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Descobrindo o Ebola: psicóloga supera medos ao atuar no combate à doença em Serra Leoa

02/03/2015
A brasileira Renata Bernis estruturou a primeira equipe de saúde mental do centro de tratamento de Ebola de MSF em Kissy

Foto: MSF

Em meio ao pouco que ainda se sabe sobre o Ebola, é o medo que se sobressai. Com a psicóloga da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) Renata Bernis, não foi diferente. O medo da contaminação pelo vírus de alta taxa de mortalidade a manteve afastada de projetos nos países da África Ocidental afetados pela doença até janeiro deste ano, quando, após receber treinamento intensivo, ela aceitou trabalhar em Serra Leoa.

Renata passou um mês atuando no novo centro de tratamento de Ebola (CTE) da organização em Kissy, inaugurado no começo de 2015, nos arredores de Freetown, capital do país. De início, suas expectativas não eram das melhores, mas a realidade encontrada ali trouxe algum alívio. “Diferentemente do que era transmitido pela imprensa no começo da epidemia, talvez porque agora o número de casos tenha se reduzido, o cenário já não era mais tão caótico. Ainda assim, fiquei chocada quando vi um corpo sendo removido no meio da rua. Com o tempo, a gente entende melhor as necessidades e os processos envolvidos no combate à doença”, conta. Os primeiros momentos no projeto, no entanto, foram extremamente desafiadores e de superação. “Mesmo com rígidos procedimentos de segurança, eu ainda sentia medo, queria lavar as mãos, tomar banho a toda hora. Achei durante vários dias que estava com febre, e, na verdade, não estava”, explica Renata. Hoje, quando relembra o episódio, ela se diverte: “É quase como se eu tivesse tido Ebola psicológico!”.

A responsabilidade de Renata foi contratar, treinar e supervisionar uma equipe de saúde mental que atuaria no suporte a pacientes internados no centro de tratamento e suas famílias, além de atender também os sobreviventes do vírus. Ela foi a primeira profissional dessa área no CTE de Kissy. “Foi um grande desafio, porque tive de começar do zero. Foi um mês de treinamento intenso com os profissionais nacionais”, conta. Mas sua experiência anterior com MSF, em países como a Chechência, onde passou 11 meses, e a Cisjordânia, contribuíram para que ela tivesse as ferramentas necessárias para desenhar a estratégia de atuação de sua equipe de saúde mental.  “Com o tempo, eles foram adquirindo confiança. A única frustração foi ter montado e capacitado uma grande equipe justamente no momento em que os casos da doença diminuíam drasticamente, apesar de essa ser uma ótima notícia”, conta.

Renata pôde acompanhar diversas histórias de superação e também de sofrimento, como quando se deparou com as consequências da quarentena forçada, medida de segurança adotada pelo governo de Serra Leoa no combate ao surto. “Houve um caso de um paciente de 10 anos que recebeu alta, mas não havia ninguém para buscá-lo, pois sua casa estava isolada. Fomos levá-lo até lá e quando chegamos, guardas não deixaram que ele entrasse. Tivemos de negociar para que essa criança, enfim, voltasse para seus pais”, relembra.

Além desse paciente, muitos outros também marcaram a passagem de Renata pelo projeto, como um bebê de um ano e meio que se curou. A equipe médica de MSF comunicou que o menino tinha poucas chances de vida, e então Renata começou a fazer um acompanhamento para preparar a família. “A mãe era muito jovem, e depois de muita conversa, ela passou a visitar a criança duas vezes ao dia no centro de tratamento, o que não é comum por aqui, já que as mães delegam a criação dos filhos pequenos para as avós. Foi muito emocionante observar a participação dela na recuperação da criança e, mais ainda, quando ele testou negativo para o vírus”.

Ela conta que, enquanto esteve no projeto, assistiu cerca de 40 pessoas, entre casos confirmados e suspeitos, no CTE de Kissy. Desde sua inauguração até o começo de fevereiro, o centro admitiu 61 pacientes. Alguns continuaram sendo tratados, outros já estavam de saída, e muitos não escaparam com vida. Renata pôde acompanhar a batalha de sete pessoas que receberam alta, mas sabe que, com a epidemia ainda em curso e o estigma associado à doença, não se pode descuidar. E ela hoje, depois dessa experiência, aceitaria se juntar novamente às equipes em campo sem hesitar.