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Falta de segurança força MSF a deixar projeto na Somália

17/06/2009
Depois de nove anos, organização interrompe atividades em Bakool, onde dois profissonais de sua equipe foram sequestrados em abril

Depois de nove anos oferecendo assistência médica à população da região de Bakool, Médicos Sem Fronteiras (MSF) chegou à conclusão de que não dispõe de segurança o suficiente para continuar seu trabalho. Esta decisão foi tomada apenas por MSF – a organização não foi expulsa pelas autoridades. As atividades médicas de MSF em outros locais da Somália continuam.

Oferecer assistência humanitária na Somália é muito difícil, o que foi evidenciado pelo sequestro de dois profissionais de MSF em Bakool em abril de 2009. A organização está contente com o desfecho positivo, com a ajuda da comunidade, do incidente.

No entanto, após os sequestros e outros episódios sérios, registrados nos últimos anos, MSF não pode mais oferecer assistência médica de qualidade de forma segura para as pessoas que vivem em Bakool.

Durante os últimos meses, MSF conduziu o projeto a distância, complementando o trabalho com visitas curtas da equipe internacional de suporte técnico. Com os sequestros, a possibilidade dessa forma de trabalho caiu por terra.

"Com as imensas necessidades de Bakool e outras regiões, nós continuamos a trabalhar sob circunstâncias difíceis. Mas, infelizmente, agora temos que aceitar que os riscos lá atingiram níveis inaceitáveis", disse Jerome Oberreit, diretor de operações em MSF.

MSF espera que, apesar da sua saída, a população de Bakool encontre caminhos para atenuar a perda dos serviços oferecidos pela organização, e que reconheça o quanto a equipe somali de MSF se esforçou nos últimos nove anos.

As atividades da organização em Bakool incluem o Centro de Saúde de Xuddur – o maior local de internação nas regiões sul e centro da Somália – e quatro postos de saúde afastados em Labatan Jirow, Ceel Garas, El Berde e Rabdure.

Durante os nove anos do programa, o Centro de Saúde de Xuddur se expandiu de um único centro de alimentação para desnutridos para um centro de saúde completamente funcional, com capacidade para 278 leitos, e 157 funcionários recebendo treinamento contínuo.

Desde 2002, o Centro de Saúde de Xuddur e os outros postos ofereceram 272.700 consultas, e ocorreram 11.075 admissões ao Centro. Desses, 3.314 foram tratados para calazar e 945 para tuberculose. Além disso, 1.913 crianças severamente desnutridas foram tratadas.

Nos últimos 14 meses, MSF foi forçada a fechar quatro projetos devido à crescente insegurança, incluindos sequestros e ataques fatais contra a equipe na Somália. A continuidade das atividades médicas gratuitas oferecidas pela organização nas regiões de Banaadir, Bay, Galguduud, Hiiraan, Jubbada Hoose, Shabeellaha Dhexe, Shabeellaha Hoose e Mudug dependerá da capacidade das comunidades e autoridades em oferer condições para prevenir incidentes que envolvam as equipes e unidades médicas de MSF.

Desde Janeiro de 2008, os projetos de MSF nas regiões sul e centro da Somália foram conduzidos pela equipe somali, com suporte da equipe internacional baseada em Nairóbi, que visita essas áreas sempre que a situação de segurança permite. O comprometimento, o trabalho árduo e a bravura dessa equipe somali permitiram que MSF fosse capaz de continuar a oferecer assistência médica para centenas de milhares de somalis, durante 2008.

Em 2008, as equipes de MSF ofereceram 727.428 consultas, sendo 267.168 para crianças menores de cinco anos. Mais de 55 mil mulheres receberam consultas pré-natal e mais de 24 mil pessoas foram internadas em hospitais e clínicas a que MSF dava suporte. Foram realizadas 3.878 cirurgias, sendo 1.249 por ferimentos causados por violência. Equipes médicas trataram 1.036 pessoas sofrendo de calazar, uma doença negligenciada fatal, mais de quatro mil casos de malária e iniciaram 1.556 pessoas no tratamento para tuberculose. Quase 35 mil pessoas sofrendo de desnutrição receberam alimento e assistência médica, e 82.174 vacinas foram aplicadas.

MSF atua na Somália desde 1991.

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