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Psicóloga no Afeganistão: “A generosidade do afegão é facilmente notável”

Barbara Costa relata sua experiência com MSF oferecendo cuidados de saúde mental no Afeganistão, onde a profissional atuou de setembro de 2020 a maio deste ano
03/09/2021
Psicóloga no Afeganistão: “A generosidade do afegão é facilmente notável”

Foto: Arquivo pessoal

“No dia 15 de agosto de 2021, foi notícia no mundo inteiro que o presidente do Afeganistão deixou o país e o grupo Talibã chegou à capital. Amigos me escreveram para perguntar como eu estava, alguns não sabiam que eu tinha deixado o país há três meses (Barbara atuou no Afeganistão entre setembro de 2020 a maio de 2021). Ex-colegas de trabalho também escreveram. Entre nós, o sentimento era muito parecido: preocupação com os afegãos e lembranças da equipe afegã e dos pacientes. 

A equipe de estrangeiros era composta por pessoas de diferentes nacionalidades e havia muitos funcionários afegãos. O hospital era o maior da região. Eu era responsável pela equipe de saúde mental, que trabalhava no pronto-socorro, nas enfermarias (feminina e masculina), com queimados, pediatria, cirurgia, UTIs (infantil e neonatal), vítimas de violência de gênero e maternidade.   

Na maternidade, as mulheres davam à luz e partiam num intervalo curto de tempo em comparação com os padrões ocidentais. Com pouco tempo de vida, os bebês já tinham seus olhos pintados e, alguns, até as unhas. Crianças pequenas já usavam várias pulseiras, e as roupas eram muito coloridas, contrastando com as burcas nas ruas.

Apesar da distância do idioma, a comunicação e o acolhimento sempre foram feitos. A generosidade do afegão é facilmente notável. Ainda crianças, alguns pacientes me ofereciam o pouco que tinham em forma de agradecimento. Vinham com uma pipoca, uma mexerica e muitos sorrisos.

Foi muito triste saber que o supermercado que frequentávamos foi destruído, que o barulho de bombas estava cada vez mais forte. Apesar de todas as dificuldades, o hospital não parou, os afegãos sabiam da importância crescente daquele serviço para a comunidade.

As condições de vida da população eram precárias. Foram décadas de guerra, deixando grandes impactos para a saúde mental. Depressão e estresse pós-traumáticos eram frequentes. Muitos pacientes narravam seus pesadelos e seus medos, outros, mal conseguiam pôr em palavras seus sentimentos e recorriam ao hospital quando já havia algum sintoma físico denunciando que algo não ia bem.

O dia de amanhã é incerto de uma forma que não conseguimos imaginar. Uma vez um colega afegão me disse: ‘Eu nunca sei se vou ver minha esposa no final do dia’. O impacto na saúde mental dessas pessoas é incalculável e as necessidades, gritantes. Fico na esperança de que esse povo que me acolheu tão bem fique bem!”

 

Barbara atuou como coordenadora de atividades de saúde mental de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em duas cidades do Afeganistão: Kandahar, no centro de tratamento de tuberculose multirresistente, e Lashkar Gah, no hospital geral Boost.

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