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Iraque: “As vidas das pessoas estão despedaçadas”

24/04/2015
Coordenador-geral de MSF no país fala sobre a crise de deslocamento de pessoas, que já é das mais significativa das últimas décadas

Foto: Gabrielle Klein/MSF

No Iraque, a violência amplamente difundida deslocou cerca de 2,6 milhões de pessoas de suas casas, fazendo desta uma das maiores crises de deslocamento das últimas décadas. Abaixo, Fabio Forgione, coordenador-geral da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no país, descreve a situação.

“Essa recente crise humanitária no Iraque entrou em seu segundo ano e estamos nos preparando para o que acontecerá. As pessoas fogem da disseminação da violência implacável; vilarejos inteiros estão em cinzas após terem sido incendiados. Deslocamentos em massa impuseram enorme tensão às comunidades que recebem os deslocados, mas muitas famílias que fogem das zonas de conflito não têm para onde ir, na medida em que o acesso às áreas mais seguras é frequentemente restrito de maneira sectária e a ajuda internacional não está chegando até essas pessoas.  

A crise teve início em dezembro de 2013 quando o grupo chamado Estado Islâmico (EI) tomou a cidade de Fallujah e o confronto se espalhou para boa parte das regiões ao norte e no centro do Iraque. Como resultado da recente ampliação do conflito no país, muitas mais pessoas – que já somam centenas de milhares – estão em movimento.
Além disso, não podemos esquecer que o Iraque, e a região do Curdistão em particular, abriga cerca de um quarto dos refugiados que escaparam da guerra civil na Síria.

Cuidados de saúde em meio ao conflito
Fazemos o nosso melhor para levar assistência à população mais afetada e oferecer cuidados médicos e humanitários nas regiões localizadas o mais próximo possível das linhas de frente de batalha. O acesso a esses locais é extremamente difícil e a população está sofrendo para conseguir assistência. Nessas regiões, as necessidades são enormes e a interrupção dos serviços e a destruição da infraestrutura são graves. Utilizamos uma abordagem bastante flexível, com o envio de pequenas clínicas médicas móveis às regiões no limite da zona de conflito assim que elas de tornam seguras o suficiente. Somente em março, as equipes de MSF realizaram 22.041 consultas.

Muitos de nossos pacientes precisam de medicamentos para doenças crônicas. A maioria são mulheres e crianças, muitas das quais não veem um médico há meses. A maioria das pessoas estão profundamente traumatizadas; elas perderam tudo, algumas viram seus entes queridos morrerem e o futuro é incerto. Por isso, cuidados voltados para a saúde mental também fazem parte dos serviços que oferecemos sempre que possível.

Nossas equipes médicas enfrentam dificuldades para chegarem a regiões remotas como Zummar e outros vilarejos do norte de Ninawa. MSF está oferecendo uma ampla gama de serviços médicos em Kirkuk e em diversas outras localidades ao longo da estrada que leva a Tuz Khurmato, em Salah ad Din, incluindo cuidados de saúde primária, cuidados de saúde reprodutiva e sexual, tratamento para doenças não transmissíveis e cuidados voltados para saúde mental. Uma equipe médica está a postos em Abu Ghraib para oferecer serviços de saúde às milhares de famílias que fugiram de Ramadi nos últimos dias.

Lidando com a insegurança
A situação de segurança extremamente volátil é um fato difícil na vida dos iraquianos e o principal obstáculo enfrentado por nossas equipes em campo. Aceitamos tais riscos porque podemos observar as condições desesperadoras de nossos pacientes. Por vezes, as equipes de MSF são obrigadas a se retirarem repentinamente devido a ataques, operações militares ou incidentes de segurança graves.

Em algumas regiões, artefatos não detonados apresentam um risco real para nossas equipes e pontos de controle também podem ser alvo de ataques. Temos de monitorar a situação de segurança constantemente para mitigar os riscos. A manutenção de canais de comunicação com oficiais, sheiks e lideranças tribais e comunitárias é fundamental para sermos aceitos pela comunidade, realizarmos nosso trabalho e preservarmos nossa neutralidade em um contexto tão volátil, fragmentado e polarizado.

Apesar do ambiente de segurança desafiador, nossas atividades demonstram que é possível para organizações humanitárias operar nessas regiões.

É preciso ampliar a escala da ajuda internacional
Milhares de iraquianos deslocados ainda estão vivendo sem acesso à assistência humanitária básica. Observamos pouquíssima assistência internacional se compararmos com as necessidades – a maior parte da ajuda é proveniente de atores locais e permanece extremamente insuficiente. A resposta humanitária no centro do Iraque tem estado fraca há mais de um ano e, hoje, ainda não há um plano de contingência concreto para responder aos contínuos deslocamentos em massa na medida que os confrontos se espalham.

Tememos por aqueles que vive em áreas que em breve podem ser sugadas pelo conflito. MSF está tomando todas as providências preventivas possíveis, mas diversas organizações não governamentais internacionais que operam no Iraque estão cada vez mais preocupadas com a possibilidade de que o financiamento de doadores internacionais possa ser interrompido justamente no momento em que a previsão é a de que as necessidades humanitárias aumentem. Estados e doadores internacionais precisam aumentar seu apoio imediatamente e estruturar planos de contingência integrados para responder de forma adequada aos futuros deslocamentos em massa.”

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