Rohingyas em Bangladesh: nove anos após o êxodo, necessidades de saúde permanecem crescentes

Crianças estão chegando às unidades médicas mais tarde e em estado crítico; cortes no financiamento internacional reduziram a capacidade de atendimento

Equipe de MSF trabalha para estabilizar o quadro de saúde de Aiyan Arfan, de 10 dias de vida, no hospital apoiado pela organização, em Bangladesh. ©Nazmul Islam/MSF
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Nove anos após um êxodo sem precedentes da população Rohingya de Mianmar para Bangladesh, uma crise longe das manchetes está causando graves consequências para a geração mais jovem. Nos extensos e superlotados acampamentos para pessoas refugiadas de Cox’s Bazar, em Bangladesh, as crianças estão chegando às unidades de saúde mais tarde, em estado mais grave e com necessidades complexas de saúde física e psicológica.

No Hospital de Kutupalong — a maior unidade de saúde de Médicos Sem Fronteiras (MSF) e principal centro de referência para as pessoas nos acampamentos —, as equipes médicas estão testemunhando o impacto, amplamente ignorado, dessa crise. O que antes era um hospital que tratava de doenças rotineiras e sazonais transformou-se em uma emergência que atende crianças que chegam em condições críticas.

À medida que os postos de saúde reduzem suas atividades devido aos cortes no financiamento internacional, unidades de referência de cuidados especializados, como o Hospital de Kutupalong, são obrigadas a absorver necessidades muito além de sua capacidade de atendimento.

 

MSF atende crianças em estado crítico em Cox’s Bazar

Na ala pediátrica do Hospital de Kutupalong, Yasmida, de 25 anos de idade, está sentada em uma cama de hospital, segurando sua filha de um ano e meio, Halima Sadia. O corpo de Halima é frágil, sofre com a desnutrição grave, febre e infecções persistentes que o deixaram fraco demais para se sentar ou ficar de pé. Yasmida foi forçada a fugir de Mianmar em 2017, sobrevivendo a uma perigosa jornada de 15 dias atravessando montanhas e rios para chegar a Bangladesh.

“Minha bebê está muito doente há muitos dias. Desde o nascimento dela, já fomos a vários hospitais e unidades de saúde dentro dos acampamentos e ela foi internada no hospital de MSF quatro vezes”, conta Yasmida.

O Dr. Md. Nadim Shahariyar, vice-diretor do Hospital Kutupalong, os casos de Yasmida e Halima não são isolados. “Nos últimos anos, temos visto mudanças significativas nas internações pediátricas em nosso hospital.”

Os pacientes estão chegando em estado mais crítico e com várias doenças ao mesmo tempo. Isso torna o manejo clínico muito mais desafiador.”

— Nadim Shahariyar, vice-diretor do Hospital Kutupalong, apoiado por MSF

Os cortes drásticos na ajuda humanitária têm forçado as famílias a fazerem escolhas difíceis no dia a dia, o que atrasa diretamente o atendimento médico. Quando os pais são forçados a priorizar a sobrevivência, eles adiam a procura de ajuda médica para uma criança doente até que se torne uma emergência.

 

Saúde mental de adolescentes nos acampamentos para refugiados

Além das doenças físicas, uma emergência de saúde mental está causando um impacto devastador sobre os adolescentes. Estresse crônico, pobreza extrema, falta de oportunidades educacionais e exposição a conflitos familiares provocam um aumento acentuado no sofrimento emocional.

Pacientes de MSF durante uma sessão de apoio psicossocial em grupo. O espaço possibilita que mulheres compartilhem experiências e participem de atividades destinadas a promover a recuperação e o bem-estar emocional. ©Nazmul Islam/MSF

Beauty, de 13 anos, e Jasmine, de 14, chegaram ao limite vivendo em abrigos superlotados, o que levou ambas ao atendimento psiquiátrico e aconselhamento psicológico no Shantikhana de MSF, uma sala de aconselhamento em saúde mental e espaço seguro dentro das instalações.

“Com a alimentação que recebemos, conseguimos nos virar de alguma forma comendo apenas arroz e lentilhas. Não podemos comer nada além disso”, relembra Beauty. “Depois de uma situação delicada, vim para o Shantikhana. Um profissional me ofereceu aconselhamento.”

“A vida no acampamento é difícil para pessoas da nossa idade”, explica Jasmine, compartilhando como a ausência de serviços essenciais e perspectivas de uma vida melhor agravam a tensão em casa. Muitas pessoas estão amontoadas em pequenos abrigos, e as famílias quase não têm renda, o que gera muita angústia. No geral, a vida aqui é muito difícil de suportar. Se o ambiente no campo fosse melhor, talvez nos sentíssemos melhor.”

 

Além da resposta a emergências: um apelo urgente por soluções duradouras

Os casos atendidos no Hospital de Kutupalong monstram que o aumento das doenças pediátricas e o sofrimento relacionado à saúde mental não são questões médicas isoladas, mas resultado de uma crise  mais ampla de saúde pública.

A redução do financiamento nos campos comprometeu a atenção primária à saúde, enfraqueceu programas de nutrição e agravou as condições básicas de vida, pressionando unidades de referência secundária, como o Hospital de Kutupalong, a absorver uma demanda crescente e cada vez mais complexa, muito além de sua capacidade originalmente prevista.

 

Ações médicas de emergência não podem substituir a responsabilidade política — os atores humanitários e da saúde, juntamente com as outras partes interessadas, devem manter uma resposta humanitária adequada e coordenada em Cox’s Bazar.

 

 

 

 

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