A tripla ameaça de mudanças climáticas, conflitos e emergências de saúde: uma combinação mortal para os mais vulneráveis

Às vésperas da COP27, Médicos Sem Fronteiras e Comitê Internacional da Cruz Vermelha alertam para a necessidade de ação urgente em regiões já fragilizadas.

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Foto: Peter Canton

As mudanças climáticas não são uma ameaça distante. Esta crise está afetando drasticamente pessoas vulneráveis em todo o mundo. A mudança do clima está provocando consequências devastadoras, especialmente para as pessoas que vivem em situações de conflito e para aqueles que não têm acesso aos cuidados básicos de saúde.

Médicos Sem Fronteiras (MSF), o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e o Movimento da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho estão trabalhando em estreita colaboração com comunidades em países onde a convergência das mudanças climáticas, conflitos armados e emergências de saúde é uma realidade sombria.

Dos 25 países mais vulneráveis às mudanças climáticas e menos preparados para se adaptar, a maioria também está passando por conflitos armados. Em muitos desses locais, as pessoas não têm acesso aos cuidados básicos de saúde. Quando choques climáticos ocorrem em países com poucos alimentos, água e recursos econômicos, as condições de vida, a saúde e os meios de subsistência das pessoas são ameaçados.

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A Somália tem sofrido um ciclo irregular de secas e inundações nos últimos anos, agravando uma situação humanitária já terrível, ainda mais complicada por três décadas de conflito armado. As pessoas têm tempo limitado para se adaptar porque os choques climáticos são graves e muito frequentes.

As organizações humanitárias também têm respondido às inundações no Sudão do Sul e em todo o Sahel; ciclones devastadores em Madagascar e Moçambique; e à seca severa no Chifre da África. A crise climática agrava as crises de saúde e humanitária.

Foto: Sean Sutton

“Atualmente, as necessidades já estão superando a capacidade de resposta. O mundo não pode deixar as pessoas que sofrem as consequências mais trágicas sem apoio.”
– Stephen Cornish, diretor-geral de MSF na Suíça.

Como agentes humanitários, estamos preocupados com a atual realidade e as projeções para o futuro. Testemunhamos secas, inundações, pragas de insetos e mudanças nos padrões de chuva que podem comprometer a produção de alimentos e os meios de sobrevivência das pessoas. Assistimos a eventos climáticos mais extremos e mais poderosos, como ciclones, que destroem a infraestrutura de saúde essencial.

Notamos mudanças nos padrões de doenças mortais, como malária, dengue e cólera. Conflitos e violência aumentam a necessidade de assistência médica de emergência, ao mesmo tempo que limitam a capacidade dos estabelecimentos de saúde.

Todas essas situações estão ocorrendo em um mundo que aqueceu 1,2 graus acima das temperaturas da era pré-industrial, à medida que testemunhamos como as pessoas mais vulneráveis do mundo estão sofrendo as consequências de um problema majoritariamente causado pelas nações mais ricas do mundo. O aquecimento adicional levará a consequências desastrosas, a menos que sejam tomadas medidas urgentes e ambiciosas de mitigação e que seja mobilizado apoio adequado para pessoas e países mais afetados, para que possam se adaptar aos crescentes riscos climáticos.

“Atualmente, as necessidades já estão superando a capacidade de resposta. Trata-se de uma crise de solidariedade que agora está dando lugar a uma crise moral. O mundo não pode deixar as pessoas que sofrem as consequências mais trágicas sem apoio”, disse Stephen Cornish, diretor-geral de MSF na Suíça.

O apoio financeiro e técnico deve chegar às pessoas que mais precisam, o que não está acontecendo na escala que deveria. O compromisso do Acordo de Paris de aumentar o apoio aos países menos desenvolvidos não reconhece que um número significativo deles também é afetado por conflitos e deve ser priorizado. Até o momento, não foram cumpridas promessas para reduzir as emissões de carbono e apoiar os países que sofrem os maiores impactos.

Estamos testemunhando os efeitos agravantes dos crescentes riscos climáticos e conflitos armados do Afeganistão à Somália, do Mali ao Iêmen. Nosso trabalho nesses lugares ajuda as pessoas a lidar com a crise climática. Mas os atores humanitários não podem responder sozinhos à multiplicidade de desafios. Sem um apoio financeiro e político decisivo aos países mais frágeis, o sofrimento só vai piorar”, disse Robert Mardini, diretor-geral do CICV.

Apelamos aos líderes mundiais para que cumpram os seus compromissos do Acordo de Paris e da Agenda 2030 e garantam que as pessoas vulneráveis e afetadas por conflitos sejam adequadamente apoiadas para se adaptarem a um clima em alteração. Devemos encontrar coletivamente soluções e garantir o acesso a financiamento climático adequado em ambientes desafiadores. Deixar as pessoas para trás não é uma opção.

 

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