A vida das pessoas em Moçambique precisa estar nas manchetes

Em Histórias de MSF, Sebastián T., coordenador de operações de MSF, relata o que testemunhou em Cabo Delgado, que já enfrenta oito anos de conflitos armados

Acampamento de Nandimba, na província de Cabo Delgado, onde famílias deslocadas pela violência vivem, em Moçambique. ©Igor Barbero/MSF

Quando Bernardo e sua esposa, Alima, fugiram de sua comunidade natal, não levaram quase nada com eles. Queriam apenas descobrir o que acontececom as duas filhas, que tinham 6 e 9 anos de idade quando homens armados as sequestraram em 2020. Durante anos, o casal não teve notícias das filhas. Recentemente, um sobrevivente que escapou do cativeiro lhes trouxe a informação de que elas ainda estavam vivas. Pensar nisso o tempo todo, não resolve nada, diz Bernardo às nossas equipes em Mueda. A família está vivendo em um acampamento para pessoas deslocados desde outubro de 2025 e não sabe se voltará a ver suas filhas algum dia. 

Oito anos após o início do conflito em Cabo Delgado, o medo e a incerteza são uma realidade diária para centenas de milhares de pessoas nesta província do norte de Moçambique. Enquanto a atenção internacional se concentra na reabertura de grandes projetos energéticos e na segurança em torno dos recursos da província, as pessoas que vivem esta crise pouco divulgada permanecem fora dos holofotes. 

De acordo com os dados da ACLED (Dados sobre Localização e Eventos de Conflitos Armados) e da Organização das Nações Unidas (ONU), desde outubro de 2017, mais de 6 mil pessoas foram mortas e mais de 1 milhão, cerca de um terço da população de Cabo Delgado, foram forçadas a abandonar as suas casas e metade delas ainda continuam deslocadas.

Desde o final de julho de 2025, Cabo Delgado tem vivido níveis devastadores de violência. O último ano foi o mais violento registado, em termos de números e frequência dos incidentes de segurança. Mais de 500 ocorreram nos primeiros oito meses de 2025, incluindo assassinatos brutais, sequestros, saques e incêndios. Os ataques atingiram a maioria dos distritos da província de Cabo Delgado e espalharam-se para as províncias vizinhas de Nampula e Niassa. 

 

As famílias geralmente fogem com pouco mais do que as roupas que têm no corpo. Mas carregam um pesado fardo de medo, exaustão e trauma.”

– Sebastiáan T., coordenador de operações de MSF

Para muitas pessoas, não é a primeira vez que são obrigadas a sair de suas residências. Algumas estão regressando aos mesmos acampamentos onde procuraram refúgio durante os ataques mortais de 2020 e 2021. As famílias geralmente fogem com pouco mais do que as roupas que têm no corpo. Mas carregam um pesado fardo de medo, exaustão e trauma. 

O acampamento para pessoas deslocadas de Lianda é a casa de Bertina Ernesto há três anos, apesar das dificuldades crescentes. A comida é limitada. A lona plástica que cobre o abrigo está tão danificada que a chuva entra. A água é escassa, e Bertina pode levar até três dias para conseguir apenas 40 litros, o que não é suficiente nem mesmo para um dia para a sua família de nove pessoas. 

Na sua comunidade natal, em Nangade, Bertina costumava colher uma dúzia de sacos de castanha de caju por ano. Era suficiente para sustentar toda a família e construir uma casa com um poço de água privado. Depois da comunidade ter sido atacada, apenas o poço permanece. 

Bertina Ernesto, de 40 anos de idade, aparece em frente à sua casa no acampamento de Lianda, próximo à cidade de Mueda, na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. ©Igor Barbero/MSF

Bertina não está sozinha nesta experiência. Muitas pessoas contam às nossas equipes que viram as suas casas serem incendiadas, empreendimentos destruídos; deixaram para trás terras agrícolas e pertences; perderam entes queridos. E, embora agora encontrem uma sensação de segurança nos acampamentos para pessoas deslocados, a saúde física e mental delas continua ameaçada. 

Anos de conflito enfraqueceram gravemente o já frágil sistema de saúde no norte de Moçambique. Ciclones severos, como o Chido no final de 2024, atingem regularmente a região e adicionam outra camada de complexidade a este país vulnerável ao clima. Várias unidades de saúde foram destruídas ou abandonadas, enquanto outras funcionam com equipe e provisões mínimas. Profissionais de saúde, compreensivelmente, estão muitas vezes entre quem foge após ataques. Isto significa que o sistema de saúde, já sobrecarregado, carece de recursos importantes. 

Em alguns distritos, a cobertura vacinal contra o sarampo permanece perigosamente baixa. Mulheres grávidas frequentemente dão à luz em casa porque é inseguro deslocar-se, já que os centros de saúde estão fechados ou simplesmente não têm meios para os alcançar. O tratamento para a infecção por HIV e para a tuberculose, que requer monitoramento e acompanhamento regular, é repetidamente interrompido quando a violência aumenta, deixando milhares de pessoas em risco de doenças graves e resistência aos medicamentos. 

Organizações humanitárias, incluindo Médicos Sem Fronteiras (MSF), enfrentam desafios crescentes para alcançar as pessoas que mais precisam. Clínicas móveis são rotineiramente suspensas devido à insegurança. Quando a violência aumenta, programas inteiros de saúde, desde cuidados de emergência a ações comunitárias, são forçados a parar. 

Apelamos por uma resposta coordenada em Moçambique 

Apesar desta realidade ser cada vez pior, Cabo Delgado raramente recebe atenção internacional, a menos que ocorram grandes ataques ou haja novidades sobre projetos energéticos. No entanto, por trás dos números e das manchetes – ou da falta delas – estão pessoas vivendo com medo. Famílias separadas, plantações abandonadas, fontes de água perdidas e o acesso aos serviços de saúde repetidamente interrompidos. 

MSF apela todas as partes armadas para que deem prioridade à proteção dos civis e garantam que as pessoas acessem de forma segura os serviços básicos. É necessário respeitar e proteger os serviços médicos, permitindo que os profissionais de saúde prestem cuidados nas estruturas e nas clínicas móveis. 

No fim de contas, as pessoas em Cabo Delgado querem segurança. Querem reconstruir suas vidas. Algumas ainda mantêm a esperança de voltar para casa, mesmo quando mais nada resta. Outras já não acreditam que voltarão, mas não conseguem fazer planos para um futuro em outro lugar. 

Com tantas crises em escalada que exigem a atenção global, a crise em Cabo Delgado não pode ser esquecida. As pessoas em Cabo Delgado estão simplesmente pedindo uma oportunidade para viver sem medo. 

 

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