Restrição de alimentos e ajuda leva Gaza a grave crise de desnutrição

Insegurança alimentar provocada por Israel tem impactos devastadores sobre gestantes e recém-nascidos

Profissional do Hospital Al-Helou, na Cidade de Gaza, examina um recém-nascido com baixo peso sob cuidados em uma incubadora. Abril de 2026. ©Nour Alsaqqa/MSF

A crise de desnutrição causada por Israel em Gaza teve um impacto devastador sobre mulheres grávidas e lactantes, recém-nascidos e bebês com menos de 6 meses de vida durante períodos de intensas hostilidades e cerco, como em meados de 2025, de acordo com uma análise de dados divulgada hoje (07/05) por Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Em quatro unidades de saúde administradas e apoiadas por MSF entre o final de 2024 e o início de 2026, as equipes da organização registraram níveis mais elevados de bebês prematuros e mortalidade entre recém-nascidos de mães afetadas pela desnutrição durante a gravidez.

Os profissionais também observaram altos índices de abortos espontâneos e o aumento acentuado na interrupção do tratamento entre crianças com desnutrição.

A crise de desnutrição é inteiramente provocada. Antes da guerra, a desnutrição em Gaza era praticamente inexistente.”

– Mercè Rocaspana, referente médica de MSF para emergências

MSF atribui esses indicadores ao bloqueio de insumos essenciais e aos ataques de Israel contra infraestruturas civis, incluindo instalações médicas.

A insegurança, o deslocamento, as restrições à ajuda humanitária e o acesso limitado a alimentos e cuidados médicos tiveram terríveis consequências para a saúde materna e neonatal.

MSF alerta que a situação continua extremamente frágil, apesar do dito cessar-fogo, e insta as autoridades israelenses a permitirem imediatamente a entrada desimpedida de assistência e suprimentos vitais.

 

Desnutrição tem impactos devastadores durante a gravidez

“A crise de desnutrição é inteiramente provocada”, afirma Mercè Rocaspana, referente médica de MSF para emergências.

“Antes da guerra, a desnutrição em Gaza era praticamente inexistente. Há dois anos e meio, o bloqueio sistemático à ajuda humanitária e a bens comerciais, somado à insegurança, restringiu severamente o acesso a alimentos e água potável. As unidades de saúde foram forçadas a encerrar suas atividades e as condições de vida pioraram profundamente. Como resultado, grupos vulneráveis da população estão expostos a um alto risco de desnutrição”, completa Mercè Rocaspana.

MSF analisou dados coletados de 201 mulheres mães de recém-nascidos em tratamento nas unidades de terapia intensiva neonatal (UTINs) dos hospitais Al Nasser e Al Helou, em Khan Younis e na Cidade de Gaza, entre junho de 2025 e janeiro de 2026. Mais da metade das pacientes foi afetada pela desnutrição* em algum momento durante a gravidez, e 25% ainda estavam com desnutrição durante o parto.

Dos bebês nascidos de mães afetadas pela desnutrição, 90% nasceram prematuramente e 84% apresentaram baixo peso ao nascer — uma incidência muito maior do que entre bebês nascidos de mães sem desnutrição no momento do parto.

A mortalidade neonatal foi duas vezes maior entre bebês nascidos de mães afetadas pela desnutrição em comparação com aqueles cujas mães não tinham desnutrição.

Profissional do Hospital Al-Helou, na Cidade de Gaza, examina um recém-nascido com baixo peso sob cuidados em uma incubadora. Abril de 2026. ©Nour Alsaqqa/MSF

Deslocamento e insegurança impedem o tratamento

Entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, as equipes de MSF admitiram 513 bebês com menos de 6 meses de vida em programas ambulatoriais de nutrição terapêutica nas unidades de saúde primárias de Al Mawasi e Al Attar, em Khan Younis.

Desses admitidos, 91% corriam risco de complicações no crescimento e desenvolvimento.

Em dezembro, 200 bebês já não estavam mais no projeto — apenas 48% deles haviam sido curados, 7% morreram, 7% foram encaminhados para um programa destinado a crianças mais velhas e impressionantes 32% abandonaram o tratamento, principalmente por causa da insegurança e do deslocamento.

Profissional de MSF monitora registros médicos na unidade de terapia intensiva neonatal do Hospital Al-Helou, na Cidade de Gaza. Abril de 2026. ©Nour Alsaqqa/MSF

“A redução nas admissões no final de julho e início de agosto de 2025 coincidiu com um período de intensificação da insegurança e interrupções na distribuição de alimentos”, diz Marina Pomares, coordenadora médica para a Palestina.

“A maioria das mães solicitou apoio nutricional mesmo quando as crianças ainda não haviam sido diagnosticadas com desnutrição, refletindo a insegurança alimentar generalizada causada pelo bloqueio imposto por Israel, que efetivamente impediu a entrada de alimentos em Gaza por meses. As famílias adotaram mecanismos de adaptação, muitas vezes priorizando homens e crianças em detrimento das mães na distribuição de alimentos limitados”, explica Marina Pomares.

 

Uma crise de desnutrição provocada

Antes da guerra, não havia unidades específicas para nutrição terapêutica em Gaza. As equipes de MSF identificaram os primeiros casos de desnutrição infantil em janeiro de 2024.

Desde essa data até fevereiro de 2026, MSF admitiu 4.176 crianças menores de 15 anos — 97% delas com menos de 5 anos de idade — por desnutrição aguda em programas ambulatoriais e intensivos. Durante o mesmo período, 3.336 mulheres grávidas e lactantes foram inscritas em programas ambulatoriais.

“Meu filho mais novo morreu aos 5 meses de vida por desnutrição grave”, relata Mona, uma mulher de 23 anos que recebeu tratamento de MSF.

“Eu mesma sofri de desnutrição durante a gravidez e tive diarreia e fraqueza. Moro em uma casa parcialmente destruída. Meu marido era pescador e tinha um pequeno barco, que foi destruído pelos bombardeios israelenses. Não temos renda fixa”, lamenta Mona.

O cessar-fogo de janeiro de 2025 terminou em meados de março do mesmo ano. No final de maio de 2025, os pontos de distribuição de alimentos foram reduzidos de cerca de 400 para apenas quatro, sob a Fundação Humanitária de Gaza.

Além disso, o bloqueio aos caminhões de alimentos comerciais limitou drasticamente o acesso à comida.

“Os pontos [de distribuição de alimentos] estavam militarizados e eram perigosos, mal funcionavam ou ficavam abertos ao mesmo tempo, restringindo ainda mais o acesso à tão necessária assistência alimentar”, diz José Mas, coordenador de emergência de MSF.

Nos meses seguintes, as unidades de saúde apoiadas por MSF registraram um aumento expressivo no número de pacientes que procuravam atendimento por causa da violência ocorrida nos pontos de distribuição de alimentos e da desnutrição associada à falta de alimentos.

Alimentos de Sahar Nafez Salam, paciente de MSF grávida diagnosticada com desnutrição, na tenda onde ela vive, em um acampamento para pessoas deslocadas em Khan Younis, Gaza. Abril de 2026. ©Nour Alsaqqa/MSF

Muitas mulheres também relataram ter sofrido estresse e ansiedade extremos por conta dos riscos significativos enfrentados pelos integrantes masculinos da família que tentavam obter alimentos nos locais da Fundação Humanitária de Gaza, bem como pelos intensos bombardeios aéreos e pelos deslocamentos resultantes.

As equipes de MSF observaram um elevado índice de abortos espontâneos durante esse período, tendo o alto nível de estresse sido identificado como um fator contribuinte.

 

Níveis sem precedentes de desnutrição

Entre 16 de outubro e 30 de novembro de 2025, estimava-se que cerca de três quartos da população de Gaza enfrentassem altos níveis de insegurança alimentar aguda, de acordo com a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), que havia declarado fome em Gaza em agosto — a primeira vez na história que a situação foi registrada na região do Oriente Médio.

“As restrições táticas impostas por Israel à entrada de alimentos, a militarização dos corredores de ajuda e dos pontos de distribuição, bem como os ataques direcionados à infraestrutura essencial de Gaza, criaram um ambiente em que a fome é deliberadamente utilizada como meio de controle sobre a população”, afirma José Mas.

“Embora o atual dito cessar-fogo tenha trazido alguma estabilidade, a situação continua extremamente frágil. Nossas equipes seguem recebendo novos pacientes com desnutrição, já que a população de Gaza é forçada a suportar condições de vida deliberadamente indignas e carece de acesso a assistência, renda e recursos básicos”, completa José Mas.

MSF apela às autoridades israelenses, na qualidade de potência ocupante, – e aos Estados aliados, incluindo os EUA – para que facilitem a entrada adequada e sustentada de assistência vital para as pessoas que vivem em Gaza, a fim de restaurar níveis respeitáveis de saúde, nutrição e dignidade.

 

*A desnutrição em mulheres grávidas e lactantes e em bebês com menos de 6 meses de vida geralmente é classificada como subnutrição, em vez de desnutrição aguda moderada ou grave. Os pacientes apresentam um “estado nutricional deficiente” ou estão “em risco nutricional”.

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