MSF e organizações da sociedade civil debatem como ampliar acesso a medicamento revolucionário de prevenção ao HIV

Lenacapavir tem potencial de deter a epidemia, mas suprimento é totalmente controlado pela fabricante Gilead; evento ocorreu durante a Conferência Internacional sobre Aids

Painelistas durante o evento de MSF-Brasil “Onde está o meu lenacapavir? Como desbloquear o acesso e acabar com a epidemia de HIV”, realizado na Conferência Internacional sobre AIDS 2026, no Brasil. ©Natasha Bretas/MSF
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As iniciativas adotadas até agora para disponibilizar um novo medicamento de longa duração que previne a infecção pelo HIV são totalmente insuficientes para atender as necessidades das pessoas que mais precisam dele. 

As dificuldades de acesso ao lenacapavir foram tema de um debate promovido por Médicos Sem Fronteiras (MSF) nesta quinta-feira, 30 de julho, durante a Conferência Internacional sobre Aids, que acontece no Rio de Janeiro.  

“Estamos falando de uma tecnologia que representa um dos avanços mais importantes na prevenção do HIV das últimas décadas”, disse a diretora-executiva de MSF-Brasil, Renata Reis, que ressaltou o impacto potencialmente transformador do medicamento. 

Para pessoas que enfrentam estigma, criminalização, dificuldades de mobilidade ou problemas com a adesão diária ao tratamento, isso pode ser transformador.

Renata Reis, diretora-executiva de MSF-Brasil

O painel “Onde está o meu lenacapavir? Como desbloquear o acesso e acabar com a epidemia de HIV”, reuniu ativistas e autoridades da área de saúde para expor a grande dificuldade de acesso à essa inovação e debater soluções. lenacapavir é uma medicação injetável que previne com muita eficácia a infecção pelo HIV. Diferentemente de versões de PrEP (profilaxia pré-exposição) que têm de ser tomadas todos os dias, uma injeção protege a pessoa por seis meses. O problema é que o medicamento tem sido comercializado em países de alta renda por até US$ 28 mil por ano (duas doses), sendo que é possível produzir versões genéricas por cerca de US$ 40. 

A farmacêutica Gilead, detentora da patente, fechou acordos para licenciamento e comercialização a preços mais baixos em países de renda baixa e disponibilizou um número muito limitado de doses para serem distribuídas pelo Fundo Global. Países de renda média, como Brasil, Argentina e Colômbia, foram excluídos dos acordos firmados pela Gilead, o que faz com que o medicamento não esteja disponível. 

 

Acesso restrito dificulta a ampliação da prevenção

O infectologista Antonio Flores, assessor sênior para HIV na Unidade Médica de MSF na África do Sul, apresentou resultados que mostram que a adesão dos pacientes à profilaxia mais do que dobra quando é oferecida a opção injetável em substituição à pílula diária. “Já vimos pessoas jogarem frascos de medicamentos em público, para esconder que estavam se prevenindo. A injeção tira o peso do estigma”, explicou ele. 

Flores explicou que a profilaxia de longa duração já está sendo usada por MSF com bons resultados no Malawi, Moçambique e Eswatini e deve ser implantada em breve no Zimbabwe, Quênia e Honduras. 

O principal obstáculo para ampliar o uso é a pouca disponibilidade de doses: a Gilead se recusa a vender o medicamento para MSF e afirma que a organização deve solicitá-la ao Fundo Global. Até o momento, um volume insuficiente de 2 milhões de doses foi prometido pela empresa para disponibilização por esta via. Um ponto importante é que essas doses, além de limitadas, não podem ser distribuídas a países de renda média, como o Brasil. 

“Dois anos depois do anúncio do medicamento, as coisas não mudaram nada nos países da América Latina”, lamentou Veriano Terto, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, citando a exclusão do acesso aos países da região.  

Só é possível mudar se tivermos realmente governos que olhem para sua sociedade com olhos humanitários, afirmou Eloan Pinheiro, ex-diretora de Farmanguinhos que nos anos 1990 teve papel essencial para que a entidade produzisse antiretrovirais genéricos. Parte destes medicamentos foi utilizada no tratamento de pacientes de MSF na África do Sul, ajudando a salvar centenas de vidas. Ela defendeu que os governos voltem a adotar medidas como o licenciamento compulsório de medicamentos (quebra de patentes), priorizando o direito da população ao acesso à saúde.   

Painelistas durante o evento de MSF-Brasil “Onde está o meu lenacapavir? Como desbloquear o acesso e acabar com a epidemia de HIV”, realizado na Conferência Internacional sobre AIDS 2026, no Brasil. ©Natasha Bretas/MSF

Tom Elmann, diretor da Unidade Médica de MSF África do Sul, finalizou o debate ressaltando que ciência e inovação não significam nada sem acesso”Ele lembrou que até o momento menos de 60 mil pessoas receberam o lenacapavir e mais de 20 milhões necessitam dele” e citou a necessidade de coordenação entre autoridades de países da América Latina e de ativistas da região para reforçar a pressão sobre a fabricante do medicamento para ampliação do acesso. 

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