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MSF: Três meses após fechamento da fronteira, a esperança dos sírios feridos diminui cada vez mais rápido

29/09/2016
Pelo menos 59 sírios feridos na guerra, 11 deles crianças, foram privados de transferência médica para a Jordânia nos últimos três meses
MSF: Três meses após fechamento da fronteira, a esperança dos sírios feridos diminui cada vez mais rápido

Foto: Ton Koene

Ao menos 59 sírios feridos de guerra, 11 deles crianças com idades entre 3 e 14 anos de idade, foram impedidos de serem transferidos para a Jordânia nos últimos três meses, afirma a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Em coordenação com parceiros na Síria, MSF registrou pelos menos 59 casos em que o acesso à Jordânia foi negado a pacientes sírios feridos de guerra, dos quais 6 morreram subsequentemente. Todos esses pacientes precisavam ser transferidos urgentemente da província de Dara’a, no sul da Síria, ao projeto de emergência cirúrgica de MSF no hospital de Ramtha, na Jordânia, localizado a menos de 5 quilômetros da fronteira.

Equipe cirúrgica de MSF do hospital de Ramtha, na Jordânia (Foto: Tom Koene / MSF)Com a continuidade de confrontos intensos, MSF acredita que o número real de pessoas em necessidade de transferência médica imediata seja ainda maior. MSF sabe perfeitamente que quatro dos hospitais que apoia no sul da Síria pararam de encaminhar pacientes para a Jordânia, já que sabem que eles não serão aceitos ali.

Mohammad Al Nuaimi, de 30 anos, da cidade de Dara’a, disse a MSF que seus três filhos estavam seriamente feridos depois de brincar no quintal de casa com munições não deflagradas. “Eu tentei tirá-los dali, mas a bomba explodiu e eu e meus filhos ficamos feridos. Tivemos que ir de um hospital a outro procurando médicos e equipamentos especializados, como máquinas de raio X, mas os médicos me disseram que, pela gravidade dos ferimentos, meus filhos precisariam ser transferidos para a Jordânia, onde eles teriam acesso ao tratamento e aos equipamentos necessários.”

“Apesar de minhas esperanças, fui informado pela equipe de transferências médicas que a fronteira está completamente fechada, que nem eu nem meus filhos estávamos autorizados a atravessar para a Jordânia, e que essa decisão era definitiva. Eu me senti frustrado e impotente, mas me obriguei a continuar forte e encontrar uma solução para manter meus filhos vivos”, disse Mohammad.

O conflito prolongado na Síria já dizimou o sistema de saúde do país e forçou muitos profissionais de saúde a fugir. Os hospitais do sul da Síria que ainda estão abertos têm capacidades muito limitadas para responder à alta complexidade dos ferimentos, o que deixa os sírios feridos sem nenhuma opção a não ser procurar cuidados médicos no destino seguro mais próxima – a Jordânia.

Antes do fechamento da fronteira entre Síria e Jordânia, no dia 21 de junho, sírios feridos de guerra eram regularmente transferidos do sul da Síria para a fronteira com a cidade jordaniana de Ramtha. Equipes médicas de MSF atendiam uma média de 50 a 80 feridos por mês na emergência do hospital de Ramtha; 60% dos pacientes de MSF em Ramtha decidiram voltar à Síria depois de terem alta do hospital.

 “Sempre que ouvíamos a sirene da ambulância, corríamos para a sala de emergência para ver qual tipo de ferimento iríamos receber e como poderíamos ajudar”, diz o Dr. Mohammad Momani, médico emergencista de MSF em Ramtha. “Hoje não ouvimos mais as sirenes, mas ainda podemos escutar os bombardeios do outro lado, e sabemos que ainda há muitas pessoas feridas em necessidade urgente de chegar ao hospital de Ramtha, mas não podem porque a fronteira está fechada.”

A equipe médica de MSF em Ramtha continua tratando pacientes admitidos antes de a fronteira ser fechada. Trabalhando em colaboração com o Ministério da Saúde da Jordânia em Ramtha desde setembro de 2013, MSF já recebeu 2.427 pessoas feridas na emergência e realizou mais de 4.500 cirurgias, 800 delas intervenções complexas.  

 “Nossas equipes vêm oferecendo cuidados cirúrgicos vitais, além de cuidados pós-operatórios de recuperação, a sírios feridos de guerra em um ambiente seguro e adequado desde setembro de 2013”, diz Merja Hietanen, chefe da equipe médica de MSF em Ramtha. “Elas ajudaram pacientes sírios a se recuperarem física e mentalmente, longe da guerra e da destruição. Por esse motivo o acesso à Jordânia, e especificamente ao hospital de Ramtha, é uma necessidade para as pessoas gravemente feridas.”

MSF está profundamente preocupada com a negação de acesso à Jordânia, por três meses consecutivos, a sírios feridos de guerra e gravemente doentes, e reitera seu apelo ao governo da Jordânia para que libere imediatamente as transferências médicas para os que necessitam, especialmente mulheres, crianças e os que correm risco de morte, uma vez que eles têm direito a receber tratamento médico, de acordo com o direito internacional humanitário.

MSF trabalha na Jordânia desde agosto de 2006, quando começou seu projeto de cirurgia reconstrutiva na capital do país, Amã. Desde 2013, MSF mantém um projeto de cirurgias emergenciais de trauma no hospital de Ramtha, além de um hospital de cuidados materno-infantis e dois projetos de doenças não transmissíveis em Irbid e Ramtha, para oferecer apoio tanto a refugiados sírios como a jordanianos em situação vulnerável.

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