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“Segunda onda” de COVID-19 sobrecarrega sistema de saúde do Malaui

05/02/2021
Nova cepa do coronavírus faz disparar o número de casos graves no país; vacinação ainda não tem previsão de início
“Segunda onda” de COVID-19 sobrecarrega sistema de saúde do Malaui

Foto: Marion Pechayre/MSF

Em 2020, o Malaui foi relativamente poupado pela pandemia da COVID-19. No entanto, o país agora está sendo tomado por uma nova onda da doença, que se espalha rapidamente e está sobrecarregando o sistema de saúde. Nas primeiras semanas de janeiro, o número de casos positivos dobrou a cada quatro ou cinco dias e, embora a capacidade local já esteja saturada, o acesso às vacinas provavelmente está a alguns meses de distância. Médicos Sem Fronteiras (MSF) atendeu a um pedido das autoridades de saúde em Blantyre e iniciou uma resposta de emergência para lidar com o aumento exponencial do número de pacientes graves na região.

Fabrice Weissman, membro da equipe de resposta de Médicos Sem Fronteiras (MSF) à COVID-19 no Malaui, descreve a situação.

Qual é a última atualização sobre esta nova onda de COVID-19 no Malaui?

A epidemia tem se desenvolvido em ritmo acelerado desde meados de dezembro. Naquela época, a maioria dos novos casos foi detectada entre trabalhadores do Malaui que retornavam da África do Sul, enquanto hoje quase todos os novos casos são resultado de transmissão local. Há uma probabilidade muito alta de que a cepa da COVID-19 (500Y.V2) identificada na África do Sul seja responsável por esta segunda onda. De acordo com o que se sabe até o momento, em termos de conhecimento científico, esta cepa é 50% mais transmissível do que a cepa original, levando a um rápido aumento do número de pessoas que precisam de hospitalização. Esse número tem dobrado a cada semana desde o início de janeiro. Se a epidemia no país seguir o mesmo padrão da África do Sul (onde o pico da segunda onda foi atingido após nove semanas), podemos esperar que o número de pacientes graves que precisam de cuidados hospitalares aumente sem cessar até meados de fevereiro. Os focos do surto são as duas principais cidades do país, Lilongwe, no centro, e Blantyre, no sul, que contam com uma população de cerca de dois milhões de pessoas.

Em Blantyre, MSF mantém um programa oncológico no Hospital Central Queen Elizabeth (HCQE), onde pacientes de COVID-19 também estão sendo hospitalizados. O que as equipes de MSF têm observado?

O número de pacientes de COVID-19 em estado grave internados no HCQE aumentou de 12 para 107 entre 1° e 21 de janeiro, excedendo a capacidade máxima de leitos para a doença, que atualmente é de 80. Isso coloca uma grande pressão sobre as instalações, sobretudo no que diz respeito aos recursos humanos, equipamentos e suprimentos médicos e abastecimento de oxigênio - em todas as três áreas, o diretor do hospital solicitou nosso apoio de emergência.

Quais são as prioridades no momento?

A prioridade agora é proteger o pessoal da linha de frente, nem que seja para manter a força de trabalho operacional. Mais de dez membros da equipe de MSF foram diagnosticados com COVID-19 nos últimos dez dias (felizmente, nenhum deles desenvolveu sintomas graves até agora). Isso está colocando uma grande pressão sobre nossa capacidade operacional. Nosso segundo objetivo é reduzir a mortalidade entre os pacientes que chegam ao Hospital Central Queen Elizabeth, que é o único serviço público que oferece atendimento a pacientes graves em Blantyre, onde mais de um terço dos casos são notificados. O hospital está fazendo um ótimo trabalho sob circunstâncias terríveis. Contratamos 50 profissionais de saúde extras para reforçar a equipe e estamos ajudando a administrar o suprimento de oxigênio. O oxigênio é a salvação na gestão dos pacientes, mas a demanda excede em muito a capacidade de produção nacional e precisa ser atendida por cilindros e concentradores importados, que estão em falta.

O que MSF está fazendo para apoiar as autoridades de saúde do Malaui na resposta a essa nova onda?

Além de fornecer mão de obra, oxigênio e suporte técnico para as enfermarias de COVID-19 do Hospital Central Queen Elizabeth, estamos instalando uma enfermaria adicional de 40 leitos dedicada a pacientes de COVID-19. Ela será totalmente equipada e composta por profissionais de MSF, em resposta ao pedido de ajuda do diretor do hospital e do oficial de saúde do distrito. Outra questão é que, embora o número de pacientes que chegam ao hospital já seja grande, há indícios de que alguns dos casos graves nem chegam ao hospital e muitas pessoas provavelmente estão morrendo em casa. Nosso próximo objetivo, portanto, é melhorar o encaminhamento de pacientes graves, a fim de aumentar suas chances de sobrevivência. Mas, para conter o número de infecções e mortes causadas por essa nova onda da doença, o Malaui precisa com urgência de acesso à vacinação - o que, infelizmente, dificilmente acontecerá antes de abril de 2021 e, mesmo assim, apenas para uma parte da população. Até lá, a epidemia já pode ter atingido o pico e matado muitos que poderiam ter sido protegidos pela vacina.

 

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