Para salvar vidas e evitar amputações durante os conflitos, é preciso investir no enfrentamento da resistência aos antimicrobianos.

Entenda por que a coleta de dados é uma ferramenta indispensável para respostas médicas e humanitárias

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Farmácia apoiada por MSF no centro de saúde de Daraya, em Damasco, na Síria. ©Zahra Shoukat/MSF

Anna Farra, coordenadora da Unidade Médica para o Oriente Médio e assessora em resistência aos antimicrobianos (até junho de 2026) 

Com Joanna Keenan, chefe da Unidade Editorial Internacional 

 

Em 2025, Médicos Sem Fronteiras (MSF) atuou em 72 países, e mais de 40% de seus projetos foram desenvolvidos em áreas afetadas por conflitos armados. Responder às necessidades das populações atingidas pela guerra faz parte da essência do nosso trabalho desde que começamos a atender feridos durante a Guerra Civil Libanesa, há 50 anos. Mais recentemente, nossas equipes aprimoraram a experiência e os conhecimentos acumulados ao longo de décadas de atuação em conflitos no Iraque, no Sudão, no Iêmen, no Afeganistão e na Palestina. 

Meus colegas trataram alguns dos ferimentos mais devastadores registrados nesses países, entre eles lesões provocadas por estilhaços alojados nos membros após explosões e fraturas graves causadas por disparos de armas de fogo. Seguimos atuando em todos esses contextos. 

Ao mesmo tempo em que tratamos as consequências físicas e psicológicas dos conflitos, enfrentamos outra ameaça à saúde, menos visível e particularmente perigosa, que pode surgir após esse tipo de ferimento: as infecções resistentes aos antimicrobianos. 

A resistência aos antimicrobianos (RAM) ocorre quando bactérias, vírus, fungos ou parasitas sofrem alterações e deixam de responder adequadamente aos medicamentos usados para tratar infecções, como os antibióticos. Com isso, as infecções tornam-se mais difíceis de curar, persistem por mais tempo e têm maior probabilidade de se disseminar, provocar doenças graves, levar à amputação de membros ou até mesmo causar a morte. 

Entre os principais fatores que favorecem o surgimento de infecções resistentes aos antimicrobianos estão a falta de acesso à água potável e ao saneamento adequado, a precariedade dos serviços de saúde e a ausência de medidas eficazes de prevenção e controle de infecções. Também contribuem para o problema a falta de infraestrutura para diagnóstico, de medicamentos e de vacinas, além do uso excessivo ou inadequado de antibióticos. Vimos isso em muitos dos locais onde atuamos. Um exemplo é o Iraque, no sudoeste da Ásia1, onde os antibióticos frequentemente podem ser adquiridos sem receita médica, em vez de serem disponibilizados apenas mediante prescrição. Em Gaza, na Palestina, a análise de amostras coletadas seis meses antes e seis meses depois dos protestos da Grande Marcha do Retorno, realizados em 2018 e 2019, revelou um aumento impressionante de 300% na resistência aos antibióticos em culturas de amostras ósseas e de tecidos. 2 

Os países de baixa e média renda enfrentam uma carga desproporcionalmente elevada de resistência aos antimicrobianos (RAM), e os conflitos intensificam os fatores que contribuem para esse problema3. Isso acontece porque, durante os conflitos, as pessoas podem ter o sistema imunológico enfraquecido em decorrência do estresse e da desnutrição, tornando-se mais vulneráveis às infecções. A superlotação em campos que abrigam refugiados e pessoas deslocadas também favorece a disseminação de bactérias resistentes. Além disso, unidades de saúde são destruídas ou danificadas e, em períodos de conflito, frequentemente enfrentam a falta de profissionais capacitados, de ferramentas de diagnóstico e de medicamentos, incluindo antibióticos. 

Em 2025, um hospital na Ucrânia precisou usar, durante uma cirurgia, um antibiótico de amplo espectro em vez do medicamento recomendado, porque era o que havia sido doado e estava disponível gratuitamente. 

Com os sistemas de saúde enfraquecidos pela guerra, campanhas de vacinação deixam de ser realizadas, e a vigilância epidemiológica é frequentemente interrompida. Isso torna mais difícil prevenir e identificar possíveis surtos, acompanhar os padrões de resistência e tomar decisões adequadas sobre o tratamento. 

Como, então, MSF responde à resistência aos antimicrobianos (RAM)? E como essa resposta deve ser conduzida, especialmente em contextos de conflito? 

Nosso trabalho de enfrentamento da resistência aos antimicrobianos (RAM) está organizado em torno de três pilares complementares. O primeiro, a prevenção e o controle de infecções, tem como objetivo reduzir ao mínimo a disseminação de bactérias. O segundo, a gestão responsável do uso de antimicrobianos, busca garantir que o medicamento adequado seja utilizado na dose correta e pelo período necessário para combater a infecção. O terceiro pilar, o diagnóstico e a vigilância, envolve alguns dos maiores desafios no enfrentamento da RAM. 

Nos últimos anos, ferramentas como o MiniLab e o Antibiogo contribuíram para os avanços em diagnóstico e vigilância. O MiniLab é um laboratório portátil e simplificado de bacteriologia, adaptado para contextos com poucos recursos. Já o Antibiogo é uma ferramenta de diagnóstico que permite que técnicos de laboratório sem formação especializada para a interpretação de resultados realizem e interpretem antibiogramas — testes que determinam a sensibilidade das bactérias a diferentes antibióticos. 

Reforçamos essas atividades fundamentais com ações de promoção da saúde, vacinação, melhorias no acesso à água e ao saneamento, defesa de políticas públicas e pesquisa operacional. 

No entanto, muitas vezes é difícil implementar plenamente todas essas medidas em contextos de conflito ativo. Grande parte do nosso trabalho nessa área ocorre no período pós-conflito, quando podemos apoiar a reconstrução de laboratórios, doar insumos a farmácias e fortalecer a gestão responsável do uso de antimicrobianos. 

Para que nossa atuação seja mais eficaz, no entanto, essas atividades devem ser implementadas antes do início de um conflito. Isso significa investir no enfrentamento da resistência aos antimicrobianos (RAM) em contextos frágeis, ampliando o acesso aos cuidados de saúde, à água, ao saneamento e à vacinação — mas não apenas isso. Também precisamos adaptar as medidas de prevenção e controle de infecções e a gestão responsável do uso de antimicrobianos às realidades locais, além de fortalecer a capacidade de microbiologia básica para compreender quais bactérias resistentes estão presentes. Isso nos permitiria desenvolver diretrizes práticas de tratamento e estar mais bem preparados caso um conflito ecloda. 

Em alguns locais, como Gaza, estávamos mais preparados para atender pacientes com traumas complexos, pois já contávamos com médicos capacitados e com acesso a dados microbiológicos. Em algumas regiões do Sudão, porém, ainda não havíamos desenvolvido esse mesmo nível de conhecimento especializado e compreensão das realidades locais. Em muitos dos países onde atuamos, como a República Democrática do Congo (RDC), são necessários mais investimentos. Alguns países ainda não elaboraram planos nacionais para enfrentar a resistência aos antimicrobianos (RAM), enquanto outros possuem planos, mas não dispõem dos recursos necessários para colocá-los em prática. 

Em todos os nossos projetos em locais sujeitos a conflitos e instabilidade, planejamos fortalecer nossa resposta à resistência aos antimicrobianos (RAM). Estamos desenvolvendo diretrizes simplificadas, adaptando ferramentas para situações de conflito e fortalecendo a capacidade de microbiologia em contextos frágeis. Esse investimento mais amplo na preparação para enfrentar a RAM é essencial para melhorar os desfechos clínicos de pacientes com traumas potencialmente fatais. 

A RAM é um problema global que não conhece fronteiras. Sua prevenção, portanto, exige uma resposta em escala global, e o investimento no enfrentamento da RAM em contextos frágeis é parte essencial desse esforço. 

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