MSF pede a libertação de profissionais de saúde palestinos detidos por Israel

Por Dr. Javid Abdelmoneim, Presidente Internacional de Médicos Sem Fronteiras

©Frederic Seguin/MSF

Mais de 1.700 profissionais de saúde foram mortos durante o genocídio em Gaza. Israel deteve centenas de outros sem acusação formal. Médicos, enfermeiros e paramédicos que permaneceram no território para tratar os feridos tornaram-se eles próprios vítimas desta guerra. Quando a equipe médica é morta, presa ou desaparece, não são apenas os profissionais de saúde que pagam o preço. Os pacientes perdem as pessoas nas quais confiam para mantê-los vivos. 

Quando os delegados se reunirem em Roterdã, na Holanda, para a Assembleia Geral da Associação Médica Mundial (WMA, na sigla em inglês), entre os dias 7 e 10 de outubro, um assunto estará inevitavelmente em pauta: o destino de seus colegas palestinos. Não como tema de debate, mas como um teste para verificar se o órgão mundial que rege a ética médica ainda cumpre o que promete. 

A Associação Médica Mundial já reconheceu a gravidade dessas questões por meio da adoção de uma resolução sobre a proteção dos serviços de saúde em situações de conflito. Esse foi um passo importante e uma reafirmação bem-vinda dos princípios da neutralidade médica. O desafio agora é garantir que isso seja seguido pelo compromisso de todas as associações médicas de apoiá-la explicitamente e de usar sua influência para pressionar os governos a agir. 

Se a Assembleia da Associação Médica Mundial precisasse de uma figura para representar essa causa, poderia ser o do Dr. Hussam Abu Safiya, pediatra que era diretor do Hospital Kamal Adwan, no norte de Gaza, o último hospital em funcionamento na região até que as forças israelenses invadiram o local em dezembro de 2024.

Ele está detido há mais de 18 meses sem acusação, sob a Lei de Combatentes Ilegais de Israel, que permite a detenção por tempo indeterminado. Dr. Hussam continua a sofrer em confinamento solitário prolongado, perda severa de peso e doenças pré-existentes não tratadas. Uma petição internacional por sua libertação já reuniu signatários de 41 países. 

Ao lado dele está o Dr. Mazen Al-Rantisi, médico de família de 71 anos de Ramallah, conhecido como o “médico dos pobres”, preso em junho de 2026 durante uma operação realizada antes do amanhecer em sua casa. 

Além disso, nosso colega de longa data de MSF, o Dr. Mohammed Hassan Ali Obeid, um respeitado cirurgião ortopédico palestino de 43 anos e pai de três filhos, está detido em Israel há mais de 600 dias, sem acusação formal, com base na Lei dos Combatentes Ilegais. 

Eles não estão sozinhos: mais de 80 profissionais de saúde permanecem sob custódia israelense, entre eles pelo menos 14 médicos de Gaza detidos sem acusação, além de médicos da Cisjordânia presos recentemente. 

A prática israelense de deter arbitrariamente, torturar e abusar de profissionais de saúde palestinos em Israel faz parte de seu esforço deliberado e sistemático para acabar com a capacidade dos palestinos de prestar atendimento.”

Isso fica evidente na destruição do sistema de saúde de Gaza por parte de Israel, bem como no enfraquecimento deliberado dos serviços de saúde na Cisjordânia por meio de pressões financeiras, obstruções, falta de profissionais e restrições de circulação. Essa situação é consistente com o desrespeito claro e flagrante de Israel pela vida dos palestinos. 

A Assembleia deve falar de maneira clara sobre o que está acontecendo. Precisa exigir publicamente a libertação dos médicos palestinos detidos, incluindo o Dr. Hussam Abu Safiya, o Dr. Mazen Al-Rantisi e o Dr. Mohammed Obeid.

É necessário pressionar por acesso independente às pessoas que ainda se encontram detidas. E é preciso apoiar investigações independentes sobre os ataques aos serviços de saúde em Gaza e na Cisjordânia, com a divulgação pública das conclusões, independentemente de onde elas levem. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou mais de 790 ataques a serviços de saúde, afetando 125 unidades de saúde, incluindo 34 hospitais. Aproximadamente 90% da infraestrutura de saúde de Gaza foi destruída ou danificada. Especialistas da ONU afirmaram, em agosto de 2025, que a destruição sistemática do sistema de saúde equivale a “medicídio”. 

Entre as centenas de profissionais da área médica detidos por Israel desde 7 de outubro de 2023, alguns estão presos há mais de 600 dias em condições desumanas, incluindo, em certos casos documentados, tratamentos consistentes com a prática de tortura.”

E isso não se limita apenas a Gaza. Na Cisjordânia, onde nenhuma emergência de guerra serve de pretexto, a OMS documentou 98 ataques a serviços de saúde somente nos primeiros sete meses de 2026, com 87 mortes e mais de 1.600 feridos.

Ambulâncias são paradas em postos de controle e suas equipes detidas; profissionais de saúde que tentam chegar a pessoas feridas em ataques de colonos têm sido impedidos. Pacientes em diálise e oncológicos precisam ficar em casa porque os postos de controle tornam impossível o trajeto para o tratamento. Profissionais de saúde foram baleados, detidos e mortos durante incursões. 

Esta é uma oportunidade de exercer pressão coletiva sobre outras associações médicas, autoridades políticas e quaisquer órgãos relevantes para que tomem medidas.

A Associação Médica Mundial deve somar-se aos apelos para que sejam conduzidas investigações rápidas, transparentes e imparciais sobre os ataques aos serviços de saúde em Gaza e na Cisjordânia, ao mesmo tempo em que reitera seu apelo pela libertação de todos os profissionais de saúde detidos arbitrariamente.   

Profissionais de saúde não são alvo. Ou o jaleco branco merece proteção em todos os lugares, ou não merece proteção em lugar algum. Não basta que simplesmente afirmemos esses princípios, mas temos que defendê-los quando mais importam.  

O que se apresenta diante da Assembleia de Roterdã é um dever. Um dever que reafirma, em voz alta, de forma estrutural e universal, a proposição fundadora da Associação Médica Mundial: a filiação acarreta uma responsabilidade ética, que não varia de acordo com a geografia ou com alianças. Um dever que se aplica a todos os membros. 

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