Direto do Líbano: “Avistamos um míssil cruzando o céu”

Edifícios residenciais destruídos no bairro de Dahye, no sul de Beirute. Líbano, 14 de março de 2026. ©Maryam Srour/MSF

William Oguido, farmacêutico de MSF, estava em Beirute, capital do Líbano, quando a crise no Irã desencadeou uma escalada crítica das hostilidades na região. Ele relata o que presenciou até ser evacuado do local, em meio a bombardeios e caos generalizado.

Como farmacêutico, minha visita técnica ao Líbano teve início em 23 de fevereiro de 2026, com a chegada a Beirute, capital do país, onde permaneceria até 7 de março.

Entretanto, o planejamento mudou drasticamente após o assassinato do líder supremo do Irã, em 28 de fevereiro, que desencadeou rapidamente uma escalada militar na região.

Na madrugada de 1º para 2 de março, por volta das 3 horas da manhã, fui despertado pelo som de bombardeios em Beirute e, de forma ainda mais marcante, pelos gritos de moradores, especialmente crianças, que reviviam o trauma do conflito de outubro de 2024. A cidade, que já enfrentava um cenário frágil, mergulhou novamente em um ambiente de medo e incerteza.

Com a emissão de ordens de evacuação abrangendo vastas áreas do país, Beirute transformou-se quase imediatamente. A cidade ficou com as vias superlotadas, trânsito caótico, famílias inteiras dormindo nas ruas ou dentro de carros, enquanto havia relatos de apartamentos abrigando mais de 30 pessoas simultaneamente.

Em cada esquina, viam-se rostos marcados pela dor e pela incerteza deixadas pela nova crise.”

No escritório onde trabalhávamos, o clima era de grande tristeza e preocupação. Algumas pessoas da equipe, forçadamente deslocadas de seus lares, encontravam-se visivelmente abaladas e choravam ao receber notícias da perda de parentes e amigos próximos.

Apesar das circunstâncias adversas, as atividades permaneciam essenciais e continuaram sendo realizadas. Mesmo sob constante sobrevoo de drones, sons de explosões e atualizações frequentes sobre o rápido deterioramento da situação no país, a equipe seguiu com seu trabalho, demonstrando comprometimento sustentado por um forte espírito humanitário.

• Quer trabalhar com Médicos Sem Fronteiras? Acesse: Trabalhe – MSF Brasil

Diante do agravamento da insegurança, minhas atividades planejadas foram suspensas.

No dia 9 de março, dois profissionais da equipe e eu fomos evacuados do país. Durante o deslocamento para o aeroporto, ocorreu um bombardeio nas proximidades do trajeto. Era possível ver a coluna de fumaça e sentir o cheiro de pólvora no ar. Em determinado momento, avistamos um míssil cruzando o céu.

O motorista de MSF que nos acompanhava relatou que um ataque recente próximo à sua residência havia destruído os vidros das janelas, mas que ele continuava morando ali com sua família.

Durante o voo de retorno, um misto de emoções tomou conta de mim: alívio por deixar uma situação de alta insegurança, mas também frustração e impotência por precisar abandonar o trabalho em um momento de tamanha necessidade para as comunidades e para os colegas que permaneceram no Líbano.

 

Compartilhar

Relacionados

Como ajudar