Você está aqui

O colorido da Nigéria

Tainah Rocha fala sobre o trabalho duro e os momentos de confraternização no projeto de Ikom
01/02/2019
O colorido da Nigéria

Foto: Arquivo pessoal

Estou no projeto Cross River, em Ikom, no sul da Nigéria. Cross River é o estado do vilarejo Ikom e dá nome ao nosso projeto. Mas também é um imenso rio que liga a Nigéria a Camarões. A vegetação aqui é muito similar a do Brasil. Rio largo ladeando a cidade, verde (muito verde) por todos os lados. Palmeiras gigantes, eucalipto, arvores frutíferas. A sensação é de estar viajando pelas estradas brasileiras. E se assemelha também no clima quente e úmido, lembrando Manaus. A capital de Cross River é Calabar onde, não para minha surpresa, acontece o maior e mais famoso carnaval da Nigéria, se assemelhando ao do Rio de Janeiro. A comida super apimentada e café da manhã com Akara, o bolinho de feijão que qualquer brasileiro saberia identificar no sabor e no nome que mais lhe soa familiar: acarajé. Logo vem a memória da Bahia.

 A semelhança com o Brasil não está apenas na natureza, nas frutas super doces (diferente da maior parte do mundo, em que elas têm um gosto artificial). Está também no jeito nigeriano aberto, amigável, pessoas que fazem a gente se sentir “em casa”, o sorriso sempre estampado no rosto, a música sempre tocando e a dança sempre presente, mesmo não estando em festa. E as cores. As muitas cores.  

Desembarquei aqui em junho de 2018 naquela que seria, até agora, a minha maior realização pessoal e professional. Eu acredito que todos os profissionais de MSF falaram e falarão a mesma coisa dos seus projetos: mas este onde estou é incrível. Cross River é um projeto embrião de Médicos Sem Fronteiras. Isso significa que não havia estrutura, nem base, nem trabalho previamente desenvolvido (diferente dos projetos que já estão instalados há mais tempo e onde já existe tanto a parte de escritório, rotina de trabalho, padronização com a qualidade MSF, quanto o atendimento aos pacientes). 

Em Ikom, foi necessário criar, instalar e desenvolver cada detalhe. Esse é um dos grandes diferenciais. E um grande desafio. Especialmente para quem, como no meu caso, estava em seu primeiro projeto com MSF. E, neste caso, não era apenas eu. Éramos três profissionais internacionais chegando para o mesmo projeto, as três pela primeira vez trabalhando com organizações não-governamentais. Arregaçar as mangas e fazer acontecer. Foi o que fizemos.

O foco do trabalho é voltado para os pacientes. São inúmeros (e recorrentes) casos de malária, especialmente em virtude do clima/floresta tropical, úmido e com incidências de chuva grandiosas diariamente; atendemos também na área de saúde mental e clínica médica geral. O atendimento principal é para os refugiados camaronenses que se movimentam para a região de Cross River, fugindo dos conflitos independentistas naquela região. Resumidamente, Camarões foi colônia inglesa e francesa até se tornar independente e um país unificado na década de 60. Entretanto, nos últimos tempos, os conflitos separatistas começaram se intensificar, com vítimas fatais.  

Faço parte da equipe de suprimentos. Isso significa fornecer, disponibilizar de imediato, ou no menor tempo possível, quaisquer materiais para o projeto. O acesso aos materiais e aos pacientes nem sempre é fácil. Os desafios envolvem tanto questões de segurança como também condições das estradas (facilmente 15 km são equivalentes a duas horas ou mais). Por isso, há também o gerenciamento de um estoque mínimo, médico e não-medico, para mitigar a falta do material e evitar comprometimento do atendimento aos pacientes, que é a principal razão de estarmos aqui.  

Construímos juntos uma equipe de suprimentos que me emociona. Muitos aprendizados. Muita troca. Pensamentos e objetivos alinhados. Sou muito privilegiada por ter encontrado uma equipe especial e generosa.  Ainda que a vida cotidiana seja cercada de dificuldades, não existem barreiras para realizarmos nosso trabalho em conjunto. O sorriso no rosto é sempre presente, acompanhado diariamente da mais genuína gargalhada.

Quando eu falo dos sorrisos, da música, das gargalhadas e das danças é porque são elementos que trazem leveza ao dia a dia. A realidades de extremos e desigualdade social é imperativa no Brasil e familiar a qualquer brasileiro. Mas, aqui, atinge outro nível. Por isso, valorizo cada pausa para descontração, cada momento para rirmos uns com os outros. Cada oportunidade de dividirmos as experiências de vida. Dá mais força e combustível para seguir a jornada.