Ebola na RDC: surto já é o maior e mais mortal da história do país

Com mais de 5 mil casos confirmados e 2.400 mortes, MSF alerta que ação para conter a epidemia não acompanha a rápida disseminação da doença

Equipe de descontaminação visita a casa de um paciente cujo teste deu positivo e que está sendo tratado no Centro de Tratamento de Ebola de Elikya. República Democrática do Congo, agosto de 2026. ©Julien Dewarichet/MSF
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À medida que se aproximam os 100 dias desde que o surto da doença do Ebola foi declarado na República Democrática do Congo (RDC), Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta que as comunidades não estão recebendo o suporte adequado para conter a doença.  

Este surto tornou-se o maior e mais mortal da história do país e continua a se espalhar em ritmo alarmante entre comunidades que já enfrentam conflitos, violência, deslocamento forçado, fome e outras emergências de saúde. 

É urgente reforçar o treinamento de profissionais de saúde e líderes comunitários para a detecção de casos, o encaminhamento de pacientes e a adoção de medidas de prevenção e controle de infecções nas comunidades afetadas pelo surto. 

Na última semana, mortes causadas pela doença do Ebola foram registradas em uma taxa de aproximadamente uma a cada meia hora.

Desde o início do surto até 16 de agosto, as autoridades nacionais haviam relatado mais de 5.000 casos confirmados e mais de 2.400 mortes. 

Esta epidemia continua se espalhando, avançando mais rápido do que a resposta consegue acompanhar. 

Javid Abdelmoneim, Presidente Internacional de MSF 

“Os centros de tratamento continuam sendo essenciais para salvar vidas, mas esta resposta precisa de mais do que leitos adicionais. Ela exige melhor detecção, isolamento seguro de pessoas doentes e de seus contatos, além de apoio aos profissionais de saúde“, explica Abdelmoneim. 

“As pessoas que buscam atendimento em unidades de saúde já existentes também precisam ser protegidas da infecção. Acima de tudo, a resposta deve ser construída com as comunidades, e não em torno delas.” 

 

Como promover engajamento nas comunidades 

No acampamento de pessoas deslocadas de Rho, próximo a Drodro, em Ituri, líderes comunitários têm trabalhado com MSF para incentivar pessoas com sintomas a procurar testagem, isolamento e tratamento precocemente.  

Eles também promovem medidas de prevenção e controle de infecções para reduzir o risco de transmissão comunitária. No acampamento superlotado, que abriga quase 50 mil pessoas, essa colaboração tem ajudado a limitar a propagação da doença do Ebola e a reduzir a mortalidade. 


Sessão de conscientização sobre a doença do Ebola com uma organização de mulheres em Matalata. República Democrática do Congo, julho de 2026. ©Julien Dewarichet/MSF

“Conhecemos nossas comunidades e sabemos como alcançar nossa população”, diz Ezrome Kiza Lumani, líder comunitário que vive no acampamento. “Quando o Ebola chegou, não esperamos. Conversamos com as famílias, ouvimos seus medos e incentivamos pessoas com sintomas a buscar atendimento. Temos um papel crucial a desempenhar para interromper este surto.” 

 

Casos se espalham sem serem detectados 

Desde que o surto foi oficialmente declarado, mais de 60% das mortes pela doença do Ebola na RDC ocorreram fora dos centros de tratamento da doença, e muitas delas longe dessas unidades.  

Isso significa que muitas pessoas estão morrendo em casa ou em suas comunidades sem receber atendimento, e o vírus continua se espalhando antes que os casos sejam detectados.  

De forma preocupante, o número de casos está aumentando rapidamente para além do epicentro em Ituri, com a província de Kivu do Norte registrando níveis particularmente elevados de mortalidade e desconfiança em relação à resposta ao surto. 

“Com casos surgindo em novas áreas com pouca ou nenhuma experiência anterior no manejo da doença do Ebola, há necessidade urgente de profissionais de saúde treinados em Ebola não apenas dentro dos centros de tratamento, mas também diretamente nas comunidades afetadas”, afirma Trish Newport, coordenadora de emergências de MSF na província de Ituri. 

 

Mais de 1.400 profissionais de MSF trabalham para conter o surto 

Atualmente, MSF atua nas províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Tshopo e Haut-Uélé.  

As equipes operam seis centros de tratamento de Ebola, além de unidades de isolamento nas áreas afetadas, com mais de 430 leitos disponíveis – o equivalente a um terço de todos os leitos da resposta ao surto.  

Mais de 1.400 profissionais de MSF estão apoiando a resposta. Desde o início do surto, as equipes admitiram mais de 1.900 pacientes, dos quais 720 tiveram diagnóstico confirmado da doença do Ebola. 

Processamento das amostras coletadas no Centro de Tratamento do Ebola de Elykia, para dar início aos exames para a doença do Ebola. República Democrática do Congo, julho de 2026. ©Julien Dewarichet/MSF

Em Beni, na província de Kivu do Norte, trabalhamos para aproximar nossa resposta das comunidades.  

Ao apoiar unidades de saúde já existentes que também oferecem cuidados médicos gerais, igualmente essenciais para salvar vidas, é possível iniciar rapidamente o tratamento sistemático e dos casos sintomáticos.  

 

É necessário treinar mais profissionais

Em toda a resposta ao surto na RDC, é preciso fazer mais para garantir que as pessoas possam receber os cuidados de que necessitam mais perto de suas casas. 

“Profissionais de saúde e líderes comunitários precisam de treinamento para ajudar a detectar casos precocemente, encaminhar pessoas de forma segura, reforçar medidas de prevenção e controle de infecções e proteger a si mesmos e aos outros da infecção”, afirma Newport.  

“A Organização Mundial da Saúde (OMS), outras agências das Nações Unidas, organizações humanitárias, incluindo MSF, e o Ministério da Saúde da RDC precisam ampliar urgentemente esse treinamento e suporte.” 

Líderes comunitários como Emery Guba Mateso, também do acampamento de pessoas deslocadas de Rho, estão compartilhando suas experiências para incentivar as pessoas a buscar atendimento.  

Ele perdeu o filho para a doença e posteriormente sobreviveu à própria infecção. 

“Como uma pessoa que se recuperou da doença do Ebola, a mensagem que eu gostaria de compartilhar com a comunidade é: assim que surgirem os primeiros sintomas, é importante procurar atendimento médico imediatamente, porque o acesso precoce ao tratamento adequado aumenta as chances de recuperação”, afirma Guba Mateso. 

 

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