Para Médicos Sem Fronteiras, aumento de pessoas que poderão receber nova profilaxia anti-HIV não resolve problema de acesso

Medida anunciada pela farmacêutica Gilead é insuficiente para suprir medicamento lenacapavir a grupos em situação de vulnerabilidade

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Profilaxia Pré-Exposição (PreP) que previne a infecção pelo HIV entre mulheres HIV negativas. Julho de 2016. © Morgana Wingard

O anúncio feito na última terça-feira, 14 de abril, de que a farmacêutica norte-americana Gilead Sciences fornecerá o medicamento lenacapavir a 1 milhão de pessoas a mais do que inicialmente previsto não é suficiente para enfrentar as barreiras que impedem o acesso dos que mais necessitam ao produto. 

Na visão de Médicos Sem Fronteiras (MSF), para realmente conter a transmissão do HIV, o lenacapavir precisa ser acessível e financeiramente viável para pessoas em situação de vulnerabilidade em todo o mundo que correm maior risco de contrair o vírus. 

A Gilead havia anunciado anteriormente que forneceria doses para 2 milhões de pessoas a um número limitado de países de renda baixa e média e agora elevou o total para três milhões ao longo de três anos. Apesar disso, esse número está longe de atender às necessidades globais e exclui pessoas que vivem em alguns dos locais onde o HIV é mais prevalente. 

O lenacapavir é uma versão injetável da profilaxia pré-exposição (PrEP) que precisa ser administrada apenas duas vezes por ano — uma verdadeira mudança de paradigma para populações-chave em todo o mundo que enfrentam estigma e barreiras adicionais para acessar serviços de saúde, além de pessoas afetadas por conflitos ou que vivem em contextos humanitários frágeis.  

A Gilead exerce um controle rigoroso sobre a produção e a distribuição do lenacapavir, mantendo-o fora do alcance de algumas das pessoas mais expostas ao risco de contrair HIV. A empresa o vende a preços exorbitantes — US$ 28.000 por paciente ao ano nos Estados Unidos — apesar de ele poder ser comercializado com lucro por menos de US$ 40. 

A oferta também é um grande problema. Embora a Gilead tenha firmado acordos com alguns fabricantes de medicamentos genéricos para produzir o lenacapavir a preço mais baixo, países como Argentina, Brasil, México e Peru — onde foram realizados ensaios clínicos que levaram à aprovação do medicamento — estão excluídos desse acordo.  

Aproximadamente 1,3 milhão de pessoas adquirem HIV todos os anos no mundo. De fato, um quarto das novas infecções por HIV ocorre em países excluídos desse acordo. Conceder autorização a mais produtores para fabricar o medicamento, sem restringir os locais onde ele pode ser vendido é essencial para ajudar a ampliar a oferta global e alcançar todas as pessoas que precisam desse tratamento. 

Há um ano, MSF tenta comprar o lenacapavir diretamente da Gilead, mas a empresa continua se recusando a vendê-lo. Em vez disso, a Gilead tem repetidamente orientado MSF a adquirir o medicamento por meio do Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária — mesmo com os estoques limitados em países como Eswatini e Quênia já tendo se esgotado. 

Qualquer ampliação do acesso ao lenacapavir é positiva, mas alcançar apenas 1 milhão de pessoas a mais ao longo de três anos representa uma fração mínima do que é necessário para causar um impacto real na epidemia de HIV.”

Tom Ellman, diretor da Unidade Médica de MSF para a África Austral (SAMU)

“Há décadas, MSF desempenha um papel central no cuidado e no trabalho conjunto com pessoas que vivem com HIV. Estivemos ao lado das comunidades nos anos 2000, quando elas não tinham acesso aos antirretrovirais, e estamos novamente ao lado delas agora para exigir acesso ao lenacapavir. A história está perigosamente próxima de se repetir.

Não basta que esse medicamento inovador esteja disponível apenas para pessoas que vivem em países ricos e podem pagar US$ 28.000 por ano, ou que seja fornecido de forma limitada a alguns países de renda baixa e média por meio do Fundo Global. Para realmente conter a transmissão do HIV, o lenacapavir precisa ser acessível e financeiramente viável para pessoas vulneráveis em todo o mundo que correm maior risco de contrair o vírus. A prevenção não deve ser um privilégio. 

Por isso, há um ano MSF tenta comprar o lenacapavir diretamente da Gilead para utilizá-lo em nossos programas médicos. Porém, há um ano a farmacêutica se recusa a vendê-lo para nós, enquanto nos orienta a acessá-lo por meio do Fundo Global. Em Eswatini, país com a maior taxa de novas infecções por HIV no mundo, recebemos apenas 70 doses, que se esgotaram em poucas semanas. No Quênia, trabalhamos com uma clínica que dispõe de apenas 39 doses. 

O número de doses anunciado hoje, distribuídas ao longo de vários anos, divididas entre países e, em seguida, entre unidades de saúde,é insuficiente. Se a Gilead tem capacidade para produzir mais, é indefensável e desumano que esteja optando por não fazê-lo. 

Em um momento em que grande parte do financiamento para programas de HIV/AIDS está ameaçada de cortes, prevenir infecções é mais crucial do que nunca. A Gilead precisa parar de fabricar essa sensação de escassez que coloca o lucro acima das pessoas”, disse o doutor Tom Ellman.

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