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COVID-19 e constante incerteza assombram comunidades deslocadas nas Filipinas

17/07/2020
Pessoas sofrem com falta de água e condições precárias de abrigos em Marawi, no sul do país
COVID-19 e constante incerteza assombram comunidades deslocadas nas Filipinas

Foto: MSF

Quando o número de casos confirmados de COVID-19 começou a aumentar em março, as Filipinas rapidamente adotaram medidas rigorosas de quarentena comunitária. Em julho, já não havia transmissão local em Marawi, no sul do país, mostrando como essas medidas parecem ter contribuído para conter a doença. No entanto, elas também afetaram os meios de subsistência dos moradores, principalmente as pessoas deslocadas que vivem nos arredores da cidade, a única com maioria muçulmana nas Filipinas, um país predominantemente católico.

“Desde o início da emergência de saúde pública, os moradores de Marawi seguiram as medidas de proteção com muito rigor, com a esperança de que a quarentena da comunidade fosse suspensa quando o Ramadã se aproximasse”, diz Chika Suefuji, coordenadora do projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) na cidade.

“No entanto, a quarentena da comunidade continuou e as pessoas não puderam ir à mesquita, que é uma das práticas mais importantes durante o Ramadã. Algumas pessoas ficaram compreensivelmente chateadas ao saber que seria diferente este ano. Alguns questionaram essa decisão, uma vez que apenas alguns casos de COVID-19 foram relatados na região. Discutimos isso com a comunidade e líderes religiosos, explicando como o vírus se espalha. Eles entenderam bem e fizeram uma declaração pedindo às pessoas que seguissem as medidas de proteção. Essa abordagem ajudou a disseminar informações precisas e convenceu um número maior de moradores a seguir o isolamento social. No geral, as pessoas respeitaram para proteger suas famílias e a comunidade, e isso ajudou a conter o vírus.”

Embora a pandemia de COVID-19 até agora não tenha atingido gravemente a região, ela acrescentou problemas extras ao povo de Marawi. Durante a quarentena, por exemplo, as consultas médicas nas unidades de saúde foram suspensas. Outra questão desafiadora é conter a propagação do vírus sem acesso à água limpa.

Pacientes que sofrem de doenças crônicas e não transmissíveis, como hipertensão ou diabetes, são especialmente vulneráveis ao vírus. As equipes de MSF realizaram visitas domiciliares para garantir que continuassem a receber seus medicamentos e forneceram material explicativo de como proteger suas famílias da contaminação pelo novo coronavírus.

Cerco à cidade e busca por mais autonomia

A cidade de Marawi foi sitiada em maio de 2017 por um grupo relacionado ao Estado Islâmico (EI) que tentou assumir o seu controle, o que acabou gerando um conflito entre esse grupo e o exército filipino. O cerco durou cinco meses e forçou cerca de 370 mil pessoas a fugir de suas casas. Mais de três anos depois, partes da cidade ainda estão em ruínas. Cerca de 70 mil pessoas continuam vivendo em condições precárias em abrigos temporários e estima-se que outras 50 mil estejam morando nas casas de outros membros da família. Todos eles têm lembranças ainda vivas do cerco. Ajibah Sumaleg, 34 anos, lembra que sua família teve de fugir de casa com apenas alguns dias de aviso prévio e voltou para encontrá-la destruída cinco meses depois.

Cerca de 200 mil pessoas vivem em Marawi, localizada na região autônoma de Bangsamoro, no estado muçulmano de Mindanau (BARMM). A região está atualmente em transição para aumentar sua autonomia em relação às Filipinas, mas luta contra os indicadores econômicos e de saúde mais fracos do país. Desde o final do cerco em outubro de 2017, houve surtos de sarampo, dengue e poliomielite.

Antes do cerco, a situação política na região já era instável, com conflitos regulares entre vários grupos armados. No entanto, as pessoas esperam que mudanças políticas tragam estabilidade e prosperidade a longo prazo.

Inicialmente, as pessoas deslocadas receberam tendas, até a construção dos centros de evacuação e abrigos temporários. As últimas famílias só se mudaram das tendas para abrigos em janeiro de 2020. Para Sobaida Comadug, de 60 anos, que perdeu seu marido morto de ataque cardíaco quando a cidade foi sitiada, os abrigos não são muito melhores do que as tendas. “Disseram que os abrigos seriam construídos para durar cinco anos. Você acha que o governo construirá um abrigo mais duradouro? Não!" Ela passou toda a sua vida em Marawi e descreve os desafios diários que as pessoas deslocadas enfrentam.

Falta água, os abrigos temporários estão longe dos mercados e a comida é cara. Todos esses fatores levam as pessoas a comer refeições prontas, enquanto os médicos recomendam alimentos saudáveis para complementar o tratamento de doenças crônicas e não transmissíveis. "É mais difícil cozinhar refeições saudáveis. Estamos longe dos fornecedores de frutas e vegetais e, mesmo que pudéssemos comprar, não temos água limpa para lavá-los", diz Sobaida.

O acesso limitado à água potável cria dificuldades. Chika Suefuji, coordenadora do projeto de MSF, diz: “As condições de vida das pessoas são preocupantes. Caminhões de água salvam vidas, mas é apenas uma medida temporária, em oposição a uma solução de longo prazo. Espero que a situação das pessoas deslocadas internamente em Marawi e Lanao del Sur seja conhecida e isso leve a um futuro melhor para elas.”

Durante a quarentena da comunidade em abril e maio, as pessoas tiveram decisões difíceis a tomar, já que a maioria não conseguiu trabalhar: tinham que decidir se deveriam usar seu dinheiro para a alimentação ou para cuidados de saúde de um membro da família que estivesse doente.

Mesmo antes da quarentena, já era difícil obter assistência médica. Apenas 15 das 39 unidades de saúde de Marawi e arredores estavam funcionando. As outras foram destruídas ou não puderam reabrir. MSF reabilitou quatro centros de saúde após o cerco para apoiar as comunidades e começou a fornecer água potável e serviços de saúde mental.

As doenças não transmissíveis foram responsáveis por 41,5% das mortes na região BARMM em 2015. Hipertensão e diabetes estão entre as dez doenças mais prevalentes. Atualmente, MSF apoia três centros de saúde na área, oferece assistência à saúde mental, trata as doenças não transmissíveis e fornece medicamentos gratuitos.

Para Janoa Manganar, líder da equipe médica de MSF, é fundamental para o povo de Marawi, especialmente pacientes que sofrem de doenças não transmissíveis, que a disseminação do novo coronavírus permaneça sob controle. “Nas Filipinas, as atividades de vigilância e rastreamento de contatos de COVID-19 também são realizadas no nível da comunidade. MSF começou a treinar equipes em todos os 72 distritos da cidade de Marawi sobre como conduzir vigilância e rastreamento de contatos e como compartilhar informações relacionadas à prevenção da COVID-19, quarentena domiciliar e saúde mental, juntamente com a autoridade sanitária local.”

As pessoas que vivem em Marawi enfrentam um futuro incerto. A reabilitação da área no centro da cidade, que foi destruída durante o cerco, continua a ser um desafio devido à presença de restos de guerra, como material bélico que não explodiu. Muitos ainda esperam que mudanças políticas representem um futuro melhor. No entanto, a realidade é que, quase três anos após o final do cerco, muitas pessoas ainda estão deslocadas de suas casas, vivendo em abrigos temporários ou nas casas de parentes, sem saber quanto tempo isso vai durar.

O cerco e a pandemia aumentaram as preocupações das pessoas em Marawi, diz Sarah Oranggaga. Ela foi forçada a morar com os irmãos novamente depois de ter desistido de sua pequena loja. Ela diz: "Estou bem por enquanto, e apenas aceitamos como estão as coisas e, lentamente, vamos superar isso".

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