Moçambique: MSF encerra resposta de emergência na cidade de Palma

O projeto evoluiu de uma ação de emergência para a reconstrução do sistema de saúde, mas acesso aos cuidados médicos em Palma está longe de ser suficiente

O enfermeiro Helder Torres realiza consultas pediátricas em Olumbe, uma comunidade onde clínicas móveis de MSF oferecem cuidados médicos a pessoas com acesso limitado a serviços de saúde.©MSF
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No final de março de 2021, grupos armados não estatais posteriormente afiliados ao Estado Islâmico em Moçambique atacaram e saquearam a a vila de Palma, na província de Cabo Delgado, Moçambique. Ao longo de vários dias de cerco, mais de mil pessoas foram mortas e cerca de 67 mil foram deslocadas, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM). O ataque isolou a cidade costeira, conhecida internacionalmente por abrigar grandes projetos de gás natural liquefeito. Isso teve consequências imediatas e devastadoras para os moradores e para o sistema de saúde. Algumas unidades de saúde foram gravemente danificadas, incluindo o Hospital Distrital de Palma; profissionais de saúde foram forçados a fugir, deixando comunidades inteiras sem acesso a cuidados.

“Quando chegamos, reinava um estado de emergência”, recorda Esperança Gabriel António, coordenador das atividades de obstetrícia de Médicos Sem Fronteiras (MSF). “As mulheres grávidas tentavam sobreviver à fome enquanto levavam as suas gestações adiante.”

 

Cuidados de emergência em meio ao deslocamento e ao medo

Logo após o ataque, MSF iniciou atividades médicas de emergência, estabelecendo operações em Afungi, onde milhares de pessoas procuravam refúgio após caminhar por dias pelas matas sem comida nem água.

“Após a guerra [o ataque], fomos os primeiros a apoiar as unidades de saúde”, afirma António João Jenga, técnico em medicina. “Os profissionais de saúde já não estavam lá.”

Durante algumas semanas, no auge da emergência, prestamos cuidados de saúde gerais, tratamos pessoas com lesões traumáticas e doenças e facilitamos o encaminhamento e a evacuação de pacientes em estado crítico, em um contexto em que nem sequer os cuidados básicos estavam disponíveis.

Transição da resposta de emergência aos cuidados de saúde cotidianos

À medida que as condições de segurança gradualmente evoluíam e as pessoas começavam a retornar a Palma no final de 2021 e ao longo de 2022, as necessidades de cuidados de saúde mudaram. A prestação de cuidados de emergência deu lugar ao enorme desafio de reconstruir os serviços de rotina.

Rachide, coordenador do projeto de MSF em Olumbe, no momento em que MSF está doando uma ambulância tuk-tuk para a comunidade. Isso permitiu que as pessoas fossem encaminhadas ao hospital de forma mais rápida e confortável. ©Costantino Monteiro/MSF

MSF expandiu suas clínicas móveis no distrito de Palma, ao mesmo tempo em que apoiava os serviços essenciais no hospital distrital de Palma e em outras unidades. Em colaboração com o Ministério da Saúde, os cuidados de saúde materno-infantil, os serviços de saúde sexual e reprodutiva, os cuidados hospitalares e ambulatoriais, as vacinações e os serviços de saúde mental foram progressivamente restabelecidos. Nos cinco anos que seguiram à fase aguda da emergência, MSF realizou:

  • +76 mil consultas ambulatoriais
  • +5.300 internações
  • +4.100 partos assistidos
  • +20 mil casos de malária tratados.

Ainda assim, o acesso aos cuidados permaneceu frágil, especialmente para moradores de áreas remotas. As distâncias, os custos do transporte e a insegurança continuaram a dificultar o acesso ao tratamento.

“Se o hospital fica longe e você não tem dinheiro, como irá?”, questiona Sumail Issa, paciente de Olumbe. “Com MSF, finalmente consegui fazer testes para detectar doenças graves, como o diabetes.”

 

Cuidados de saúde para HIV e tuberculose após anos de interrupções 

Anos de conflito e deslocamento também afetaram gravemente os cuidados para pessoas que vivem com HIV e tuberculose (TB), que necessitam de tratamento contínuo e de longo prazo. 

Antes do ataque de 2021, dados do Ministério da Saúde indicavam que cerca de cinco mil pessoas recebiam tratamento para o HIV no distrito de Palma. O conflito afetou gravemente os serviços, interrompendo a continuidade dos cuidados. Quando os serviços de saúde começaram a funcionar de forma mais regular, no final de 2023, os cuidados relacionados ao HIV e à tuberculose tornaram-se necessidades ainda maiores.. Em 2025, apenas cerca de 1.600 pessoas estavam ativamente em tratamento para o HIV.

“No início, ninguém prestava atenção ao HIV”, afirma Edwin Moshi, coordenador de atividades médicas de MSF em Palma. “Temos pacientes que conhecem o seu estado de saúde, mas não conseguem seguir o tratamento por várias razões. Temos pessoas que negam o seu estado. Perdemos alguns pacientes devido a um acompanhamento inadequado.”

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A partir de 2024, MSF passou a dar maior foco ao HIV, à tuberculose e ao HIV avançado. Em colaboração com o Ministério da Saúde, reforçamos os diagnósticos, a capacidade laboratorial e o rastreio de pacientes. Em menos de dois anos, 348 pessoas receberam tratamento para o HIV em fase avançada, muitas das quais procuraram cuidados de saúde numa fase tardia.

Desafios no combate do HIV e da tuberculose  

Pesquisa realizadas pelas equipes de promoção de saúde de MSF no distrito de Palma revelam que muitas pessoas compreendem o HIV e a tuberculose com base em sintomas e rumores, em vez de explicações médicas. O HIV é frequentemente visto como uma sentença de morte ou uma doença “trazida por estrangeiros”; a tuberculose é temida por ser considerada altamente contagiosa através do contato cotidiano. 

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Alguns membros da comunidade acreditam que podem contrair HIV nas unidades de saúde através de medicamentos ou testes. O medo do estigma e da exclusão social desencoraja as pessoas a fazer o teste e em aderir ao tratamento. Em alguns casos, as pessoas escondem a sua condição ou interrompem a medicação assim que se sentem melhor.

Para tentar responder a esses desafios, MSF investiu no engajamento comunitário, no aconselhamento e em serviços de saúde mental, trabalhando em conjunto com agentes de saúde comunitária, obstetrizes e lideranças locais para reconstruir a confiança nos serviços de saúde.

Realizamos sessões sobre o HIV e, quando falamos sobre o assunto, as pessoas ganham coragem para continuar o tratamento.”

– Teodoro Joaquim Vicente, agente comunitário de saúde mental 

No último ano, MSF lançou uma campanha de “testagem e tratamento” em seis comunidades do distrito de Palma. Esta abordagem combinou visitas domiciliares, a realização de testes em locais públicos e o reforço do acompanhamento dos doentes. Cerca de cinco mil pessoas foram testadas para o HIV, sendo que quase um terço delas o fez pela primeira vez. Embora a adesão ao tratamento fosse inicialmente baixa, a melhora no acompanhamento fez com que o número de pessoas que iniciaram o tratamento antirretroviral para o HIV aumentasse de 15% para 77% entre as diferentes fases da campanha.

Agente de saúde comunitária no distrito de Palma durante uma campanha que mobilizou a comunidade para melhorar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento do HIV, testando mais de quatro mil pessoas. ©Sofia Minetto

Os resultados destacaram tanto os progressos alcançados como a necessidade de ampliar e adaptar a resposta médica. A desconfiança, o medo do diagnóstico, a distância até as unidades de saúde e a qualidade inconsistente dos serviços continuam a limitar a capacidade das pessoas de fazer o teste e dar continuidade com o tratamento.

Transferência das nossas atividades

Todos os sete centros de saúde do distrito de Palma encontram-se novamente em funcionamento, com o reforço das capacidades do Ministério da Saúde. Estamos encerrando nossas atividades médicas no distrito, tendo chegado ao fim de um projeto que evoluiu de uma resposta de emergência para a reconstrução do sistema de saúde, e que agora devolve as responsabilidades às autoridades locais.

No entanto, sistemas de saúde afetados por anos de conflito e insegurança persistente levam tempo para se recuperar. A escassez de funcionários, as limitações de coordenação e comunicação entre as unidades de saúde, as longas distâncias e a escassez no estoque de medicamentos continuam a afetar o acesso e a continuidade dos cuidados para a população.

Palma continua amplamente conhecida como o centro dos grandes projetos de gás natural liquefeito de Moçambique, atraindo investimento e atenção internacional. O trabalho longo, mas essencial de reconstrução do sistema de saúde e da confiança das comunidades permanece menos visível. À medida que MSF conclui as suas atividades, uma atenção duradoura continua necessária para garantir o acesso a cuidados de saúde gratuitos e de qualidade para as comunidades em Palma e em todo o norte de Moçambique.

 

Na província de Cabo Delgado, MSF continua implementando projetos em Mocímboa da Praia e Macomia, bem como em centros de detenção em Pemba. Prestamos consultas gerais, serviços de saúde materno-infantil, cuidados de saúde sexual e reprodutiva, tratamento para HIV e tuberculose, e apoio em saúde mental e psicossocial. Essas ações são realizadas através de clínicas móveis e atividades comunitárias, encaminhamento de pacientes para unidades de saúde e apoio a centros de saúde e hospitais, em colaboração com o Ministério da Saúde. Também respondemos a emergências em Cabo Delgado e em outras províncias de Moçambique.

Em 2025, a organização realizou mais de 100 mil consultas externas, tratou quase 50 mil casos de malária e assistiu 7.500 partos em Moçambique. 

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