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Trabalhando no sul e no norte da Nigéria

A logística Tainah Rocha fala sobre as diferenças dentro de um mesmo país e a satisfação de trabalhar com MSF
08/02/2019
Trabalhando no sul e no norte da Nigéria

Foto: acervo pessoal

Liberdade, em Ikom, é um elemento de destaque. E que aprecio muito. Por ser um vilarejo calmo e pacífico, sem conflitos políticos ou religiosos, ou ameaça a segurança de qualquer natureza, podemos circular livremente, fazer caminhadas, atividades ao ar livre, ir aos mercados, tomar uma cervejinha quente, fazer amigos. A limitação nessa região fica por conta da energia elétrica. Embora a Nigéria seja um dos países mais ricos da África – é um grande produtor de petróleo – existe em todo seu território problema de distribuição de energia. Sendo assim, a maioria dos lugares não tem luz. O funcionamento é baseado em gerador, que tem um custo de manutenção muito elevado.

A liberdade que tinha em Ikom não foi a mesma quando fui transferida para o projeto em Maiduguri, que fica ao norte da Nigéria.  Desde o desembarque pareceu-me estar em outro país.  Como a população em Maiduguri é islâmica, as camisetas foram trocadas por mangas longas. O clima tropical por calor extremo e seco. Difícil respirar.

O projeto em Maiduguri é voltado para desnutrição, cólera, clínica médica generalizada. Foi nesse projeto que vi meu coração se quebrar em milhões de partículas. Setenta e oito crianças desnutridas. É um número alto para ser esquecido. Eram crianças, literalmente, morrendo de fome. A equipe de pediatria de MSF em Maiduguri trabalha incansavelmente. Noite e dia. Nesse exato momento é perceptível a razão pela qual abrimos mão de uma vida tradicional por algo muito, muito, muito maior. E não há nada mais valioso que isso.

Estar na Nigéria me agrada. Não por ser fácil estar aqui. Não é. Assim como não foi fácil tomar a decisão de abrir mão do conforto, segurança e uma vida bem estruturada tanto pessoalmente, financeiramente e profissionalmente. A vida por aqui não é fácil.

Não tenho nenhuma dúvida de que, pela primeira vez, sinto que meu trabalho realmente faz sentido. O resultado é tão intenso que consigo perceber, medir, tocar. Compartilhar conhecimento e experiência.  Impactar positivamente a vida de alguém e ao mesmo tempo, ver minha própria vida ser transformada. É fonte de motivação diária.

Estou bastante realizada e orgulhosa de fazer parte da equipe dos Médicos Sem Fronteiras. A sensação é de ter encontrado o meu lugar, a minha turma. Consigo ver mudança nas minhas atitudes, no meu olhar para o mundo, nos pensamentos. Continuo tendo meus medos, mas tenho motivação para ter coragem e mudar as coisas.

 

Leia a primeira parte do relato de Tainah aqui.

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