntos humanitários de MSF em Hebron.  

“Às vezes, áreas inteiras ficam fechadas por um dia, dois dias, ou até uma semana. Isso tem um impacto enorme na vida das pessoas. Muitas perderam seus empregos e não conseguem encontrar outro trabalho.” 

“As autoridades israelenses devem interromper todas as medidas que forçam palestinos a deixar suas casas, garantir acesso irrestrito a cuidados de saúde e à assistência humanitária, proteger os civis e cumprir o direito internacional”, afirma Joan Tubau, coordenador-geral de MSF na Palestina. 

Aisha diz que não está pedindo muito: “Espero que a vida possa voltar a ser como era antes da guerra. Espero que as pessoas possam viver com dignidade. Quero que possam sair sem medo, ter acesso à saúde, à educação e às necessidades básicas.” 

 

*Nome alterado para proteger a identidade. 

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