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Epidemia de Ebola: médico brasileiro fala sobre sua experiência com a doença

21/08/2014
Profissional experiente de Médicos Sem Fronteiras, Paulo Reis é referência no tratamento do vírus

Médico generalista, o carioca Paulo Reis tem 42 anos e integra o primeiro grupo de profissionais recrutados pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Brasil para trabalhar no exterior. Com a organização desde 2005, participou de 17 projetos em países como Afeganistão, Colômbia, Guiné, Indonésia, Libéria, Líbia, Paquistão, Serra Leoa, Somália, Sudão, Sudão do Sul e Uganda. Além disso, em 2007, ele atuou no projeto de saúde primária e emergência de MSF no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, Paulo se tornou uma referência na organização quando o assunto é Ebola, tendo trabalhado em Uganda, durante o surto de 2012, e na epidemia que, atualmente, afeta a Guiné, a Libéria e Serra Leoa, de onde ele voltou recentemente. Nessa entrevista, o médico fala das dificuldades de trabalhar no combate à doença.

Você esteve na Guiné pouco depois de declarada a epidemia, entre março e maio, e em Serra Leoa em julho. Quais as diferenças e semelhanças entre as respostas nos dois países?
A estrutura é bastante similar; a diferença foi o tamanho dos projetos. Em Serra Leoa, havia muito mais casos. Na Guiné, como havia poucos casos, era possível trabalhar em diversas frentes, realizando diferentes atividades, como procurar casos suspeitos e sensibilizar a população. Quando cheguei a Serra Leoa, o surto tinha se espalhado e o desafio era ter profissionais em número suficiente para atender todos os pacientes, porque já estávamos com o surto na Libéria também. Tivemos que nos concentrar no centro de tratamento e, como a equipe de sensibilização não era tão grande, não pudemos fazer a parte do contato, de procurar pacientes. Então, teve esse problema: maior número de paciente e menos capacidade de reação. Esse problema persiste. Outras organizações com a capacidade de promover a educação e a conscientização de saúde nas comunidades precisam intensificar suas atividades para que o surto seja controlado.

Qual foi o cenário que você encontrou em Kailahun (Serra Leoa)?
Embora seja a capital de um distrito, a urbanização é bastante limitada. A maior parte da eletricidade vem de gerador, e a água é de poço. As ruas são de terra. É uma área de floresta e, a partir dali, há centenas de vilas, a algumas horas de distância. Para se chegar a alguns desses vilarejos, o acesso é bastante difícil até para os carros que nós usamos, que são próprios para esse tipo de terreno. Às vezes, a gente não consegue chegar a um determinado vilarejo porque não tem passagem. É uma população muito dispersa. Quando eu cheguei, não fazia nem uma semana que o centro [de tratamento de Ebola] tinha sido aberto. Ainda era uma situação de construção, organização, havia muitos pacientes e alguns ainda precisavam ser testados.

Como é a relação de MSF com a população?
A população que já foi afetada, que conhece alguém que tenha sido ou esteja sendo tratado, geralmente aceita muito bem. Apesar de ter uma mortalidade alta, as pessoas que sobrevivem à doença costumam dar uma resposta positiva muito boa. Infelizmente, a população que ainda não conhece a gente ou que está começando a ser afetada agora, tem uma desconfiança muito grande. Isso é assim até você ir até lá, conversar e explicar o que é a doença, o que acontece quando os sintomas aparecem, o que é feito com as pessoas dentro do centro de tratamento, o que a gente está fazendo lá e tudo mais.

Como vocês são notificados da doença?
Quando uma pessoa tem o sintoma, tem que avisar o centro de saúde pessoalmente ou por telefone – existem dois números específicos para isso. Então, o Ministério da Saúde de Serra Leoa manda uma ambulância para buscar a pessoa, que é trazida para o nosso centro, onde vai passar por uma triagem. Se ela realmente for um caso suspeito, o pessoal já vai buscá-la vestidos com a roupa protetora, fazem a internação na tenda de suspeitos e tiram seu sangue para encaminhar para teste no laboratório. Se for negativo e ela já tiver com os sintomas há dias, certamente é outra doença – malária, por exemplo – e a pessoa recebe alta. Se for positivo, ela é transferida para a parte de casos confirmados e ficará ali até que seja curada ou venha a óbito.

Um dos momentos em que mais se transmite a doença na região é durante os funerais. Como está o trabalho junto aos líderes religiosos?
Em geral, se você conversa e explica a essas pessoas o que está acontecendo, a resposta e a aceitação são boas. O problema é começar a fazer uma atividade sem falar com elas primeiro. É claro que isso gera um confronto, especialmente se você estiver falando de um imã, líder religioso muçulmano, um padre ou outro líder de um vilarejo um pouco mais afastado. Se você passar por cima dessas pessoas, é evidente que elas vão lhe confrontar. Mas explicamos o que fazemos e, na grande maioria das vezes, elas ficam do nosso lado.

O que eles podem continuar fazendo nos funerais?
A gente pode continuar colocando um pano branco no corpo. Dá pra mostrar a pessoa que morreu. O ideal é enterrar as pessoas que morrem com o vírus o mais rápido possível para evitar qualquer risco, mas se o ritual diz que precisa esperar uma noite, tudo bem, desde que tenha sido feita a desinfecção do corpo e ele tenha sido colocado na proteção –o corpo precisa ser colocado em um saco mortuário, normalmente duplo, para garantir que não haja vazamento de fluidos corpóreos.

E como as equipes de Médicos Sem Fronteiras preparam o corpo?
Basicamente, a gente tem que pulverizar com o cloro. Uma vez que a pessoa faleceu, a gente pode usar o cloro na concentração 0,5%, muito mais forte do que o cloro com concentração 0,05% usado para lavar as mãos e os objetos tocados pelas pessoas infectadas. Se quando a pessoa falece ela está vestida, tentamos não tirar a roupa, que vai dentro do saco junto com o corpo. É claro que se a família quiser, a gente coloca alguma coisa, um pano, uma flor...  Depois, ainda tem a esterilização da parte externa do saco. Os enterros são supervisionados por profissionais de saúde.

O que foi mais difícil pra você?
O maior desafio é tentar oferecer o melhor tratamento sem ter muitos recursos pra isso. É muito difícil ter de lidar com os pacientes com tanta limitação. Limitação de trabalhar fora de uma estrutura de hospital, de tempo com o paciente, porque não conseguimos ficar muito tempo com a roupa que é muito quente, de estrutura para fazer exames laboratoriais.  É muito complicado fazer exames. Não podemos levar equipamentos para dentro do centro porque não dá para levá-los para nenhum outro local depois.

Não tem como higienizar o equipamento?  
Não se deve assumir esse tipo de risco. A possibilidade de ter uma infecção por um objeto que tenha sido limpo é muito pequena, mas ninguém quer correr esse risco.

Então, qualquer equipamento que é levado para a área de risco é incinerado?
Tudo menos as tendas, que serão totalmente pulverizadas com cloro por dentro e por fora e depois deixadas um dia inteiro para secar no sol. Mas as macas, estruturas de madeira, estetoscópios, aparelhos de medir pressão, termômetros, todo o resto vai ser queimado.

Você só usa um termômetro por paciente e queima?
Um por paciente. O tipo de termômetro que a gente está usando é bastante resistente, você pode colocar dentro do cloro e tirar. Mas, em geral, a gente usa um termômetro por paciente e com uma cobertura descartável. É um plástico que você coloca e depois joga fora. Vai trocando o plástico e queima o termômetro quando o paciente for embora. Mas temos que ser realistas:, pode não haver termômetros suficientes e, nesse caso, temos que colocá-los no cloro e deixar secar no sol para usar com o próximo paciente.

Tem um tempo pra deixar no cloro ou é só um banho?
É só um banho. O vírus Ebola fora do corpo humano é muito frágil. É um vírus com uma capa de gordura muito frágil. Até água e sabão o matam. Então o contato com o cloro o destrói rapidamente.

E a estrutura de ambulâncias?
MSF não tem ambulância em Serra Leoa. Quem está fazendo o serviço de ambulância é o Ministério da Saúde, mas elas não são suficientes. Às vezes, chega uma ambulância com sete pessoas, o que não deveria acontecer, porque algumas, talvez, estejam infectadas e outras não. Essa não é a melhor forma, mas eles não têm ambulâncias suficientes, então, estão tentando trabalhar da melhor forma possível. Toda vez que a ambulância deixa um paciente, ela vai para o lado de trás do centro e o pessoal com roupa completa de proteção a desinfeta.

Tem alguma história de paciente que tenha te marcado?
Tem sempre uns pacientes que a gente lembra mais. Algumas histórias mais felizes, outras nem tanto. Teve uma criança que a gente chamava de “bebê na caixa”, porque os pais morreram e ela ficou sozinha. Arranjamos uma caixa de gerador, a forramos, colocamos alguns brinquedos ali e o bebê ficava na caixa. Uma menina de um ano e meio mais ou menos. Isatta é o nome dela.

E não tinha mais ninguém da família?
Morreram pai, mãe e avó e, até o momento em que eu saí de lá, não tinham encontrado mais ninguém da família. Estavam tentando encontrar. Ela ficou doentinha por um tempo, mas começou a se recuperar. Então, quando se recuperou, conseguiu sair da caixa, tentou escapar do isolamento, forçando a passagem por baixo da cerca, porque ela é pequenininha. Saiu todo mundo desesperado, gritando. Ela não entendeu muito, mas voltou. Ela já tinha tentado isso antes. Depois, fez amizade com outras crianças mais velhas, oito, nove anos, e as próprias crianças passaram a cuidar dela. Quando eu saí de lá, o último exame dela estava ótimo, com uma carga viral muito baixa, praticamente pronta para sair mesmo. Eles iam testá-la novamente para dar alta, mas com certeza ela se curou.

Depois da alta, ela será levada para onde?
A organização Save the Children está atuando lá e estavam tentando encontrar a família da menina.

Você se sentiu muito desgastado física e psicologicamente?
O aspecto físico fica debilitado porque trabalhamos muitos dias, muitas horas por dia. E tem todo o preparativo para ficar na área de isolamento. É preciso estar muito atento a todos os detalhes. Dentro da roupa chega a fazer mais de 40 graus. Desidrata um pouco. Eu sempre fui magrinho, então é difícil perder peso, mas algumas pessoas perdem bastante. Também é complicado do ponto de vista psicológico. Não é fácil assistir a tanta gente morrendo. O apoio da equipe e os pacientes que sobrevivem é que nos dão força.

As pessoas têm medo de chegar perto de vocês?
Não. Em geral, nós somos os que menos correm riscos por causa da proteção que a gente usa. Já teve caso de enfermeiro que foi lá saber se tinha vaga e quando a gente faz a entrevista e pergunta “Por que você quer trabalhar aqui?”, a resposta é “Porque aqui ninguém fica doente, ninguém é infectado”. Eles sabem que a gente se protege muito.

Existe alguma orientação para vocês evitarem se tocar? Funciona só para o centro de tratamento ou é todo o tempo?
Não apertamos a mão de ninguém em nenhuma situação. Dependendo de onde vamos, pulverizamos os pés com cloro. A orientação de não ter o contato físico não é só por causa do Ebola, porque o risco de se pegar o vírus por um aperto de mão é muito pequeno. E se a pessoa não estiver doente não vai ter risco algum. A precaução é também para não pegarmos uma gripe, uma infecção comum, que vai dar febre, sintoma que indica a infecção com Ebola. Então, é uma precaução dupla, já que ajuda na prevenção contra o Ebola e evita o estresse entre pessoas da equipe, que ficariam preocupadas se alguém tivesse com febre.

Qual o seu maior temor no que diz respeito à epidemia?
Meu receio é o de que a resposta internacional continue inadequada e que a epidemia continue se expandindo por muito mais tempo.

E em relação a sua saúde e segurança, você sente medo?
Não sinto medo. Basta seguir todos os protocolos e tomar todas as precauções estabelecidas por Médicos Sem Fronteiras para evitar o risco de contaminação.