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Os desafios da saúde mental no Burundi

07/02/2021
Os desafios da saúde mental no Burundi

Foto: MSF

Aqui em Bujumbura, no Burundi, faço parte da equipe de saúde mental em um hospital de traumatologia de Médicos Sem Fronteiras (MSF). Isso quer dizer que recebemos no hospital pacientes com lesões corporais graves, que, em sua maioria, necessitam de cirurgia. São pessoas que foram vítimas de violência, acidentes de trânsito, ataques de hipopótamos e crocodilos. Entretanto, os casos que mais me chamam a atenção são os de pacientes com histórico de transtorno mental grave: pacientes psicóticos hospitalizados após serem apedrejados, pacientes esquizofrênicos que levaram tiro de policiais, outros que foram vítimas de violência sexual e por aí vai.

De uma maneira geral, na cultura burundinesa, existem algumas crenças para explicar os transtornos mentais: há quem acredite que esses pacientes foram amaldiçoados com um feitiço por causa de algo “errado” que fizeram. Logo, dentro dessa lógica, se existe um “problema de demônio ou de feitiçaria”, a comunidade geralmente recorre a padres ou feiticeiros como solução. Mas, claro, existe também uma parcela (pequena) da população que relaciona o transtorno mental com uma questão de saúde.

No entanto, os dados desse pequeno país no meio da África, não são necessariamente animadores: estamos em um país no qual existe o total de dois psiquiatras (no Burundi todo) e esses dois trabalham no setor privado. Os psicólogos locais começam pouco a pouco a descobrir seus possíveis papéis e intervenções. No Kirundi, a língua nacional do Burundi, não existe a palavra “psicólogo”. Se a função é nova para os próprios profissionais, imagine só para a comunidade. Então, para as pessoas que procuram tratamento, o que resta é o hospício como única opção. E pago, ainda por cima.

Nossa equipe de saúde mental oferece suporte psicossocial aos pacientes que chegam ao hospital MSF, assim como a seus familiares. Também buscamos ampliar as parcerias com Ongs locais e internacionais, para que esses pacientes possam ter alguma opção de acompanhamento a longo prazo, caso necessitem. Além disso, nossos psicólogos investem em formações para profissionais de saúde, pacientes e comunidade em geral, na tentativa de sensibilizá-los sobre a importância de cuidar da própria saúde mental e formas de como fazê-lo, sobre o papel do psicólogo, sobre consequências da discriminação, sobre transtornos mentais, entre outros.

 

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