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“Três de meus filhos, além de mim, foram infectados por Ebola”

10/08/2012
Enfermeiro ugandense infectado pelo vírus no surto de 2007 conta sua história de sobrevivência

Embora o Ebola tenha matado cerca de 1.500 pessoas desde que foi identificado pela primeira vez, em 1976, o vírus permanece intrinsecamente ligado a histórias de horror de ficção científica contadas em filmes e livros. Um enfermeiro ugandense, Kiiza Isaac, parece determinado a colocar um fim nos estereótipos e passar uma impressão de normalidade a essa febre hemorrágica sem cura, mas a que muitos sobrevivem. Em 2007, ele foi infectado por Ebola em seu distrito, Bundibugyo (oeste de Uganda). Mas não só ele sobreviveu para contar sua história como está atualmente no distrito vizinho de Kibaale, onde outro surto da doença foi declarado no final de julho, para ajudar os pacientes que passam pela mesma situação e sofrimento vividos por ele.

Por vezes é necessário algum tempo para identificar surtos de Ebola, porque os sintomas podem ser bastante similares aos de outras doenças. Como se deu o início do surto de Bundibugyo?
Em agosto de 2007, uma doença estranha foi identificada em Bundibugyo. As mortes na comunidade começaram a aumentar e as pessoas procuravam centros de saúde com febres altas, dores abdominais, vômito, diarreia e fadiga. Elas não respondiam ao tratamento contra malária.

O que você fazia naquela época?
Estava trabalhando como enfermeiro no centro de saúde de Kikyo, no distrito de Bundibugyo. Foi então que o Ministério da Saúde foi informado sobre uma doença estranha na região. Os epidemiologistas deles foram até o centro de saúde e nos orientaram a levar os pacientes a hospitais.

Qual foi a reação das pessoas?
A comunidade não sabia o que estava acontecendo; para eles, as pessoas infectadas estavam enfeitiçadas. Essa percepção se estendeu até outubro, quando 18 pessoas foram internadas no centro de saúde de Kikyo.

E você esteve em contato com os pacientes?
Eu estava colhendo amostras de sangue deles. Eu fui infectado pelo vírus porque nós não tínhamos equipamentos de proteção suficientes para usar. Mas naquele tempo eu não sabia. Comecei a apresentar os mesmos sintomas dos pacientes. Amostras de meu sangue foram coletadas, mas o teste para malária foi negativo. Eu tinha uma febre persistente e fiquei doente por três semanas. No dia 19 de novembro, recebi a confirmação do laboratório: eu estava com Ebola. Era uma nova tipologia da doença, não era o tipo Sudão, nem Zaire... O meu tipo de Ebola foi nomeado como Ebola-Bundibugyo.

Como foram aquelas semanas difíceis?
Equipes de MSF vieram a Bundibugyo e ficaram à frente de um centro de tratamento como este aqui em Kagadi. Muitos pacientes receberam cuidados no centro de tratamento de MSF. Graças a Deus, eu sobrevivi. Depois de me recuperar, juntei-me a MSF e ao Ministério da Saúde para lidar com pacientes de Ebola até o dia 2 de fevereiro de 2008, quando Bundibugyo foi declarada livre de Ebola.

E sua família? Como o vírus é transmitido pelo contato próximo (fluidos corpóreos) e você não sabia que estava infectado no início, eles estavam correndo o risco de pegarem o vírus...

Eu era o chefe de família e minha infecção ainda não estava confirmada. Três de meus filhos, além de mim, foram infectados por Ebola. Todos sobrevivemos. Mas um primo, que foi também enfermeiro em Kikyo e estava cuidando de mim, também contraiu o vírus. Ele foi levado às pressas para o hospital e morreu no dia 3 de novembro, antes da confirmação de meus resultados.

Como sua vida mudou depois dessa experiência?
Quando me recuperei, continuei tratando outros e providenciando suporte psicossocial até que o distrito fosse declarado livre de Ebola. Estou, atualmente, trabalhando no hospital de Bundibugyo como enfermeiro. Quando o surto foi declarado em Kabaale, no final de julho, a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu ao distrito que enviasse uma equipe de sete pessoas que já tivessem trabalhado no centro de isolamento em 2007. Então, estou ajudando o Ministério da Saúde e a OMS.

O que os pacientes podem aprender a partir de sua história? Não é complicado evitar o estigma?
Dizemos aos pacientes que essa é uma doença, que não tem nada a ver com bruxaria. Eles não devem ter medo. Quando há um surto, as pessoas precisam apenas evitar o contato com fluidos corpóreos. E, caso se recuperem, depois de 21 dias já não são mais pacientes e estão livres do Ebola. As pessoas não devem temer o estigma; podem levar a vida normalmente.