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Suporte psicológico e social a famílias beduínas na Cisjordânia

Psicólogo leva cuidados de saúde mental a famílias que tiveram ou terão suas casas demolidas
15/04/2016

 

1/04/2016 - A primeira saída a campo foi de impressionar. Acompanhei o trabalho de uma de nossas agentes psicossociais, na área dos beduínos, um povo seminômade que batalha para manter seu estilo de vida tradicional mesmo estando, em sua maioria, estabelecidos em povoados.

Foto: Juan Carlos Tomasi/MSFO trajeto num dia sem nuvens foi de beleza especial, atravessando num carro 4x4 vales floridos entre suaves montes salpicados de pedras, tendo as montanhas jordanianas ao fundo. Chegamos ao primeiro povoado e fomos recebidos por mulheres que terão suas casas demolidas em breve. Sentamos em tapetes do lado de fora da casa à beira de um forte declive, e as mulheres, totalmente cobertas em vestes características, descreveram seu drama. As autoridades israelenses alegam que a área ocupada pelos beduínos é militar, em alguns locais área de tiro (firing zone), e impedem a construção de qualquer estrutura de caráter permanente, mesmo que localizadas em terra palestina segundo tratados internacionais. Na verdade, a maioria das famílias vive em barracas – antes viviam em cavernas – e as casas construídas com financiamento da União Europeia são muito simples, como contêineres. Escutamos sobre a apreensão desta família que espera a demolição em uma semana, descrevendo que será difícil voltar ao modo tradicional de vida. Seria, para eles, uma volta no tempo, pois agora já estão acostumados com energia, têm painéis solares, antenas de televisão, e utilizam essas casas para transformar o leite de ovelhas que produzem. Mesmo com essas dificuldades, esse povo resiste a diferentes pressões há séculos para manter seu modo de vida, e muitas famílias já tiveram mais de uma casa demolida. A revolta é grande, mas nada podem fazer; dizem que apenas assistirão em família ao infortúnio. A mulher mais jovem falou com mais confiança e disposição sobre o cenário que virá.

Continuamos avançando por esses montes, por momentos sem estrada alguma, até chegar a outro povoado. Lá encontramos uma família que teve sua casa demolida há algum tempo e ainda tenta reorganizar a vida. Fomos recebidos e eu fui autorizado a entrar na barraca que deu lugar à casa. A tenda foi erguida sobre a base de concreto da antiga casa. A matriarca, muito falante, nos esperava com quatro jovens mulheres e quatro crianças. Narrou detalhes da operação de demolição que pegou a família de surpresa, impossibilitando a retirada de pertences do local, e colocando pessoas em risco. A mesma explicou que, após o episódio, a família precisou retornar à caverna onde as últimas cinco gerações da família nasceram. Ao final da conversa visitei o local que também foi alvo de tentativa de destruição. Ao entrar por pequena entrada, vi um amplo salão oval, talvez com 100m² e dois metros de altura na parte mais alta, onde estavam todos os pertences da família. Uma forte umidade e cheiro de queimado chamaram atenção.

Com as necessidades dessas pessoas acessadas em termos médicos e de saúde mental, provavelmente retornaremos para conduzirmos um grupo terapêutico com as pessoas mais afetadas. Iniciamos nosso retorno. No caminho de volta passamos por outros vilarejos onde observamos carros das Nações Unidas. Em um deles pareciam estar instalando um gerador eólico de eletricidade. Além da alegação israelense de estarem em área militar, esses povoados estão muitas vezes próximos de assentamentos israelenses, colônias em terras palestinas. Essa proximidade causa muita tensão e consequências psíquicas, pois esses assentamentos são protegidos por pesado aparato militar, enquanto os beduínos estão onde estão com o claro intuito de sobreviver e manter seu direito sobre a terra. As famílias beduínas são alvos constantes dessas operações de demolição por toda a Cisjordânia desde a criação do Estado de Israel em 1948. Houve, nos últimos meses, uma intensificação dessas operações, o que deixa as pessoas em estado de constante alerta, além das óbvias necessidades práticas. O projeto de MSF em Hebron tem como uma de suas prioridades o suporte às famílias vítimas de operações de demolição.

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