Guerra na Ucrânia: “Por quanto tempo é possível viver com tantas interrupções?”

Operações de busca e resgate em um prédio residencial atingido por um míssil em 15 de janeiro de 2023, em Dnipro, na Ucrânia. ©Yan Dobronosov/Global Images Ukraine

A psicóloga brasileira Isabela Teles relata o que testemunhou em seis meses de trabalho com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Dnipro, cidade na Ucrânia afetada pela guerra. 

Estou no projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF)* em Dnipro, no leste da Ucrânia, trabalhando como gerente de atividades de saúde mental. Como é viver e trabalhar por seis meses tão próximo da linha de frente da guerra? Entendi logo em minha primeira noite no país. Depois de dois dias viajando [do Brasil para a Ucrânia], eu só queria dormir. Mas naquela noite, Kyiv sofreu um ataque. Eu e uma colega de MSF estávamos no alojamento e passamos a noite em claro nos abrigando, muito tensas e apreensivas. 

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Na Ucrânia, ficamos conectados o tempo todo ao celular do trabalho. É lá que recebemos notificações de riscos, ataques iminentes e o aviso para ir até o abrigo. O sono é interrompido o tempo todo por sons de notificações.  

É curioso pensar sobre como é possível se adaptar a um paradoxo improvável: dormir e estar alerta. Acordar com o som das notificações é um aborrecimento inofensivo comparado à experiência de ser arrancada do sono profundo pelo som de explosões. O sobressalto do corpo manifesta toda a resposta automática diante da ameaça: o coração acelerado, estado de alerta, busca de proteção.  

A qualquer momento, ataques podem acontecer, nos levando a interromper as atividades e ir para o abrigo. Os que acontecem à noite são os mais estressantes.  

Por quanto tempo é possível viver com tantas interrupções e fragmentações? Quando precisamos normalizar isso para conseguir simplesmente seguir com a vida? Para os colegas ucranianos, uma noite barulhenta é rotina. Acontece. Tem acontecido há quatro anos, desde a escalada da invasão. 

 

Apoio de saúde mental para aqueles que fogem da guerra  

As atividades de saúde mental fazem parte das clínicas móveis que atendem a população com maior necessidade em regiões próximas à linha de frente do conflito (Dnipropetrovsk, Donetsk, Kharkiv), tanto em pequenas cidades quanto em habitações para pessoas deslocadas internamente no país 

Alguns desses locais são mais estruturados e têm melhores recursos. Outros, porém, oferecem condições muito mais precárias para abrigar a população. Um desses espaços é um velho prédio de três andares uma antiga escola que hoje serve de abrigo para mais de 200 pessoas.  

Duas famílias compartilham um quarto. Camas e tapetes preenchem o espaço, e cortinas tentam criar alguma divisão mínima, mas não oferecem nenhuma privacidade. 

Caixas de papelão espalhadas pelos corredores carregam os pedaços de lares que ficaram para trás. A umidade, o cheiro de mofo e a escuridão compõem o cenário. O frio e falta de energia elétrica são um problema em todo o país.  

Algumas famílias vivem desse modo há mais de três anos. Não têm para onde voltar (os locais de origem hoje são território ocupado) e tampouco têm pistas sobre para onde ir. Nem quando ir.  

Em uma conversa com uma das tradutoras que trabalha em MSF, ela contou que queria tatuar as coordenadas geográficas da cidade onde nasceu. Não existe mais nada dessa cidade, ela foi completamente destruída. Agora é território ocupado. Essa fala me tocou muito e partilhamos o silêncio por um tempo.  

Muitos dos profissionais ucranianos de MSF são, eles mesmos, deslocados internos. 

A prática de saúde mental aqui é um enorme desafio. O estigma e o preconceito ainda são muito fortes. Mas a guerra trouxe o entendimento que cuidar da dimensão psicológica das pessoas é uma necessidade básica. Nas clínicas móveis de MSF, os psicólogos oferecem sessões individuais presenciais ou online, quando as regiões são muito inseguras além de ações de sensibilização, conscientização em saúde mental e psicoeducação. 

A maioria das pessoas que procuram o serviço estão deslocadas internamente no país, e os temas giram em torno de vivências potencialmente traumáticas e perdas. Minha responsabilidade é organizar o serviço, planejar ações para integrar melhor ao restante do projeto e dar suporte aos psicólogos.  

Ajudar as profissionais a fazerem um bom trabalho, oferecendo apoio técnico e orientação, também significa compreender que elas mesmas são deslocadas internas, afetadas pelo conflito, e também viveram experiências potencialmente traumáticas que, inevitavelmente, se entrelaçam com as histórias que escutam todos os dias. 

O trabalho é árduo, com diversas barreiras. Nem sempre o avanço parece perceptível. Ajustar o olhar ajuda a reconhecer os pequenos passos: a paciente que finalmente conseguiu dormir melhor, a equipe multiprofissional que consegue entender melhor o componente da saúde mental, a psicóloga que consegue lidar melhor com um caso específico, a abertura gradual para intervenções psicossociais.  

Apesar das muitas limitações, ainda existe espaço para cuidado. Espaço para melhorar um pouco as coisas. 

*Diário de bordo escrito em 12 de fevereiro de 2026 

 

 

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