Sterline Dol, promotora de saúde de MSF, conversa com moradores de Calebasse, uma comunidade remota no sul do Haiti, sobre a importância de as gestantes darem à luz em um hospital. ©Marx Stanley Léveillé/MSF 

À medida que a situação de segurança se deteriorava ainda mais no Haiti, as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) continuaram oferecendo serviços vitais, incluindo tratamento para traumas, queimaduras e violência sexual, além de cuidados de saúde materna e neonatal. 

 

Desde 2021, a instabilidade política e a violência de grupos armados atingiram níveis insustentáveis no Haiti. A aliança Viv Ansanm (“viver juntos”), formada por grupos armados que antes eram rivais, passou a controlar cerca de 85% da capital, Porto Príncipe. Nesses bairros, milhares de moradores estão completamente privados de serviços básicos, como eletricidade, água, educação, transporte e atendimento de saúde, e vivem sob o risco constante de serem atingidos por confrontos armados mortais, sem qualquer possibilidade de escapar. 

Porto Príncipe se transformou em um campo de batalha, onde confrontos violentos entre esses grupos armados e a polícia, apoiada por brigadas comunitárias de autodefesa, são uma ocorrência diária. Em 2025, a violência se intensificou de forma significativa, com o envio de empresas militares privadas para atuar na cidade, utilizando, entre outras armas, drones equipados com explosivos. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança da ONU decidiu enviar progressivamente ao Haiti uma “Força de Repressão às Gangues”, composta por 5.550 integrantes, em substituição à antiga Missão Multinacional de Apoio, liderada pelo Quênia. 

Ao longo do ano, foram registrados 8.100 homicídios no Haiti. Vários dos principais hospitais de Porto Príncipe continuam fechados devido a ataques, saques ou à insegurança, tornando extremamente difícil o acesso aos serviços de saúde. Até o momento, mais de 1,4 milhão de pessoas foram deslocadas, incluindo quase 400 mil somente em 2025. Muitas vivem em locais informais, em condições extremamente precárias, sem acesso adequado a água e saneamento. 

Sempre que possível, MSF continuou trabalhando nesse contexto de extrema instabilidade, apesar das repetidas ameaças e dos incidentes de segurança que interromperam nossas operações. Em 15 de março, fomos obrigados a suspender nossas atividades nos centros médicos de Carrefour e Turgeau devido à intensificação dos confrontos nas imediações dessas unidades. Enquanto nossas equipes deixavam Turgeau em um comboio, nossos quatro veículos – todos claramente identificados como MSF – foram alvejados pelo menos 15 vezes por um homem usando uniforme da polícia. Nossos colegas sofreram ferimentos leves e, diante do ocorrido, decidimos suspender todos os encaminhamentos de pacientes em ambulâncias MSF.. Mais tarde, naquele mesmo ano, diante da ausência de soluções sustentáveis que permitissem garantir adequadamente a segurança de nosso centro médico em Turgeau, tivemos de tomar a devastadora decisão de fechá-lo definitivamente, reduzindo ainda mais as opções de atendimento de saúde disponíveis para a população da cidade. 

 

Tratamento de ferimentos relacionados à violência  

MSF continuou respondendo às consequências da violência armada na capital. Ao longo de 2025, nossa equipe médica em Cité Soleil tratou pessoas com ferimentos relacionados à violência, metade dos quais causados por disparos de arma de fogo. No hospital de trauma e queimados de Tabarre, tivemos de ampliar nossa capacidade de 75 para 90 leitos para atender ao número crescente de pacientes feridos que chegavam todos os dias. 

Em 20 de setembro, muitos pacientes feridos chegaram ao hospital de Cité Soleil e à maternidade Isaïe Jeanty, onde também trabalhamos, após um ataque com drones no bairro de Cité Soleil. A maioria dos pacientes era formada por crianças e mulheres. 

 

Atendimento integral a sobreviventes de violência sexual e de gênero 

A intensificação dos conflitos em Porto Príncipe provocou um aumento expressivo no número de casos de violência sexual e de gênero (VSG, na sigla em inglês), além de tornar os ataques cada vez mais brutais. Desde 2021, a clínica Pran Men’m, que inauguramos há uma década para oferecer atendimento médico e psicológico integral a vítimas e sobreviventes de VSG, registrou um aumento de três vezes no número de pacientes. Um número cada vez maior de pacientes relata ter sofrido agressões várias vezes ao longo da vida e pelas mãos de diferentes agressores. Ao mesmo tempo, está cada vez mais difícil conseguir atendimento adequado e em tempo hábil. 

Também continuamos oferecendo atendimento relacionado à violência sexual e de gênero no hospital Drouillard, em Carrefour, e na maternidade Port-à-Piment. Em 2025, passamos a oferecer esses serviços também na maternidade Isaïe Jeanty.  

 

Serviços de saúde sexual e reprodutiva 

A taxa de mortalidade materna no Haiti continua alarmantemente alta. O departamento do Sul apresenta uma das taxas mais elevadas do país, com 344 mortes para cada 100 mil nascidos vivos.5 Isso se deve a uma série de fatores, como a falta de unidades de saúde em funcionamento, a insegurança e os altos custos de transporte, que impedem muitas mulheres de buscar atendimento.  

Em resposta a esse cenário, MSF trabalha em parceria com o Ministério da Saúde Pública e da População, oferecendo serviços obstétricos e neonatais de emergência em Port-à-Piment. Nossas equipes acompanham partos, inclusive os que exigem atendimento especializado. Para melhorar a assistência à saúde materna em Porto Príncipe, MSF contribuiu para a reabertura da maternidade Isaïe Jeanty, que havia sido fechada durante uma onda de violência em 2024. Desde março de 2025, trabalhamos em parceria com o Ministério da Saúde Pública e da População e outras organizações para oferecer assistência ao parto, consultas ambulatoriais e contraceptivos. Também realizamos importantes obras de reabilitação no edifício para ampliar a capacidade de atendimento da maternidade.

Dados referentes a 2025

177.900

Consultas ambulatoriais

4.780

Sobreviventes de violência sexual atendidos

53,4 milhões de euros

Despesas

12.800

Intervenções cirúrgicas

2.980

Partos assistidos

4.680

Pessoas tratadas por ferimentos decorrentes de violência física intencional

1.959

Profissionais em tempo integral

Você pode gostar

Filtrar por

Lista de projetos​