Ebola: “Aquele pequeno caixão rosa ficou na minha memória”

Martina Marchiò, enfermeira de MSF, faz relato comovente sobre a situação trágica de comunidades impactadas pelo surto de Ebola na República Democrática do Congo

Caixões vazios à venda em uma estrada na cidade de Bunia, na República Democrática do Congo. ©Kristen Poels/MSF

A enfermeira Martina Marchiò trabalha com Médicos Sem Fronteiras (MSF) desde 2017. Atualmente, ela está na República Democrática do Congo, onde integra a equipe que ajuda a conter o surto de Ebola, e também assumiu a posição de diretora-adjunta de MSF-Itália. 

Outro dia, enquanto estávamos dirigindo, meus olhos se depararam com um minúsculo caixão rosa. Aqui, é comum ver caixões à beira da estrada, expostos lado a lado, em todas as cores e tamanhos. Grandes, pequenos, simples, coloridos. Prontos para serem vendidos.

Era tão pequeno que quase parecia um brinquedo. Pensei que, mais cedo ou mais tarde, uma criança seria colocada nele. Aquele pequeno caixão rosa ficou na minha memória desde então. 

 

Não são números, mas pessoas 

Já se passaram mais de três meses desde que o surto de Ebola foi declarado na República Democrática do Congo. Mais de 6 mil casos confirmados. Mais de 3 mil pessoas mortas. Números que, lidos assim, parecem quase irreais e correm o risco de se tornarem meras estatísticas.

Mas por trás de cada número há um nome. Um lar. Uma mãe. Um pai. Uma criança. Uma família esperando por alguém que nunca mais voltará. 

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Continuamos lavando as mãos. Uma vez. Duas vezes. Dez vezes. Inúmeras vezes. Antes de entrar, depois de sair, depois de tocar em algo, depois de falar com alguém. E, ainda assim, mesmo quando nossas mãos estão limpas, permanece a sensação de que ainda estamos marcados. 

Marcados pelo medo, pelo que vimos, pela percepção de que basta um erro, um toque, um momento de distração para que o vírus entre em nossas vidas. 

Dentro do traje de proteção amarelo, você sua – muito. O calor se torna sufocante, respirar fica difícil, as luvas grudam nas mãos até se tornarem como uma segunda pele. Cada gesto deve ser preciso; cada movimento, controlado.

Toda vez que entramos na área de alto risco, sabemos que não estamos simplesmente usando equipamento de proteção: estamos tentando nos proteger enquanto tentamos salvar outra pessoa. 

Martina Marchiò, enfermeira de Médicos Sem Fronteiras, e um colega usam equipamento de proteção individual (EPI) enquanto trabalham em Ituri, em resposta ao surto de Ebola, na República Democrática do Congo. ©MSF

 

O verdadeiro significado da doença do Ebola 

É difícil expressar em palavras o que a doença do Ebola realmente significa. O que eu sei é que não se trata apenas de um vírus. É o terror nos olhos de uma pessoa doente. É a distância que de repente se torna necessária, mesmo entre uma mãe e seu filho. É uma família que não pode mais abraçar seus entes queridos. É um telefonema feito sabendo que pode ser o último. 

Jean Louis tinha 64 anos. Era professor e fazia parte de uma linda família. 

Sua esposa faleceu primeiro; o vírus se transmitiu a ele e às duas filhas. Então vieram os dias de doença: diarreia, fraqueza, seu corpo cedendo lentamente e, por fim, sangramento. 

Naquele momento, Jean Louis percebeu que iria morrer.”

Ele pediu que carregassem seu celular. Queria se despedir da família, colocar seus assuntos em ordem e dizer as coisas que talvez nunca tivesse imaginado que teria de dizer tão cedo. 

Então, ligou para as netas. Elas também tinham testado positivo e estavam no quarto ao lado. Ele se despediu. Poucas horas depois, faleceu. 

Alguns dias depois, sua filha mais nova também faleceu. Ela tinha apenas 20 anos. Vinte anos.

Nessa idade, a vida deveria ser feita de sonhos, amor e planos para o futuro. 

A doença do Ebola mata cerca de metade das pessoas que a contraem. Entre os mais vulneráveis estão os jovens, os idosos e as mulheres grávidas.  

Quando você vê uma jovem morrer, desabando no chão, todas as estatísticas desaparecem. Isso aconteceu há alguns dias: ela era jovem, jovem demais. Naquele momento, não havia mais porcentagens, números, gráficos ou comunicados à imprensa – apenas uma vida chegando ao fim. 

 

A vida não para durante uma epidemia 

Enquanto tentamos conter o vírus, as pessoas continuam vivendo – acompanhadas pelo medo do vírus. Você continua se movimentando, trabalhando, indo ao mercado, levando as crianças à escola e cuidando da comida e da água. 

Porque, mesmo durante uma epidemia, a vida não para. E, de longe, essa talvez seja a coisa mais difícil de entender. 

A República Democrática do Congo não se resume apenas à doença do Ebola. É um país vasto, com comunidades que já suportaram anos de violência, instabilidade e dificuldades. Em muitas áreas, a confiança é frágil e o medo pode se transformar em desconfiança muito rapidamente. 

 

A confiança é fundamental 

Convencer alguém a ir a um centro de tratamento, a ficar isolado, a se deixar cuidar por alguém vestindo um traje de proteção amarelo e uma máscara – uma figura que mal parece humana – não é tarefa fácil. 

É por isso que a resposta a uma epidemia não pode ser puramente médica. Precisamos de pessoas, recursos, disposição para ouvir e confiança. Precisamos de equipes capazes de entrar nas comunidades e ficar ao lado das pessoas. Precisamos de instalações, suprimentos, treinamento, apoio psicológico, prevenção e comunicação. 

Nós, de MSF estamos aqui exatamente por esse motivo: para tratar, proteger, treinar, apoiar e ajudar a conter essa epidemia. 

Mas nenhuma organização pode fazer isso sozinha. 

O mundo inteiro deveria estar falando sobre a República Democrática do Congo.” 

O mundo inteiro deveria estar falando sobre este surto de Ebola. Não para alimentar o pânico, mas para conscientizar. Não para transformar o sofrimento em imagens para serem consumidas rapidamente, mas para inspirar empatia e solidariedade com as pessoas que estão vivendo este surto. 

Precisamos de fundos e recursos para continuar tratando as pessoas, protegendo os profissionais de saúde, prevenindo novas infecções e alcançando as comunidades mais remotas. 

 

Não vamos deixar que eles se tornem meros números 

Esses mais de 6 mil casos confirmados são mais de 6 mil histórias individuais. Essas mais de 2.900 mortes são mais de 2.900 pessoas que deixaram saudades. Pessoas que amaram, trabalharam, sentiram medo e alegria, fizeram planos, criaram filhos e imaginaram o futuro. 

Não vamos deixar que se tornem meros números. 

Continuo lavando as mãos, colocando luvas e suando dentro daquele traje de proteção amarelo. Continuo sentindo que, por mais que me proteja, nunca estou totalmente segura. 

E continuo pensando naquele pequeno caixão rosa à beira da estrada. 

Me pergunto quantos mais veremos. 

Quantas crianças. 

Quantas mães. 

Quantos pais. 

Quantos Jean Louis. 

Quantas meninas jovens demais. 

Mais de três meses desde o início do surto de Ebola já é tempo demais. E essa epidemia não pode ser apenas problema de nós que estamos aqui. 

É necessária uma resposta coletiva internacional. Todos nós somos necessários. Agora. 

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