Ebola: médica de MSF ressalta importância da adesão da comunidade no combate à doença

Profissional vê cenário mais complexo do que na epidemia de 2014 e reforça necessidade de atenção a outras doenças para não gerar crise dentro da crise

Rachel Soeiro, coordenadora de acesso a produtos de saúde nas Américas de MSF, durante miniconferência “Ebola: MSF e os desafios do enfrentamento da epidemia no campo” no Medtrop 2026. ©Natasha Bretas/MSF
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Diante de uma epidemia da doença do Ebola que se espalha de maneira preocupante na República Democrática do Congo (RDC), o caminho para deter seu avanço passa necessariamente pelo engajamento das comunidades atingidas. Elas precisam estar envolvidas e participar ativamente das medidas de prevenção e combate à doença.

“Se não temos a comunidade conosco, é impossível ter uma resposta adequada”, explicou Rachel Soeiro, profissional de Médicos Sem Fronteiras (MSF) que trabalhou na Guiné durante a primeira grande epidemia da doença, ocorrida no oeste africano entre 2014 e 2016.

Rachel ministrou, nesta terça-feira, 18 de agosto, a miniconferência “Ebola: MSF e os desafios do enfrentamento da epidemia no campo” como parte da programação do Medtrop, o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, que acontece em Brasília.

A epidemia de Ebola foi declarada em maio deste ano na RDC. De acordo com as informações oficiais mais recentes, quase 5 mil pessoas já foram contaminadas, com 2.184 mortes. É a maior epidemia da doença já registrada na RDC e avança de maneira mais rápida do que surtos anteriores.

 

Em meio à epidemia, outras necessidades permanecem

A médica chamou a atenção para a necessidade de que mais recursos sejam destinados ao combate ao Ebola, mas enfatizou que a manutenção de um bom relacionamento com a comunidade passa, necessariamente, pela manutenção dos serviços de saúde para outras doenças.

“As outras necessidades clínicas não desaparecem”, afirmou. “Partos continuam ocorrendo, vacinas precisam ser ministradas, ao mesmo tempo em que casos de tuberculose e HIV seguem necessitando de atenção”, disse, mencionando também a confusão comum entre os sintomas da malária, endêmica na RDC, e do Ebola. “Se a comunidade não entender que pode ser Ebola, eles não vão procurar atendimento, e a doença pode se espalhar.”

A médica também ressaltou a necessidade de que as equipes de saúde sejam treinadas e recebam equipamentos de proteção para poder continuar atendendo os pacientes de maneira segura.

Ela explicou que o cenário atual é tão ou até mais complexo do que o vivido em 2014. Assim como naquela época, não há vacinas ou tratamentos para o vírus. Os estudos feitos até agora indicam que imunizantes e terapias desenvolvidos após aquela epidemia podem não funcionar com o vírus Bundibugyo, causador do surto declarado em maio. Além disso, os estoques de vacinas e tratamentos existentes estão em grande medida sob controle do governo dos EUA.

Adicionalmente, a região onde ocorre a epidemia é palco de conflitos armados que deslocaram milhares de pessoas. Isso dificulta o acesso de profissionais de saúde a pacientes e de pacientes a instalações de saúde.

Também não existem testes rápidos para detectar o vírus atual, o que leva a um cenário em que, de maneira geral, os atrasos no diagnóstico, no isolamento de pacientes e na implantação de ações de vigilância ampliam a transmissão.

Rachel acredita que a ausência destas ferramentas básicas é consequência dos investimentos escassos que foram feitos em pesquisas depois de passada a grande epidemia da doença. “A gente precisa ter estoques prontos antes que ocorram os casos da doença. Por isso, as pesquisas precisam continuar, para que quando a epidemia aconteça, tudo já esteja disponível”, afirmou.

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