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"Aqui, as crianças morrem como se fossem guerras"

21/12/2012
Nas florestas da República Centro-Africana, crianças com menos de cinco anos estão morrendo em quantidade normalmente observada em guerras ou desastres naturais. A enfermeira de MSF Margarete Sepùlveda está fazendo sua parte para mudar esse cenário.

 Por Nils Mork

Quando encontro Margarete pela primeira vez, ela está retornando da floresta, carregando sua maleta médica. Ela diz: ”O útero daquela mulher estava para fora. Ela estava morrendo. Eu o coloquei para dentro. Ela vai precisar de mais tratamento, mas podemos ter salvo pelo menos uma vida hoje.” Ela sorri. Simples.

“De cinco em cinco”, Margarete fala ao rádio do carro. “Bon. Carro 25. Direção Bravo Julie.” O francês dela é prático, não poético, conforme ela vai reportando nossas movimentações. É assim que eles chamam essa viagem de carro um tanto louca: uma “movimentação”.

Com projetos no Congo, no Haiti e na Costa do Marfim na bagagem, Margarete incorporou a combinação da mentalidade pragmática da África com o profissionalismo alemão, que garantem sua considerável força à frente da “Equipe Margarete” em suas movimentações através das florestas da África central.

Dez horas na estrada, por mais de cem vezes
Passamos por quatro homens com armas de fogo, depois por um caminhão que levava uma quantidade indecorosa de madeira para o Chade atolado em uma vala. Seguimos adiante, cruzando o mercado da estrada, barracas de comida, passamos algumas galinhas confusas e era isso; atravessamos a cidade de Boguila. O caminho de terra é esburacado, o que não é uma surpresa, já que a República Centro-Africana tem apenas alguns poucos quilômetros de ruas pavimentadas. Poucas pessoas conhecem essa realidade melhor que Margarete.

“Eu tenho feito essa viagem quatro vezes por semana há três meses”, ela diz. “Devo ter feito isso pelo menos 100 vezes. Volto cansada após a jornada de, talvez, dez horas na estrada, mas gosto disso. Gosto de sair ao alcance das pessoas que vivem aqui. E todos os dias, há algo de novo neste trabalho. Olhe ali, é uma piscina pública!”

A “piscina” é um pequeno rio, que é também banheiro, lavanderia e cafeteria local. A Land Cruiser passa pelo rio com facilidade e rejeitamos os convites feitos pelos banhistas para nos juntarmos a eles.

Acabamos de sair do hospital de Boguila, no norte da República Centro-Africana. Estamos viajando rumo aos vilarejos para avaliar pacientes e vaciná-los contra pólio, difteria, tétano, coqueluche, sarampo e febre amarela.
Muitas crianças na República Centro-Africana não têm a sorte de terem acesso a essas vacinas e, por isso, fica a cargo de MSF, e de enfermeiros como Margerete, a função de dar conta do recado.

“Acompanhamento de primeira”
A floresta nos leva ao vilarejo de Boyanga. Encostamos próximo a um grupo de pessoas. Margarete cumprimenta seus colegas do serviço de saúde do governo e é recebida por cerca de 50 pessoas que já se enfileiram para serem atendidas pela equipe de MSF.

Margarete logo reconhece uma das mulheres na fila de espera. Elas conversam em francês e, por vezes, em Sango, o dialeto local.

“Essa é Glória e sua filha Nina”, ela me diz. “Nina estava desnutrida quando a encontrei há cerca de um mês. Ela também tinha malária. Estava muito doente.”

“Malária e desnutrição geralmente caminham juntas”, continua Margarete. “Isso aumenta o risco de morte. Mas, se a criança está bem nutrida, ela pode viver alguns dias com a malária que nós ainda conseguimos salvá-la. Então, coloquei a Nina no programa nutricional e dei Plumpy´Nut a ela, três vezes ao dia.”

Plumpy´Nut é uma pasta a base de amendoim enriquecida com vitaminas e minerais que permite a MSF tratar a desnutrição severa simples sem internar os pacientes no hospital, já que a pasta pode ser administrada em casa. É uma bomba calórica que salva vidas.

“Agora, duas semanas depois, vejo que ela está melhorando muito. Ela ganhou peso – foi de 6,7 kg para 7,2 kg em apenas um mês. Ela superou a crise e já não tem mais malária. Vou mantê-la por mais duas semanas no programa, e ela ficará bem. Poder acompanhar um paciente desta forma é muito bom”, conclui Margarete, à medida que nos aprontamos para seguir viagem.

Uma catástrofe
Algum tempo depois, encostamos em Boaya. A equipe começa a preparar a área para uma sessão de vacinação. Em 15 minutos, o centro do vilarejo foi transformado em uma sala para exame com três postos para vacinação, com gerenciamento de fila e coleta de resíduos. E quando a clínica abre, a sensação é como a de se estar em uma sala de cinema barulhenta e cheia, mas divertida.

Não muito tempo depois, Margarete recebe uma ligação em seu rádio. Mal dá para escutar o som em meio às manifestações das pequenas crianças, que desaprovam as agulhas das vacinas.

“Uma catástrofe”, ela me diz. “Uma jovem foi levada ao posto de saúde; ela está inconsciente, possivelmente com malária cerebral.”

Margarete sai com pressa. Eu a acompanho.

A garota foi levada pelo pai na garupa de um ciclomotor. Ele levou três horas para chegar ali. No caminho, ela perdeu a consciência. Ela está convulsionando. O nome dela é Gisela Youxienne; ela tem três anos.
“Parece malária, associada à desnutrição. Convulsões... Pode também ser tétano.”

Margarete fala enquanto examina a garota e, em seguida, para de falar para se concentrar. Eu a deixo fazer seu trabalho.

Um coração esquecido
“Ela está estável, mas temos de levá-la ao hospital”, diz Margarete, saindo do posto de saúde algum tempo depois. “Não estou certa de que ela vai sobreviver. Se tivesse vindo dois dias atrás, talvez...”

Margarete parece preocupada. “Crianças estão morrendo o tempo todo. Elas morrem aqui como morrem nas guerras ou em meio a outras crises. Mas ninguém parece se importar. Não entendo, realmente não entendo. Estamos no coração da África. Mas é um coração esquecido.”

Seguimos viagem. A vacinação foi boa. Mais de 100 crianças terão melhores chances de viverem além dos cinco anos de idade. E trouxemos Gisela conosco, para levá-la para a emergência, onde terá melhores chances de sobreviver. Ainda assim, é apenas uma possibilidade.

Viajamos em silêncio. Fico imaginando como Margarete consegue manter seu alto astral fazendo isso todos os dias. Quando encostamos no hospital de Boguila, ela responde à minha dúvida sem nem ter sido questionada:
“A melhor parte do meu trabalho é atuar próximo das pessoas; ser realmente uma enfermeira.”

Simples.

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